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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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segunda-feira, 14 de abril de 2014

"O Deus de Israel não gosta de convarde", Pondé.


foto divulgação

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo
Título original: Nôach

O Deus de Israel não gosta de covardes. Homem, mulher, criança, todos são chamados à coragem, à dor e a tomar decisões difíceis.

Noé (Nôach), foi um desses heróis. Erich Auerbach, no seu "Mímesis", afirma que Deus testa seus heróis e heroínas, levando-os ao limite do insuportável, para que, sobrevivendo ao teste, descubram por que foram eleitos. Deus funda, assim, a ideia de autoconhecimento na literatura ocidental.

"E os que vieram, macho e fêmea, de toda criatura vieram, como Deus lhe havia ordenado; e o Eterno o fechou para protegê-lo. E foi o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e multiplicaram-se as águas, e alcançaram a arca, e levantou-se de sobre a terra" (Gênesis, 7; 16-17, edição hebraica).

O filme "Noé", de Darren Aronofsky, é sobre eleição. "Eleição" é um conceito, muitas vezes, pouco compreendido pelo mundo contemporâneo, maníaco por felicidade "projetos do self" e sucesso.

Os eleitos pelo Deus de Israel só têm problemas; a solidão os assola, o medo e o sofrimento os persegue. Erich Auerbach entende muito mais de "eleição" na literatura israelita do que muito rabino, pastor e padre por aí, obcecados por vender autoajuda espiritual. "Dificilmente, um deles não sofre, como Adão, a mais profunda humilhação...", afirma Auerbach.

O diretor do filme, faz licenças poéticas, e algumas delas (não tenho como saber o quão consciente ele estava quando as fez) muito sofisticadas, levando em conta a "dramaturgia" do Velho Testamento, como falam os cristãos quando se referem à Bíblia hebraica.

Uma delas, muito pontual, é o uso da pequena tira de couro que o pai de Noé, e depois o próprio, enrola no braço: uma referência direta ao "tefilin" (filactério). A palavra hebraica tem sua raiz em "tefilá", que significa prece. Hoje, ela "virou" um cordão de couro ligado a duas caixinhas que o judeu amarra daquele jeito e também na cabeça (é bem maior do que mostra o filme).

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

11 dicas para ler notícias sem enlouquecer


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As informações em tempo real estão acabando com a nossa sanidade. Um novo livro traz conselhos para quem quer recuperá-la
Danilo Venticinque, na revista Época [via Livros e Pessoas]
Os leitores estão enlouquecendo. Faça uma visita às caixas de comentários de qualquer grande portal e você verá o quanto são raras as demonstrações de bom senso. O caps lock parece ser a tecla da moda. Há xingamentos para todos: o autor da reportagem, os entrevistados, os outros comentaristas e as famílias de todos os envolvidos. Teorias da conspiração abundam. Um acidente de carro na Grã-Bretanha ou a alta no preço dos sanduíches no Rio de Janeiro podem ser culpa da Dilma, do PSDB, da imprensa, do imperialismo americano ou de todos eles juntos, dependendo de quem for o leitor.
Antes que alguém se aventure a buscar uma explicação na política nacional, convém lembrar que esse fenômeno se repete no mundo inteiro. Mudam os nomes dos partidos, os políticos execrados e o idioma dos palavrões. A atitude continua igual. O lado bom é que, salvo algumas infelizes exceções, ainda não estamos discutindo aos berros no meio da rua e pulando no pescoço alheio. Reservamos esse comportamento para as caixas de comentários de notícias. Porque são elas as responsáveis por nossa loucura.
Começamos a consumir informações em tempo real há algumas décadas, mas raramente paramos para pensar se isso é saudável. Já escrevi aqui sobre as vantagens de largar as notícias de vez em quando e reservar tempo para leituras mais nutritivas – reportagens mais longas, ensaios e, sobretudo, livros. Abandonar as notícias permanentemente não é uma opção, ao menos para a maioria de nós. Manter-se desinformado por algumas horas pode ser um prazer, mas a desinformação por um período prolongado logo se transforma em ignorância.
Se as notícias são necessárias, precisamos encontrar uma forma saudável de consumi-las. O livro recém-lançado The news: A user’s manual (Notícias: Um manual do usuário), do filósofo suíço Alain de Botton, traz sugestões para os leitores que querem aproveitar o que as notícias têm de bom sem cair em suas armadilhas. Reuni 11 das principais dicas do autor nos itens a seguir.
1. Tenha um motivo para ler
Com muita frequência, clicamos em notícias nas redes sociais ou nas páginas de grandes portais simplesmente porque não estamos fazendo nada. “As notícias não vêm com manual de instruções porque lê-las é teoricamente uma das atividades mais fáceis e óbvias do mundo, como piscar os olhos e respirar”, afirma Botton. Quando ler notícias se transforma num passatempo, porém, deixamos de pensar sobre as informações que recebemos e aproveitamos muito pouco do que lemos. Antes de ler uma notícia, faça duas perguntas simples para você mesmo: o que você quer saber e por quê? Essas duas respostas tornarão sua leitura muito mais proveitosa.
2. Enfrente seu tédio
“Caetano Veloso estaciona no Leblon” é uma informação que absorvemos instantaneamente. “ONU acusa Coreia do Norte de crimes contra a humanidade” exige algum esforço. As notícias mais relevantes são, na maioria das vezes, as mais monótonas. A culpa nem sempre é do repórter. Alguns assuntos são naturalmente mais áridos do que os outros. Cabe ao leitor perseverar. Se você só der atenção às reportagens fáceis de ler, continuará desinformado mesmo depois de horas dedicadas às notícias.
3. Tente aprender algo
Se você somar todo o tempo que gasta lendo notícias ao longo de um ano, perceberá que essa atividade toma semanas ou até meses inteiros. O que ganhamos em troca do tempo investido? A resposta depende muito do tipo de notícia que lemos e da maneira como encaramos essa leitura. Um mês dedicado a acessar centenas de notícias de política diariamente para ofender candidatos nos comentários é um mês desperdiçado. O mesmo tempo pode ser muito bem aproveitado se lermos reportagens mais aprofundadas sobre os problemas e conquistas do país, entendermos o ponto de vista de cada candidato e nos tornarmos eleitores (e cidadãos) melhores. Depois de ler uma notícia, pergunte-se se aprendeu algo com ela. Se a resposta for “não” na maioria das vezes, é um sinal de que você está lendo as notícias erradas ou dando pouca atenção a elas.
4. Seja seu próprio editor
Diariamente, editores enfrentam a tarefa de escolher quais são os fatos mais importantes para os leitores. A tarefa é difícil e a margem de erro é enorme. O que importa para um leitor pode ser absolutamente irrelevante para outro. Há notícias que todos devem ler, mas a maioria dos nossos interesses é pessoal. Talvez a informação mais importante do dia para você não esteja na manchete, mas sim no pé da página, ou até mesmo em outro site. Busque-a. Você é o único responsável por encontrar o conteúdo que você quer ler.
5. Acompanhe as grandes histórias
Muitas das notícias que lemos são apenas pequenas partes de narrativas muito maiores, que só serão compiladas por historiadores daqui a alguns anos. Notícias como “Batistas abrem espaço para que mulheres sejam pastoras” ou “Lupi voltou a negociar com Eduardo Campos” tornam-se muito mais interessantes quando as enxergamos como peças num quebra-cabeça, e não como fatos que se encerram em si. Acompanhar as notícias diariamente é como ler, ao mesmo tempo, dezenas de livros que ainda estão sendo escritos. Quem se dá conta disso consegue aproveitá-las muito mais.
6. Pense como um estatístico
Diariamente, centenas de milhões de fatos triviais acontecem sem registro nos jornais, revistas ou sites noticiosos. O noticiário privilegia, por princípio, acontecimentos incomuns. Uma desvantagem disso é que, se formarmos nossa visão de mundo com base no jornalismo, teremos a impressão de que fatos atípicos são muito mais frequentes do que parecem. A maioria dos aviões não cai. A maioria dos motoristas não se envolve em acidentes graves. A maioria das pessoas que caminham na rua à noite não é assaltada. Há motivos para termos cuidado, mas o mundo não é tão perigoso quanto os jornais nos dizem.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A vida privada de Jesus

Jesus expulsa os cambistas e os vendedores do templo, em pintura em madeira de Lucas Cranach, o Velho Latinstock
Jesus expulsa os cambistas e os vendedores do templo, em pintura em madeira de Lucas Cranach, o Velho Latinstock
Historiador traça perfil polêmico de camponês nascido fora do casamento que se tornou um revolucionário
Daniela Kresch em O Globo
TEL AVIV – Revolucionário ou conservador? Defensor da guerra ou da paz? Pregador da moral e dos bons costumes ou um profeta do Apocalipse? Há dois mil anos a Humanidade tenta desvendar o mistério de Jesus de Nazaré, que se tornou Jesus Cristo para bilhões de fiéis. A fascinação pelo morador da Galileia levou a numerosas construções e desconstruções do mito. Obcecado pela vida real do homem carismático cujas pregações o levaram à crucificação, o historiador americano Reza Aslan, de 41 anos, dedicou os últimos 20 a escrever “Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré” (Ed. Zahar), cujo original em inglês já vendeu 320 mil exemplares nos EUA e está na lista de best-seller do “New York Times” desde o lançamento, em julho.
Após se debruçar sobre os Evangelhos, escritos apócrifos e de relatos históricos, Aslan, mestre em Teologia e doutor em Sociologia, chegou à conclusão que permeia seu livro: a de que Jesus de Nazaré é tão ou mais interessante do que Jesus Cristo (o “ungido”). Para ele, o homem que inspirou uma das maiores religiões do planeta é uma figura extraordinária, independentemente da crença sobre sua divindade. O livro lança teses polêmicas, como a que José não teria existido e que Maria teria engravidado sem estar casada.
“Dois mil anos depois, o Cristo da criação de Paulo totalmente subjugou o Jesus da História. A memória do revolucionário que atravessou a Galileia reunindo um exército de discípulos com o objetivo de estabelecer o Reino de Deus na Terra, o pregador excepcional que provocou a autoridade do sacerdócio do Templo em Jerusalém ficou quase totalmente perdida. Isso é uma pena”, escreve o autor.
Em entrevista ao GLOBO por telefone, de Washington, Aslan aprofunda essa visão:
- Quando se fala de Jesus de Nazaré, falamos sobre um camponês pobre, analfabeto, dos confins da Galileia, que, por meio do poder de seu carisma e seus ensinamentos, lançou um movimento para os pobres e os despossuídos, que ameaçou as autoridades da época e levou à sua crucificação como um criminoso – afirma Aslan. – Acreditando ou não que ele foi Deus, você tem que admirar o que fez enquanto ser humano.
Jesus defendia preceitos do judaísmo
Para o autor, é impossível entender o que ele diz sem saber o que acontecia na Judeia e na Galileia sob o jugo romano. Aslan descreve Jesus como “zelota”, um pregador que “zelava” pelos preceitos religiosos do judaísmo do século I, imbuído da missão de proteger sua fé em meio à turbulência da Terra Santa sob ocupação romana.
“Na época, havia um sentimento, especialmente entre os camponeses e os pobres devotos, de que a presente ordem das coisas estava chegando ao fim, de que uma ordem nova e de inspiração divina estava prestes a revelar-se”, escreve Aslan. Como religião e política se misturavam, sua defesa da fé foi encarada como subversiva por Roma, principalmente depois que Jesus provocou alvoroço em Jerusalém, derrubando as mesas dos cambistas e expulsando os vendedores do Templo.
O historiador analisa detalhes sobre o que se sabe a respeito de Jesus. Ele sustenta que os Evangelhos não foram escritos para relatar o que realmente aconteceu, mas sim para propagar uma ideia. Nesse sentido, quando os autores dizem que Jesus nasceu em Belém, o objetivo é mostrar apenas que ele cumpriria os pré-requisitos para ser o Messias. Mas o verdadeiro Jesus, o pobre camponês judeu, nasceu numa pequena aldeia varrida pelos ventos, Nazaré.”
Aslan também discute o nascimento virginal e a ideia de que Jesus nunca se casou. Essas não são teorias novas, mas o autor vai além com ideias ainda mais polêmicas, como a de que Jesus era filho de Maria, mas não de José, uma figura que desaparece rapidamente dos Evangelhos. “O consenso é que José morreu enquanto Jesus era ainda criança. Mas há aqueles que acreditam que José nunca realmente existiu, que ele era uma criação de Mateus e Lucas – os dois únicos evangelistas que o mencionam. Essa ausência levou a uma grande dose de especulação sobre se a história do nascimento virginal foi inventada para mascarar uma verdade desconfortável sobre a paternidade de Jesus, ou seja, que ele nasceu fora do casamento.”
Afirmações como essas transformam “Zelota” num livro polêmico, principalmente por causa de um detalhe da biografia de Reza Aslan: ele é muçulmano nascido no Irã. Sua família, pouco religiosa, emigrou para os EUA em 1979, quando ele tinha apenas 7 anos. Na juventude, o historiador chegou a se converter ao Cristianismo para se sentir mais “americano”.
- Quando eu tinha 15 anos, descobri os Evangelhos. Era uma história incrível do Deus do céu e da Terra descendo em forma de um bebê e morrendo pelos nossos pecados. Foi transformador – conta Aslan. – Foi depois que comecei a estudar que me deparei com a figura histórica de Jesus, não o Cristo. Fiquei ainda mais fascinado.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Espiritualidade libertadora


Irenio Silveira, no Filosofia e Espirituailidade

Não é de hoje que se fala da necessidade de uma abordagem mais humanizadora quando o assunto é espiritualidade. Aliás, o Humanismo, desde o Renascimento, já clamava por isso. Entretanto, quando se fala de espiritualidade, não se deve confundir com formatos religiosos.

Leonardo Boff defende a ideia de que, no que diz respeito à espiritualidade, devemos nos concentrar na fonte, que é Deus, e não nos rios, que são as religiões. É isso que faz a diferença entre religiosidade e religião. Embora a religião seja um fenômeno cultural que faz parte de nossa condição humana, transformar a religiosidade em uma gaiola ou camisa de força para a experiência de Deus é, no mínimo, reduzir a sua relevância.

Dalai Lama afirmou que a melhor religião é a que te faz melhor. Isso não é o mesmo dizer que a melhor religião é aquela que te faz bem. Para que você seja uma pessoa melhor, ainda há muitos ajustes a serem feitos. E isso passa pelo desenvolvimento de uma espiritualidade humanizadora e libertadora.

Percebo que ao longo do tempo o cristianismo desenvolveu três tipos de espiritualidade significativos, que marcaram época e movimentos. Muitos desses movimentos repercutem entre nós através dos vários segmentos cristãos e das várias teologias que produziram.

O primeiro tipo é o que chamarei de espiritualidade de dominação. O princípio se baseava na ascese, na prática de exercícios espirituais de orações, meditações e de abstinências. O foco era transformar o indivíduo em um sujeito obediente, capaz de dizer a verdade sobre seus conflitos interiores. O resultado foi o formalismo religioso, o ritualismo e a vida reclusa.

O segundo tipo é o que chamarei de espiritualidade de introspecção. O princípio se baseava na capacidade crítica da pessoa, na autonomia do sujeito de pensar por si mesmo. O foco era de levar o sujeito à descoberta de uma verdade universal, revelada sob a forma de um texto. O resultado foi o fundamentalismo religioso, a interpretação literal das Escrituras, a fuga de um mundo mal e cada vez mais ameaçador.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Menos farisaísmo, por favor

imagem: Internet
As mentiras, ao contrário do que se apregoa, não são todas iguais. Existe mentira de todo tipo: inescrupulosa, malvada, perniciosa, pecaminosa, ingênua. Não se deve esquecer as inofensivas e até as nobres.
O que dizer das mentirinhas amorosas? Aquelas que nascem de lábios apaixonados? Quando o namorado sussurra, seu chamego se colore de um encarnado libidinoso. Em nome do amor, toda e qualquer frase tem força de transformar-se em uma declaração arrebatadora. Esses arroubos não seriam mentira?
Não há como condenar um pai, que mesmo ansioso por descanso, finja disposto a brincar com os filhos. Quem acusa a mãe que lê uma historinha e faz de conta que acreditou nas fadas?
As mentiras que nascem do zêlo também não merecem desprezo. Se ela pergunta: Engordei? Homem nenhum pode responder com absoluta honestidade. Um lânguido nem tanto é o máximo que deve ousar. Verdade é virtude que não sobrevive sozinha. Toda verdade tem de vir precedida pela graça. Os absolutamente sinceros são na maioria das vezes intoleráveis. Toda sinceridade carece da graça porque nela o amor se sobrepõe à retidão. Quem ama não teme ser rotulado como inconstante. Misericórdia encobre. O intuito de proteger patrocina um tipo de mentira: a incoerência.  Há um provérbio bíblico, inclusive, que não condena esse jeito de encobrir os fatos: O ódio espalha dissensão, mas o amor esconde os pecados (10.12).
Quem se oporia a certas mentiras médicas? Quem não se valeu delas? Ainda não vai ser desta vez afirma o mais criterioso médico diante do paciente com um diagnóstico terminal. No corredor do hospital, os parentes combinam entre si ao saberem do veredito: Vamos entrar no quarto, mas nada de choro; temos que manter uma atitude otimista para não abatê-lo mais. Todos disfarçam e a mentira alivia o ambiente. Os sorrisos ensaiados e as conversas amenas não passam de eufemismo. Pura hipocrisia. Uma farsa caridosa, todavia.
Que tal as mentiras poéticas? Os poetas mais exímios mentem. Transformam sentimentos banais em amor inflamado. Realçam a força dos substantivos com adjetivos precisos. Valem-se das hipérboles para descrever as paixões. Inflamam os romances com floreios insinuantes. A poesia tem força de transformar o rei amante em escravo e a donzela amada em rainha. Fernando Pessoa foi feliz ao constatar: Todo poeta é um fingidor. Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente. O poeta nem sempre se dá conta de que sua malicia enriquece a vida.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Nascemos para a imensidão


imagem: Internet
Ricardo Gondim, no seu site
A imensidão fascina. A distância sideral maravilha. O céu se craveja de brilhantes para nos revelar uma glória que precisou navegar anos-luz. Os superlativos cósmicos deslumbram. Só os pequenos intervalos atormentam. Os espaços diminutos afligem.
O preso sofre porque sonha com o outro lado da muralha. Bastariam alguns metros e ele poderia caminhar por onde quisesse. A liberdade, que lhe parece tão próxima, o oprime. O peixe se desespera porque foi jogado pela onda na areia. Ele vê a água pertinho e por mais que se debata, não alcança o espaço onde consegue respirar. O canário gorjeia na gaiola. Seu canto é um lamento. Enjaulado, contempla por entre barras vazadas, os galhos de uma árvore. A independência parece acenar-lhe um convite para um voo livre, mas o pássaro não sabe como sair dali.
A felicidade parece, simultaneamente, próxima e afastada. Sofremos com a sensação de que bastariam alguns milímetros e seríamos plenos. O amor mora na casa vizinha, não nos confins do mundo. No país vizinho, na redondeza bem alí, encontraríamos a bonança que sonhamos. Bastaria termos a chave do portão – nunca temos. A paz pode acontecer a qualquer momento. Sofremos. Reconhecemos que não dispomos de tempo, energia, ânimo para fazer acontecer tudo o que sonhamos, e que supomos ao nosso alcance.
No mito grego, Tântalo foi rei na Frígia. Certa vez, para testar a onisciência dos deuses, Tântalo roubou os manjares divinos. Procurando enganá-los, matou o próprio filho e serviu a carne do menino no lugar da comida que roubara. Descoberta a trapaça, Tântalo precisou ser castigado. Os deuses o lançaram ao Tártaro – um vale abundante em vegetação e água. O castigo de Tântalo consistiu em ver-se impedido de saciar a fome e a sede em meio a tanta fartura. Sempre que se aproximava da água, ela escoava. Ao tentar colher frutos, os ramos das árvores se afastavam para além de suas mãos.
O mito de Tântalo tem a ver com a nossa humanidade. Seu suplício lembra a máxima da psicologia: somos seres desejantes. O preço de nos reconhecermos humanos tem a ver com a percepção de que nossos desejos continuarão a nos acenar de perto, enquanto permanecem inalcançáveis. A espera e o esforço pela felicidade vão torturar sem trégua; a luta pela alegria, exauri e a vontade de triunfar, vergar.
Existe um algo fantástico, que quase podemos experimentar. Pensamos que nos pareceremos com aquele alguém, que quase podemos descrever. Sonhamos com aquele lugar, que quase concebemos. Sabemos de uma alegria, que quase podemos vivenciar. Anelamos por um amor, que quase podemos sentir. Esses quases nos mortificam.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Orar pela Síria, nessa hora tão dura...

imagem: Internet
Se você vai chorar pelos que sofrem na Síria, eu entendo... Faz sentido.

Se você vai orar pelos que sofrem na Síria, não entendo. Não mesmo.

Sei que você vai ficar chateado comigo, mas não tem problema: chateação é coisa que dá e passa e, de mais a mais, daqui a dois dias você está fazendo as coisas como sempre fez...

Mas, se Deus pode fazer alguma coisa pelos que sofrem na Síria e não faz, de que vale orar? Se ele pode fazer, mas fica esperando você orar, faça-me o favor...

Se a sua oração é choro, entendo.

Se é pedido para que Deus faça alguma coisa, bem, não faz sentido nenhum.

(...)

Se me disseres que a mim me falta espiritualidade, retrucarei dizendo que a ti te falta juízo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO, no Peroratio

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A gente morre todos os dias. Mas se esquece e levanta

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Publicado por Graça Taguti [via Pavablog]

Se tem algo que desperta muita ira em nós é o descontrole sobre a hora da nossa morte. E sobre o momento da nossa concepção e nascimento. Sentimo-nos, paradoxalmente, cada vez mais empoderados, tendo como cúmplices as sucessivas invenções das novas tecnologias. O domínio sobre o universo, objetos coisas e pessoas. A era glass, a era touch e a era do controle (a última apontando a implacável vigilância da internet sobre nossa minuciosa intimidade) convivem na atualidade, aparentemente de mãos dadas. Fato é que simulando nosso império volitivo e ditatorial sobre joysticks materiais e virtuais sentimo-nos firmes comandantes de navios nas ondas da web e da vida.

A gente morre quando acorda. Morre de tédio, de preguiça, morre de mesmice, ou não, como apregoaria Caetano Veloso, com aquela voz de fruta sumarenta e lenta degustada em algum recanto nordestino. Tem pessoas que já morreram faz tempo. E nunca desconfiaram disso. Morrem de medo de encarar o medo, de colocar a coragem debaixo de um braço e o medo apoiado no outro braço e prosseguir caminhando, como ressaltaria Brecht.

Morre-se de pavor de mudar cacoetes, opiniões, certezas, repetindo automaticamente velhos e ranhetas comportamentos. Morre-se de medo de encarar as verdades da alma, no espelho da consciência, cujos reflexos nem sempre soam agradáveis ou digestivos. Medo de e enfrentar a relação puída, mas mantida apesar do visível desgaste, devido às oportunas muletas financeiras e quiçá psicológicas. A gente morre na repetição infindável de defeitos pra lá de conhecidos, nossos e dos outros, e anunciados instante após instante em nossa gestualidade e fala reveladora.

Chico Buarque já entoava em sua composição “Cotidiano”: “Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã”. Ou ainda, o seminal poeta clamava em “Construção” — de cuja música reproduzo um trecho:

“Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
“Morreu na contramão atrapalhando o sábado”.

Vivemos rodeados por mortes commoditizadas, sem rosto nem débeis desejos.
Como se salvar de tamanha e paralítica incompetência atitudinal? Tornar-se aficionado por séries televisivas centradas em zumbis ou vampiros, como “Resident Evil” e similares. Sabe-se que os zumbis namoram a eternidade. O protótipo da infinitude, ainda que se arrastem apodrecidos por terrenos estéreis.

A gente morre de frio e de mentiras. De amor escondido e expurgado pela covardia. De afeto enrijecido e estanque. Da flor não manifesta num discurso que se pretendia doce. Poetas, filósofos, estudiosos, escritores circularam o fascínio deste tema. Na religião, os espíritas, erguem a vitoriosa e redentora bandeira da reencarnação. O rabino Nilton Bonder especula sobre a salvação na obra “A Arte de se Salvar — Sobre Desespero e Morte”. Especialistas no assunto ocupam-se, como a dra. Elisabeth Kübler-Ross, fundadora da Tanatologia (estudo científico da Morte) de auxiliar doentes terminais em suas despedidas.

O cineasta Ingmar Bergman em “O Sétimo Selo”, elege a morte como personagem central da trama. Ariano Suassuna, dramaturgo e romancista apregoa: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver”.

Muita gente morre de silêncio. Não joga para fora as fecundas cirandas do coração. Morre de ódio, de inveja. E finge que estes sentimentos, tão descivilizados e deselegantes, pertencem somente aos outros. De soberba, arrogância e interjeições também se morre. E ainda quem deixa a paixão morrer no sexo e faz amor sem prazer. Como quem come uma sobremesa de nariz entupido.

Alguns poetas passeiam com naturalidade pela finitude. Pois parece que sempre há algo de romântico em dizer adeus à existência. Mário Quintana divaga: “Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena”.

Há gente que morre de orgulho, mas não dá o braço a torcer. Criaturas que jamais conheceram a grandeza do perdão, do abraço, da palavra sem mascaramentos.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Crer em Deus e viver como se ele não existisse


Irenio Silveira, no Filosofia e Espiritualidade

Crer em Deus tornou-se sinônimo de ignorância e alienação. A humanidade saiu de um tempo em que crer em Deus era uma exigência para um outro em que crer já não é mais necessário e até desprezível. E isso num período de pouco mais de 300 anos, o que é muito pouco, considerando-se os processos de mudança a que somos submetidos. E o mais impressionante é que o cristianismo assimilou essa mudança produzindo um tipo de fé completamente dissociada da espiritualidade. O cristão, a partir da modernidade, enfrenta um grande risco: crê em Deus, mas vive como se ele não existisse.

Crer em Deus é afirmar seu amor e graça, é não ignorar a injustiça e desigualdade no mundo, é desenvolver a capacidade de perdoar, é superar a tentação de ser autocentrado, é viver no contexto da comunhão. É isso que me leva a buscar uma experiência de fé que vá além das expressões religiosas convencionais. Busco por um cristianismo que vá além das dicotomias que estão presentes nos debates religiosos: sagrado e profano, pentecostal e tradicional, teologia da salvação individual e teologia da prosperidade, católico e protestante.

Acredito que estamos vivendo o momento de viver a fé que seja religare, que produza uma teologia que restaure a relação entre Deus e a pessoa, entre as pessoas e os outros e entre as pessoas e o meio ambiente. Precisamos de uma compreensão de fé que supere a apatia e promova uma atitude simpática. Não há como ser cristãos que creem em Deus e até desenvolvem uma prática religiosa, mas age de modo que o chamado para o cumprimento da missão torne-se irrelevante.

As maiores críticas à fé elaboradas pela modernidade não foram sem motivos Freud disse que crer é uma projeção infantil, Marx afirmou que crer é um instrumento de alienação. Nietzsche bradou que crer é uma atitude inútil. A religiosidade e a teologia modernas firmaram-se a partir de um divórcio entre fé e razão, em que a espiritualidade é lançada para fora do mundo do conhecimento. O descentramento – em que Deus é tirado do centro do conhecimento para dar lugar o homem – levou à fragmentação e ao equívoco.

Isso afeta a maneira como vivenciamos a fé na sociedade contemporânea. Principalmente em relação à comunicação do evangelho. Todos os recursos e métodos de evangelização tornaram-se sem sentido para uma humanidade que aprendeu a viver sem Deus. Mais do que nunca, é preciso reafirmar que evangelizar é dizer com a vida que há um Deus que ama. Uma notícia boa alcança a pessoa humana por inteiro porque faz sentido na vida de quem anuncia.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Salmos chilenos

Catedral_of_stgoLuiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo [via Pavablog]
Dias atrás entrei na catedral de Santiago do Chile. Minha mulher, discípula de Guimarães Rosa, para quem “quanto mais religião melhor”, adora todo e qualquer santo.
Eu, mais miserável nesse assunto, apesar de não religioso, sou facilmente capturado pelo aspecto estético e sublime de templos sagrados. Foi um prazer ver e ouvir aquela missa “en chileno”.
A catedral silenciosa, discreta e com pouca luz, com sua altura gigantesca, nos ajudava a lembrar nosso lugar no mundo -que não me venham os inteligentinhos fazer o blá-blá-blá da crítica à religião, porque a conheço desde o jardim da infância.
Sentir-se “em seu justo lugar no mundo” é parte clássica de toda boa espiritualidade, contra esse narcisismo dos “direitos do Eu total” de hoje, essa coisa “ninja brega”.
Este “justo lugar no mundo” é parte daquilo que o historiador das religiões Mircea Eliade chama de perceber que não somos o “axis mundi” (o eixo do mundo). Toda verdadeira espiritualidade deve nos ajudar a vivenciar este “descentramento” de nosso próprio valor.
O mistério me encanta e me faz sentir menos banal. A sensação da banalidade de tudo me esmaga continuamente. Sou um peregrino da falta de sentido. Uma testemunha da noite escura da alma de San Juan de la Cruz e Terrence Malick. Não levo a sério ateus militantes que ainda acham que ateísmo é “evolução espiritual”. Para mim, ateísmo é, apenas, o modo mais óbvio de ser e um estágio elementar em filosofia.
Fiquei ateu com oito anos. Alguém poderia dizer que com os anos me tornei um ateu encantado pelo “personagem” Deus e pela possibilidade de existir o perdão no mundo, justamente porque, no fundo, não o merecemos. Sou cego, mas pressinto o espaço à minha volta.
O padre em sua homilia falava da alegria da vida. O papa Francisco quando cá esteve tocou neste tema, falando da “religião da alegria”. Não se trata de autoajuda, como pode parecer aos desinformados, mas da mais fina teologia moral cristã (e judaica também). O que é essa alegria? Vejamos.
A vida é precária. A pobreza (material, espiritual, psicológica) é como a gravidade, na hora em que relaxamos, ela nos consome. É uma questão de tempo. Nosso caminho é “para baixo”. Não é à toa que tomamos antidepressivos o tempo todo, cada um se vira como pode. A solidariedade na melancolia devia nos unir a todos. O que não perdoo na autoajuda é que ela mente para nosso justo desespero dizendo que ele é mera questão de incompetência.
É aqui que começa a consistência da teologia da alegria a qual se refere o papa Francisco: temos todas as razões “materiais” do mundo para sermos tristes, o milagre é não sermos tristes todo o tempo.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O rosto da Pietá

Imagem: Blog Canção Nova
Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Embora ela possa esquecê-lo, eu não me esquecerei de você!
Isaías 49.15
Guardo uma miniatura da Pietá. Contrariando a tradição protestante iconoclasta que não permite imagens de escultura, comprei uma pequena réplica da famosa escultura de Michelangelo. Dois motivos me impulsionaram a parar diante do camelô italiano e pagar para trazer a virgem senhora que carrega no colo o filho morto: desejei preservar por mais tempo o sentimento que invadiu o meu peito quando contemplei a imagem pela primeira vez na basílica de São Pedro; também senti o impulso de que deveria lembrar, por anos, aquele amor vigoroso, que a pedra não conseguiu tornar frio ou inexpressivo.
O rosto da jovem talhada em pedra expressa dor. Só um gênio conseguiria pegar um bloco de mármore e cinzelar o sofrimento da virgem mãe. Conheço a dificuldade do escritor quando tenta traduzir em palavras, angústias vividas. Estarrecido, celebro Michelangelo. Ele escreveu na pedra a dor mais profunda. A dor de Maria.
No dia em que parei diante da Pietá, a manhã chuvosa de Roma parecia chorar uma neblina lenta. Eu estava diante de Maria segurando o filho morto. De repente, vi que as chuvas dos séculos foram suas lágrimas. Não consegui mover os pés, os olhos de Maria me seduziram; sua dor se entranhou em mim e passou a ser minha. Percebi que a jovem mulher não segurava um Messias ou o salvador do mundo; em seu colo não jazia a esperança de Israel. Ele era apenas o seu filho. Notei que seus braços seguravam o menino que amamentou, o adolescente que viu crescer e brincar nas ruas pobres e poeirentas da Palestina. A mulher que abraçava o filho não era a Maria idealizada pela tradição cristã, apenas uma mãe sofrida, que não continha o tamanho de seu luto, mesmo petrificada. Derramei o meu pingo de neblina. Chorei diante da estátua porque dentro de mim mora um menino órfão. Eu tenho saudade do colo da Maria (mamãe se chamava Glícia Maria) que me acolheu em seu regaço.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Por que eu nunca me converteria?

Pois que vantagem há em suportar açoites recebidos por terem cometido o mal? Mas se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus.
I Pe 2:20 
Se alguns frequentassem determinadas igrejas eles jamais se converteriam ao cristianismo. Em certas instituições religiosas há desprezo pelo pensar. Os que sentem necessidade de saber o porquê das coisas e rejeitam a possibilidade de se sentirem indoutrinados, goela abaixo, sem que tenham a oportunidade de argumentar, criam repulsa ao fenônemo religioso que se alastra pelo Brasil. Muitos não se converteriam no ambiente que diz: Creia porque estou dizendo; não especule, não questione, aceite apenas. Um lugar onde se exige obediência cega, onde é proibido o exercício do bom senso, pode crescer em membresia, ser bem sucedido financeiramente e sofrer, inclusive, cooptação das forças políticas, mas jamais pode considerar-se legitimamente evangélico. Se você foi a uma dessas igrejas e não se converteu, parabéns. Você tem toda razão de reagir como reagiu. Eu também não me converteria.
Igreja que apequena debate, que se volta para questiúnculas e enfatiza pormenores irrelevantes do tipo mulher deve usar cabelo comprido ou curto? pode pintar as unhas com esmalte vermelho, azul ou de cor nenhuma? tem permissão de usar calças compridas? Além do debate em si ser ridículo,  o mundo nunca mudará através das rédeas curtas desse legalismo coercitivo, dessa demagogia farisaica ou dessa piedade fundamentalista. E se existe um Deus preocupado com tão intrincada rede de pode-não-pode,  melhor mesmo nem se aproximar dele. Como imaginar Jesus morrendo na cruz, e os mártires da igreja adubando com seu sangue o solo de Roma para que a pauta mais relevante dos seguidores de Jesus fosse essa?
Converter-se à fé se tornou crescentemente complicado nos ambientes piegas, das frases prontas, dos chavões sovados e reciclados que jamais favorecem a experiência numinosa do sagrado – na melhor das hipóteses, produzem alucinação.
A pressão do mercado apressa os pastores na busca por projeção. Esse anseio gera comunidades simplistas. A complexidade da vida, com todos as implicações que as escolhas trazem, não comportam respostas simplistas. Um jargão preocupante se difundiu entre os neopentecostais: Está amarrado em nome de Jesus! Essa amarração pretendia conter desde as investidas de Lúcifer às situações corriqueiras que nos afligem como gripe, trânsito engarrafado e problemas na justiça. (todavia, alguns divulgadores da frase não conseguiram evitar a cadeia)
Uma pitada do que acorre na enorme maioria das igrejas que se pretendem evangélicas dá ideia do grau de rejeição que elas podem gerar:
Todos a uma só voz digam: Amém.
Foi fraco ou não ouvi direito? Quero um sonoro Amém.
Todos, mais alto e pausado para afugentar o diabo, gritem Gloria a Deus.
Vou orar para que Deus coloque um círculo de anjos num raio de cinco quilômetros e o diabo não vai se aproximar.
Diga para quem está do seu lado: o ambiente está limpo, agora podemos louvar a Deus.
Evangelho é simples sem carecer desses artifícios simplistas e toscos.
Ora, quem se sente alegre não precisa gritar para potencializar sua felicidade; e o triste não mudará seu estado melancólico por meio de catarse temporária. Culto a Deus não depende de que todas as pessoas sorriam. Não há erro em estar abatido. Higienizar o ambiente para que o diabo não perturbe é tão medieval que chega a constranger. Essas técnicas de manipulação de massas se evidenciam em cada louvorzão, em cada conferência profética em cada congresso pentecostal. Tal suspensão temporária do senso crítico causa espécie por vulnerabilizar o povo a inescrupulosos mercadejadores do sagrado. Em muitos ajuntamentos, o pobre é extorquido até o último centavo do que possui nos bolsos ou na conta bancária. O resultado é que o Brasil já tem líderes de igrejas donos de aviões a jato, bancos, redes de rádio e televisão; alguns com cacife para eleger senadores, negociar comissões no Congresso e apontar o candidato à vice presidência de República. Nesse embalo, o projeto teocrático deixa de parecer impossível e, claro, preocupa.
A pergunta é inevitável: Então, por quais cargas d’água você se converteu e por que eu deveria me converter?
Converti-me porque a mensagem que me apresentaram soou racional e lógica o suficiente para satisfazer o meu intelecto e poderosa espiritualmente para impactar a minha vida. Eu cri invadido pela Graça. O Evangelho também indicou o caminho para algumas perguntas que eu já guardava:Deus? Bem? Maldade? Vida? Quem sou eu? Por que estou aqui? 
Se na filosofia naturalista e no cientifismo moderno, eu era apenas um acidente cósmico, se no sistema oriental hindu e budista, mera emanação do todo divino – panteísmo – e se  no espiritismo kardecista, espírito aprisionado a um corpo, cumprindo a lei do karma, a mensagem de Jesus me soou contundente, bonita e nobre: Eu sou a imagem de Deus que é amor. Ele me chamou de amigo, irmão, filho.
A resposta cristã para estupros, tráfico de drogas, clínicas psiquiátricas abarrotadas, embora não seja uniforme, mas cheia de controversias, me bastou. Quanto mais me aprofundei nas questões da justiça e da denúncia do pecado sistêmico que perpetua a miséria, eu vi que o número de opiniões e era proporcional ao número de denominações e escolas teológica. Os apontamentos cristãos para a solução do maior de todos os enígmas: Por que sofre o justo? eram conflitantes. Contudo, nesse emaranhado de argumentos a mensagem do Sermão do Monte me abalou. As palavras ali registradas me pareceram as mais humanas e mais desafiadoras que eu lera. Se no conceito oriental o mal e o bem se fundem numa só realidade, se no conceito espírita o mal se liga ao aperfeiçoamento, no que entendi do ensino de Jesus, o mal extrapola todas as abordagens. Ele tem que ser combatido. O mal decorre da liberdade. Fomos criados por Deus para a liberdade. Muitas vezes nos valemos dessa vocação para destruir. O mal é um acinte, jamais tolerado ou compactuado por Deus que interpela, sem cessar, homens e mulheres para enfrentarem todas as formas de antivida como suas mãos, pés e boca.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Por uma fé que se torna cultura



Uma fé que não possa ser partilhada e vivenciada de modo significativo pelas pessoas a partir do seu contexto cultural não vale a pena ser vivida. É celebre a formulação do papa João Paulo II: “Uma fé que não se torna cultura é uma fé que não foi plenamente recebida, não inteiramente pensada, não fielmente vivida”. O cristianismo sempre vagueou entre a inculturação e a globalização da fé, entre uma fé que se expressa no contexto da cultura e a universalização de valores e princípios que orientam a vida de fé. A grande questão que envolve a teologia tem a ver com a maneira como se torna possível vivenciar a chamada “fé uma vez por todas confiada a santos” (Judas 1.3).

Uma fé assim tem a ver com a identidade de uma comunidade local, com a maneira como as pessoas enfrentam seus conflitos de vida. Isso é o que está presente no cotidiano da vida comunitária, é o que encoraja as pessoas diante da crise, é o que ilumina a busca de sentido, é o que fortalece a esperança e o que aponta um futuro. Uma experiência de fé assim está sujeita a uma atualização constante, carece de aperfeiçoamento a partir de um processo permanente de diálogo. Já houve tempo em que fazer missão era exportar um modelo cultural, confundido-se unidade com uniformidade.

O fenômeno da globalização, marcado pelas novas tecnologias de informação, permite um fluxo cultural maior entre o global e o local num efeito de complementaridade. Daí a máxima “pensar globalmente, agir localmente”. O que se percebe é que o global é sempre assimilado localmente de uma forma muito particular, de modo que a experiência de uma cultura local só pode ser compreendida à luz de paradigmas globalizados. E isso se dá no campo da fé também.

A realização da missão no contexto da cultura é a característica principal do Reino de Deus. Nesse sentido, Jesus afirmou que seu Reino não é deste mundo, mas que é trazido para as pessoas que nele vivem como realização plena de sua humanização. A realização do Reino em diferentes épocas e em diferentes espaços traz exigências para a vida de fé. Sua essência permanece, mas suas formas de expressão podem mudar, como mudou ao longo da história.

O que é comum todos os povos, línguas e nações é a graça salvadora, revelada na pessoa de Jesus de Nazaré e proclamada no Evangelho. Trata-se de uma iniciativa divina de se autocomunicar com a humanidade toda, de modo que a fé deve ser entendida sempre como a resposta a esse gesto de Deus. Fé que não acolhe o gesto divino como graça não faz sentido. O gesto divino se realiza nessa acolhida de fé por parte das pessoas e se expressa por meio das representações e ações no âmbito da cultura. O humano é marcado pela cultura. É por causa dela que fazemos uso da linguagem e de gestos para interagir com outras pessoas. Sendo assim, toda a revelação só é compreendida como inculturada. Não dá para falar em uma fé pura, mas que é sempre vivenciada no interior de uma realidade cultural.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Inveja – grilhão que arrasta os fracassados

imagem: Internet

Inveja é tristeza diante do bem, do talento, da idade, do poder ou do sucesso do outro; nasce quando a excelência de uma pessoa arrasa com o valor da outra. A igreja cristã do século IV classificou a inveja como um dos sete pecados capitais. Santo Tomás de Aquino a tratou como pecado mortal (portanto, imperdoável) e responsabilizou a inveja por outros vícios: murmuração, detração, ódio, dissensão, alegria pela derrocada alheia. Na tradição judaica, a inveja motivou o primeiro assassinato. No Gênesis, Caim matou Abel por não tolerar que Deus preferisse a oferta do irmão à dele. Mais tarde, nas tábuas dos dez mandamentos, a inveja foi condenada na proibição de cobiçar qualquer coisa do próximo.
Inveja participa como ingrediente nas tramas da melhor literatura. E ninguém a retratou melhor do que William Shakespeare. Em Otelo, ele descreve os mecanismos que incitam ódio e ciúme a partir da inveja. Otelo é general reconhecido por seus triunfos em batalhas terrestres e marítimas. Ao assumir a posição de chefe de Estado no Chipre, nomeia Cássio como braço direito. Mas suscita a inveja de Iago, que passa a conspirar contra ele. As desavenças que nascem daí – e que caracterizam as tragédias shakespeareanas  - são horrorosas.
Iago destila uma suspeita mortal em Otelo, com o intuito de levá-lo a acreditar que sua mulher, Desdêmona, o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o amor, que o general nutre pela mulher e a desconfiança incitada por Iago faz Otelo despencar da posição de herói. Debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo  perde o posto de general e é sentenciado à prisão. Sem saída, acaba por tirar a própria vida com um punhal.
José Ingenieros declara que
a inveja é uma adoração dos homens pelas sombras, do mérito pela mediocridade. É o rubor na face sonoramente esbofeteada pela glória alheia. É o grilhão que arrasta os fracassados. É a amargura que toma conta do paladar dos impotentes. É um venenoso humor que emana das feridas abertas pelo desengano da insignificância própria. Mesmo não querendo, padecem desse mal, cedo ou tarde, aqueles que vivem escravos da vaidade; desfilam pálidos de angústia, torvos, envergonhados de sua própria tristeza, sem suspeitar que seu ladrido envolve uma consagração inequívoca do mérito alheio. A inextinguível hostilidade dos néscios foi sempre o pedestal de um monumento”.
Inveja é pior que ódio. O ódio não se contém e, devido à fúria, sempre faz alguma coisa. A inveja por sua vez, aceita manter-se quieta; covarde, contenta-se com as sombras. Para semear suspeita, a inveja precisa se mover sob o cobertor das trevas, feito ratazana no esgoto. O invejoso deseja que todos os outros desacreditem da grandeza humana. Revolve lama para que as pessoas não notem  seu nanismo interior. Também se esconde em sepulcros caiados para iludir e semear dúvida. Ingeniero afirma que o invejoso sem coragem para ser assassino, resigna-se a ser vil.
No filme Amadeus, Salieri não admite a genialidade de Mozart. Inconformado, precisa demonizar o homem que admira. Ele tenta diminuir o talento extraordinário de Amadeus, procurando convencer as demais pessoas de seu caráter desprezível. Salieri não se inquieta com o jeito debochado de Mozart, ele detesta a capacidade extraordinária que ele tem de compor. E se pergunta porque não consegue transformar o próprio moralismo em genialidade. Depois de tentar estigmatizá-lo como um nada, parte para destruí-lo. Salieri, porém, não reúne coragem sequer de agir como algoz. Como hiena, aguarda que outros predadores abatam a presa para depois festejar em cima da carcaça.

terça-feira, 4 de junho de 2013

O sol sobre o pântano

foto: Alexandre Catan/Divulgação
Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

"Somos todos leprosos!", afirma o Monsenhor no livro "O Casamento", de Nelson Rodrigues, muito bem adaptado e dirigido por Johana Albuquerque, em cartaz no teatro Tuca.

O que quer dizer esta afirmação exagerada "Somos todos leprosos"? No romance adaptado existe uma personagem leprosa, e ela se torna, na fala do Monsenhor, o paradigma da humanidade em nossa humanidade. Todos necessitamos de misericórdia porque estamos "em pedaços", e estes pedaços "desfilam" pelo palco, gemendo de prazer e dor.

Nelson Rodrigues é um desses clássicos que todo mundo fala mas pouca gente conhece de fato. Como ele é "cult", dizer que ele é o "máximo" é algo esperado em jantares inteligentes, afora, é claro, os ignorantes que o acusam de "machista" ou, na versão mais moderninha da mesma bobagem, "sexista".

"Um Anjo Pornográfico", título da excelente biografia escrita por Ruy Castro, é uma forma precisa de descrevê-lo. Porque, mesmo sendo pornográfico, ele ultrapassa o discurso sobre sexo para falar do "miserável tédio da carne" que não fala especificamente da carne, mas sim da carne como pele da alma e não do corpo. Seus textos parecem confissões de agonia da alma diante do pecado, na mais velha tradição cristã do começo do cristianismo.

Nelson não é um mero autor de sacanagem (Nelson não é um Sade pernambucano), mas sim um autor espiritual, no sentido mais forte da palavra, talvez, o melhor teólogo que o Brasil já produziu, já que nos últimos anos a teologia brasileira é mais autoajuda do que qualquer outra coisa.

Se formos situá-lo na tradição ocidental, eu o colocaria no encontro entre três gigantes: Freud (sexo como centro dilacerante da alma), Dostoiévski (a alma só sobrevive numa atmosfera de misericórdia porque seu elemento natural é o perdão) e Santo Agostinho (a consciência de que todo drama do corpo é em si um drama da alma). A obra rodriguiana faz de Freud um teólogo.

A expressão "Sol sobre o pântano", que descreve muito bem o efeito causado pela montagem de Johana Albuquerque, é um modo presente na fortuna crítica para nomear a obra dramatúrgica de Nelson: sua obra ilumina nossa miséria. A expressão foi usada por Léo Gilson Ribeiro, nos anos 1960, num texto no qual ele diz ser nosso maior dramaturgo um expressionista brasileiro.

Nelson era um obcecado por sexo, adultério, sífilis, crime passional, homossexualismo (pederastia), cunhadas gostosas, todas umas Lolitas cariocas. "Em cada esquina do subúrbio carioca existe uma Anna Karenina e uma Emma Bovary", dizia Nelson. No Brasil, a tragédia anda de lotação.

No mesmo artigo, Léo Gilson Ribeiro cita a famosa passagem na qual Nelson, comentando sua peça "Bonitinha, mas Ordinária", afirma que "a nossa opção é entre a angústia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece. E se me perguntarem o que eu quero dizer com a minha peça, eu responderia: que só os neuróticos verão a Deus".

Nelson ri dos idiotas que ainda afirmam que no sexo há redenção e que a revolução sexual nos salvará do tédio. Não, o sexo como sentido da vida é tédio puro. Só idealiza o sexo quem não faz muito sexo. No "Casamento" não é outro o sentido do suicídio de Antônio Carlos, o comedor de todas a mulheres do mundo.

As risadas artificiais desvelam o vazio que carrega os personagens arrastados por protocolos: "Não se adia um casamento na véspera só porque a noiva está menstruada!", de novo, decreta o Monsenhor, o oráculo do romance.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O terror da ambivalência

002
Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo - [via Pavablog]
Você esconderia judeus em sua casa durante a França ocupada pelos nazistas? Não, não precisa responder em voz alta.
Melhor assim, para não passarmos a vergonha de ouvirmos nossas mentiras quando na realidade a janta, o bom emprego e a normalidade do cotidiano sempre valeram mais do que qualquer vida humana. Passado o terror, todos viramos corajosos e éticos.
Anos atrás, enquanto eu esperava um trem na estação de Lille, na França, para voltar para Paris, onde morava na época -ainda bem que tinha minha família comigo porque Paris é uma cidade hostil-, li a resenha de um livro inesquecível na revista “Nouvel Observateur”.
Nunca li esse livro, nem lembro seu nome, mas a resenha era promissora. Entrevistas com filhos e filhas de pessoas que esconderam judeus em casa durante a Segunda Guerra davam depoimentos de como se sentiram quando crianças diante dos atos de coragem de seus pais e suas mães.
A verdade é que essas crianças detestavam o ato de bravura de seus pais. Sentiam (com razão?) que não eram amados pelos pais, que preferiam pôr em risco a vida deles a protegê-los, recusando-se a obedecer a ordem: quem salvar judeus morre com eles.
Podemos “desculpar” as crianças dizendo que eram crianças. Nem tanto. Adolescentes também sentiam o mesmo abandono por parte dos pais corajosos. Cônjuges idem.
Está justificada a covardia em nome do amor familiar? Nem tanto, mas deve-se escolher um estranho em detrimento de um filho assustado?
Tampouco dizer que os covardes também seriam vítimas vale, porque o que caracteriza a coragem é exatamente não se deixar fazer de vítima -coisa hoje na moda, isto é, se fazer de vítima.
Não foi muito diferente aqui no Brasil durante a ditadura, guardando-se, claro, as diferenças de dimensão do massacre.
No entanto, não me interessa hoje essa questão da falsa ética quando o risco já passou -a moral de bravatas. Mas sim a ambivalência insuportável que uma situação como essa desvela, na sua forma mais aguda.
Ou meu pai me ama ou ama o judeu escondido em minha casa, ou, ele me ama, mas não consegue dormir com a ideia de que não salvou alguém que considerava vítima de uma injustiça, e por isso me põe em risco. Eis a razão mais comum dada por esses pais, quando indagados, da razão de pôr em risco sua vida e família: “Não conseguia fazer diferente”. Mas a ambivalência da vida não se resume a casos agudos como esses.
Freud descreveu os sentimentos ambivalentes da criança para com o pai no complexo de Édipo: amo meu pai, mas quero também me livrar dele, e também sinto culpa por sentir vontade de me livrar dele.
Independente de crer ou não em Freud plenamente (sou bastante freudiano no modo de ver o mundo, e Freud foi o primeiro objeto de estudo sistemático em minha vida), a ambivalência aí descrita serve como matriz para o resto da vida.
Os pais amam os filhos (nem sempre), mas ao mesmo tempo ter filhos limita a vida num tanto de coisas (e hoje em dia muita mulher deixa para ser mãe aos 40 por conta deste medo, o que é péssimo porque a mulher biologicamente deve ser mãe antes dos 35). Apesar dos gastos intermináveis, no horizonte jaz o possível abandono na velhice por parte destes mesmos filhos “tão” amados.
Mas, ao mesmo tempo, não ter filhos pode ser uma chance enorme para você envelhecer como um adulto infantil que tem toda sua vida ao redor de suas pequenas misérias narcísicas.
Casamento é a melhor forma de deixar de querer transar com alguém devido ao esmagamento do desejo pela lista infinita de obrigações que assola homens e mulheres, dissolvendo a libido nos cálculos da previdência privada.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Karen Armstrong: "Não espere muito do papa Francisco"

A mais importante historiadora das religiões diz que o novo pontífice não será capaz de reformar a Igreja Católica
TRANSCENDENTE Karen Armstrong, em São Paulo. Para ela, Deus responde à necessidade humana de alcançar o inexplicável (Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)
TRANSCENDENTE
Karen Armstrong, em São Paulo. Para ela, Deus responde à  necessidade humana de 
alcançar 
o inexplicável (Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)
Luís Antônio Giron, na Época
A britânica Karen Armstrong, de 68 anos, tornou-se freira em 1962, num gesto de revolta contra o materialismo de sua família. Seus ideais religiosos se desfizeram nos sete anos em que esteve no convento. Quando desfez os votos, depois de se formar em letras na Universidade Oxford, já não acreditava em Deus. Passou a estudar as religiões para tentar recuperar a fé. Tornou-se a mais eminente historiadora das religiões da atualidade. Escreveu duas dezenas de livros sobre o tema. Foi pela ciência que ela diz ter reencontrado Deus. Há duas semanas, ela participou da série de debates Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre e São Paulo. Falou com ÉPOCA sobre intolerância religiosa, fundamentalismo e ateísmo. Para ela, Deus não existe se não é praticado.
ÉPOCA – O papa Francisco promoverá mudanças importantes na Igreja Católica?
Karen Armstrong –
 A chegada de um papa latino-americano está dando um ar novo ao Vaticano, um local que precisa se livrar da poeira. O cardeal Jorge Mario Bergoglio conviveu com a pobreza na Argentina. A escolha do nome Francisco comprova seu compromisso com um voto de pobreza. Gostei de vê-lo se hospedar num hotel modesto de Roma. Foi um gesto natural e bonito. Mas ele continua a ser conservador, escolhido pelo mais retrógrado dos papas, João Paulo II. Não espere muito do papa Francisco. Não só porque é difícil romper com a rigidez e a decadência do Vaticano, mas também porque seu perfil é austero. Ele não realizará as reformas radicais de que a Igreja Católica precisa.
ÉPOCA – Uma reforma poderia abrir a Igreja à maior participação das mulheres. Se a senhora fosse eleita papisa num conclave, quais seriam suas primeiras medidas?
Karen –
 Seria impossível. Mas começaria fazendo aquilo que Bergoglio deveria ter feito no instante em que apareceu à multidão do balcão da igreja de São Pedro: pedir desculpas pelos pecados que a Igreja cometeu nos últimos anos. Pediria perdão às crianças assediadas sexualmente por sacerdotes. Pediria perdão às vítimas, porque o papa João Paulo II ocultou esses problemas, incentivando a pedofilia no seio da Igreja. Eu me desculparia com as freiras, por elas sempre ocuparem um lugar secundário tanto nas missas como na hierarquia da Cúria romana. Decretaria, além da participação das mulheres religiosas em todos os níveis da Igreja, o fim do celibato e o direito à opção sexual dos religiosos. Isso traria uma renovação espiritual ao catolicismo. O celibato clerical surgiu arbitrariamente, no século XI, por decreto do papa Gregório VII. Esse decreto está mais do que na hora de cair. É impossível manter a Igreja com proibições que vão contra a natureza humana. O resultado são escândalos sexuais em todos os lugares envolvendo padres.
ÉPOCA – O aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo podem ser aceitos por alguma igreja cristã?
Karen –
 A permissão do aborto e do casamento gay será muito difícil, senão impossível, pois são temas tabus, que chocam milhões de pessoas. Para ser sincera, considero o aborto e o homossexualismo reflexo da civilização egoísta, materialista e consumista em que vivemos. São temas pouco relevantes numa revolução religiosa. Há coisas mais urgentes a fazer, como as que citei anteriormente.
ÉPOCA – Seu livro 12 passos para uma vida de compaixão afirma que a solução para os conflitos mundiais está em aplicar a “regra de ouro”, de Confúcio: “Não trate os outros como você não gostaria de ser tratado”. É suficiente?
Karen –
 Sim, porque a regra de ouro é prática. Ela implica uma ação. Ela sugere a prática de um valor que está em quase todas as religiões: a compaixão – palavra que significa “colocar-se no lugar de outra pessoa e sentir o que ela sente”. Daí nasce a atitude altruísta, que pode mudar a história. As religiões são disciplinas que levam seu praticante a agir. “Alcançar Deus requer disciplina e desprendimento. Não combina com a era tecnológica”
ÉPOCA – Um dos passos que a senhora arrola para viver em compaixão é bem difícil de praticar: “Ame seus inimigos”. Como é possível?
Karen –
 Quando Cristo prega que precisamos amar o inimigo, ele não sugere que você se entregue a ele. Na realidade, ele aconselha evitar o ódio e a vingança. Nelson Mandela (ex-presidente da África do Sul) e o Dalai-Lama (líder espiritual tibetano) são exemplos atuais de homens que não praticaram o revanchismo nem o ódio em relação a seus inimigos. Mandela buscou a reconciliação, mesmo depois de ter permanecido na prisão por 27 anos. O Dalai-Lama não condenou os algozes do budismo, os chineses. Os dois não se vingaram. Preferiram a vida da compaixão.
ÉPOCA – No ensaio Em defesa de Deus (2009), a senhora associa a intolerância, o fundamentalismo e o ateísmo, como movimentos que reduzem o sentimento religioso. Como explica esse entrelaçamento?
Karen –
 Um fenômeno leva ao outro. O ateísmo contemporâneo de Richard Dawkins (zoólogo inglês) e Sam Harris (neurocientista americano) é resultado do fundamentalismo religioso. Tanto ateístas como fundamentalistas são intolerantes, pois condicionaram a existência de Deus a provas factuais e materiais. Para eles, Deus deixou de envolver a transcendência.

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