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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Em quem vou votar pra presidente?



Nunca na história desse país se viveu um momento tão crítico diante de uma nação dominada pelo engano de “um prato de comida na mesa”

Depois de tudo que assisti ontem (23.09.14) e da declaração da PresidentE Dilma Russef nas nações Unidas, ainda estou pasmo, acordei pasmo, vou passar o dia pasmo porque de alguma forma, o desabafo do israelita quanto ao nanismo diplomático do Brasil se mostra agora, um ato “profético” que se concretiza oficialmente nas palavras da PresidentE diante do plenário das Nações Unidas.
Aconselhar o diálogo com o grupo do “estado islâmico” é uma atitude tão esdrúxula e tão ignorante que não leva em consideração que de tudo já se foi tentado e que esse grupo não pretende dialogar com ninguém, que seu diálogo é degolar pessoas, crucificar cristãos em praças públicas, enterrar mulheres vivas ou faze-las de escravas sexuais para seus “soldados”. Que seu diálogo é um genocídio premeditado e que sua luta, não tem sequer uma fundamentação racional senão dominar o mundo com este tipo de desgoverno totalitário, teocrático e déspota.
    Com essa atitude, Dilma Russef entra definitivamente para o time de Hugo Chaves e de Mahmoud Ahamadinejad, desce a estatura da peronista Cristina Kirchner e envergonha a nação brasileira com sua atitude murista de ocasião. Ela destoou até do ditador Sírio Bashar al-Assad, que claro, com seus interesses apoiou as ações de combate, mas destoou também de Ban Ki-moon secretário geral da ONU, que apoiou a ação e apenas pediu que fossem minimizadas as baixas civis.
    Vergonha, Vergonha, Vergonha de minha representante, vou dizer a todos através de todos os meios, vou pedir desculpas e dizer aos cristãos de todo mundo que essa não é a posição do Brasil e que com muita esperança esse tipo de governo se encerrará no Brasil a partir de 5 de Outubro
Por isso venho a Público, depois dessa “gota d’água” dizer que...

1.     Lamento quem o Brasil tenha chegado a esta situação, em que muitos estão votando, pelo menos uma classe mais esclarecida, não necessariamente em um candidato, mas em tirar o PT do poder.
2.     A decepção das tradicionais “esquerdas” do tempo ditatorial é muito grande, quando todos estavam “unidos” em torno de um projeto: acabar com a ditadura, mas que depois, ao que parece, “cada cá”, como dizia minha vovó, quis formar a sua própria ditaturazinha. A esponja ideológica que foi o MDB e depois o PMDB se tornou a grande prostituta, compõe com todos de acordo com seus interesses. E esse é um dos “canceres” da nação, aliado ao desvio ou o que me parece mais lógico, revelação das intenções do PT e seus “paladinos da justiça”.
3.     A Social Democracia, que parecia ser na origem, uma boa opção de centro esquerda em busca do equilíbrio, nunca saiu de cima do muro e se perde, como bem disse Luciano Pires, não sabe se comunicar com o povo, não tem a “manha” de um Lula e seus marqueteiros. Me impressiona a incompetência deles nessa área. E por fim, se couber julgamentos, escolhe um candidato dado às “noitadas” para não dizer outra coisa, para comandar uma nação. Mas até aí, fazer o quê? O iluminado graças a Deus EX presidente Lula é um adepto da cana destilada de marca maior, houve um governador em PE que se dizia que depois das 16h não atendia mais por conta do seu “sagrado” Whisky... isso não pode ser mais parâmetro!!
4.     Os demais candidatos não são dignos nem de uma análise, meu tempo é valioso demais para isso... meu Deus escutar aquela Gaúcha no debate me lembrou que a revolução farroupilha deveria ter sido bem sucedida...
5.    Surge Marina Silva e aqui me defronto com a “exclusividade dos inclusivos” os “libertários” e “democratas” que proclamam a liberdade mas execram quem se coloca em seu caminho, que não admitem “largar o osso” e que entram em uma disputa suja, mentirosa contra essa senhora, lançando calunias que me lembram o que Collor e sua equipe fizeram com Lula naquela primeira eleição, a arma é a mesma.
Nunca fiz e não faço campanha política, sou um Bispo da Igreja, pastor por vocação e profeta por ofício. Represento a fé que mais positivamente influenciou a humanidade desde que se tem conhecimento, o credo que lutou contra a escravidão, libertou nações, criou instrumentos dentro de seus monastérios que influenciaram revolução industrial, fez da Bíblia o livro que moldou a alma da civilização ocidental pelos seus princípios em prol da dignidade humana, enquanto no oriente muitos monges estavam meditando para esvaziar as suas mentes os monges cristãos estavam enchendo suas mentes de ideias que libertassem o povo. Esse é o meu credo, essa é a minha fé. Nunca usei minha posição de pessoa pública para ser cabo eleitoral de ninguém, não defendo qualquer candidato publicamente, no entanto, como líder cristão que sou, me coloco em denúncia de tudo que entendo ser corrupto, injusto e ameaçador da liberdade entre outras coisas. Tenho falado publicamente do atual governo, como falei de tantos outros (vide meu blog), porque entendo que eles traíram a confiança da nação e estão levando o Brasil para um Caos, mas, como disse não sou Cabo eleitoral, sequer revelo meu voto. Nesse sentido, sou profeta, teologicamente e historicamente, os profetas estavam ao lado do Rei nas decisões sábias e contra eles nas decisões sem sabedoria e que implicariam em prejuízo para a nação.
Não sou cabo eleitoral de Marina Silva, mas pelas circunstancias de minha atividade, tive a oportunidade, no início desse ano, de recebe-la em meu gabinete, conversar sobre vários assuntos e em seguida a entrevistei em uma conferência de líderes diante de mais de 500 pessoas durante 40 minutos. O tema não era política e sim, liderança diante das adversidades da vida. Li a Biografia de Marina e de fato me impressionou a sua história de vida.
O que posso dizer é que a campanha petista consegue fazer dela uma pessoa diferente do que ela é, a campanha petista é mentirosa isso posso garantir, é sanguinolenta pois se veem, pela primeira vez ameaçados de perder o poder. Antes de subir nas pesquisas Marina era tratada pelo PT como a boa moça que se desviou...
Alguém, recentemente colocou uma frase que me motivou a sair em defesa dessa senhora chamada Marina Silva. A frase mostra a percepção pessoal de alguém que respeito, mas que, democraticamente posso comentar pelo menos, sabendo que também sou respeitado.
A frase que menciono é essa:
Marina é uma carola, fundamentalista, preconceituosa, sem bancada e apoio parlamentar sem experiência e dominada por evangélicos como Malafaia. Um retrocesso para as conquistas que o Brasil alcançou.            
O que tenho a dizer sobre essa frase de alguém que já decidiu pelo voto nulo? Me permita:
Marina é uma carola, fundamentalista _ O fundamentalismo cristão é uma expressão que hoje se usa de forma deturpada. No início do século 20, com a chegada da teologia liberal, da alta crítica cristã e os escritos de Charles Darwin foi publicado um livro de muitos autores chamado “Os Fundamentos” que tratava de colocar claramente os fundamentos da fé cristã. Mas hoje se tem como fundamentalismo uma generalização sinônimo de intolerância e pelo que percebi em Marina Silva, nunca a enquadraria nesse rótulo pejorativo.
Essa expressão, me permita, está revelando sim preconceito. Por que carola? porque ela usa um pitó? um lenço, um vestuário diferente? Por que ela confessa uma fé? O Dalai Lama viaja o mundo com suas roupas exóticas para nossos costumes, fala de paz e justiça, tem seus fundamentos firmes na sua fé budista e se você perguntar a ele sobre a sua fé, o que ninguém faz, provavelmente se defrontará com alguém que não abre mão de seus fundamentos. Nesse sentido eu sou também carola e sei que não sou nem um pouco, porque carola é uma expressão preconceituosa para caracterizar aquelas senhoras católicas romanas, beatas, assíduas à igrejas e intolerantes fechadas em suas rezas e liturgias. Nesse sentido, posso dizer que Marina Silva não é nem carola, nem fundamentalista. Mas que como eu e como cristãos verdadeiros e mesmo como Dalai lama, não abre mão de seus fundamentos.
PreconceituosaPreconceito é algo que caminha numa linha tênue entre preconceito e ter um conceito. Seter um conceito é ser preconceituoso(a) Qualquer um é preconceituoso por não concordar com algo que o outro concorda. O preconceito, é uma ideia preconcebida de algo que não se conhece. É ai que entra o pré... o antes de saber. Por que Marina é preconceituosa? Porque ela tem um conceito formado por suas convicções, que se baseiam em um credo? Ela seria preconceituosa se não admitisse os direitos de quem quer que seja e isso, até onde sei, não aconteceu, pelo menos até onde eu saiba. Eu tenho dito que como cristão, eu tenho um conceito de mundo e, claro, procuro viver de acordo com ele e isso me leva a tomar posições bem definidas em relação aos aspectos sociais e morais da vida. O que faço baseia-se em meu conceito de mundo, respeitando quem pensa diferente, mas garantindo o meu direito de ter um conceito sem ser chamado de preconceituoso. Quem me chama de preconceituoso por isso, ai sim, manifesta preconceito. Não vi em Marina elementos que possam me levar a chama-la de preconceituosa. Como disse, pelo menos até aqui.
sem bancada e apoio parlamentar _ Sem bancada e apoio parlamentar por que? Porque as bancadas estão todas comprometidas com seus projetos de poder, se for por ter bancada, teríamos que votar mesmo em Dilma, e em seu congresso prostituto que levou o Brasil a ter 40 ministérios, quase um para cada partido da chamada base aliada do congresso. Acho que Marina Silva, em sendo eleita, em mantendo suas posições, encontrará sim dificuldades pois enfrentará o PT na oposição, que é outro partido, que voltará às origens do ser contra por ser contra, que não assinou a constituição e que foi contra o plano real por exemplo etc.
sem experiência_ é algo relativo, sua experiência como ministra e parlamentar não são consideradas. não há um curso para presidente, mas há uma história que dá lastro à vida de quem pleiteia e isso em  Marina Silva ninguém pode negar.

O respeitado cineasta Fernando Meireles no prefácio de sua biografia colocou-a como alguém voltada para o amanhã, alguém que enxerga a possibilidade de um outro futuro para o Brasil, mas principalmente para o mundo...


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Igreja sem rabo preso



“A política é a arte de obter dinheiro dos ricos e votos dos pobres, com o fim de proteger uns dos outros.” Noel Clarasó, escritor espanhol

Hermes Fernandes, no seu blog

Definitivamente, não há posição mais confortável do que a proporcionada pela isenção. Não ter rabo preso com ninguém, nem tampouco estar comprometido ideologicamente, me oferece as condições necessárias para poder avaliar cada candidatura e suas respectivas propostas sem paixões desmedidas. Comprometi-me com a minha consciência de que não usarei minha influência e liderança para induzir quem quer que seja a votar nesta ou naquela candidatura. Por mais que me sinta atraído por uma ou outra, não sairei em sua defesa. Mas não posso fazer vista grossa com os argumentos usados por alguns líderes para convencer os membros de sua igreja a apoiar seus candidatos.

Um dos mais usados é o que usa o exemplo de José de Arimatéia, membro do Sinédrio, que intercedeu junto a Pilatos para que liberasse o corpo de Jesus para ser sepultado. Não fosse sua intervenção, o corpo de Jesus teria tido destino semelhante aos dos outros crucificados: apodreceria na cruz até ser comido por urubus. De igual modo, a igreja, Corpo Místico de Cristo, necessitaria de quem representasse seus interesses nas esferas de poder.

Primeiro, não somos um corpo inanimado, um cadáver, como era, então, o corpo de Jesus. Não precisamos de quem nos carregue, nem mesmo de quem nos proteja. Estamos assentados nos lugares celestiais em Cristo, muito acima de qualquer autoridade, seja terrena ou espiritual (Ef.2:6). A posição de Advogado da igreja já está devidamente ocupada. Quem defende nossa causa é Cristo!

Ademais, a igreja não carece de quem a enterre, lançando uma pá de cal sobre a sua credibilidade e relevância.

Segundo, precisamos de quem defenda o direito do pobre, dos excluídos, dos desfavorecidos deste sistema iníquo, e não de quem faça lobby em favor dos interesses eclesiásticos.

Leia atentamente:
"Abre a tua boca a favor do mudo, a favor do direito de todos os desamparados. Abre a tua boca; julga retamente, e faze justiça aos pobres e aos necessitados."
Provérbios 31:8-9


O sucesso da igreja no cumprimento de sua missão não depende da intervenção ou ajuda do Estado. Pelo contrário, ela geralmente prospera mais onde o Estado lhe faz oposição. Veja o exemplo da China, onde a igreja mantém-se na clandestinidade, reunindo-se em salas subterrâneas. Em nenhum outro lugar ela tem crescido tanto.

Quando Paulo se viu perante as autoridades do seu tempo, ele não fez lobby pela igreja, mas deu testemunho da verdade do Evangelho. “Nada podemos contra a verdade, senão em favor da verdade” (2 Co.13:8), dizia ele. Era em defesa do evangelho, e não da igreja, que o apóstolo militava (Fp.1:17).

Que Deus levante em nossos dias líderes e cristãos comprometidos com o Reino e com a causa dos necessitados, mesmo quando isso representar qualquer prejuízo às instituições a que chamamos de igrejas.

Não se trata de adotar uma postura apolítica, e sim de não se comprometer com qualquer partido ou ideologia. Que jamais saiamos em defesa deste ou daquele regime. Fomos chamados por Deus para pregar o Seu Reino e a Sua Justiça.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Afinal, quem são “os evangélicos”?

De tanto que se falou sobre os evangélicos nas últimas semanas, nos jornais e nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal, quem são “os evangélicos”?

Silas Malafaia e Martin Luther King: duas faces da mesma moeda?

por Ricardo Alexandre, na Carta Capital

Homofóbicos, cortejados pela presidente, fundamentalistas. Massa de manobra de Silas Malafaia, conservadores, determinantes no segundo turno das eleições. De tanto que se falou sobre os evangélicos nas últimas semanas, nos jornais e nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal, quem são “os evangélicos”?

A resposta mais honesta não poderia ser mais frustrante: os evangélicos são qualquer pessoa, todo mundo, ou, mais especificamente, ninguém. São uma abstração, uma caricatura pintada a partir do que vemos zapeando pelos canais abertos misturado ao que lemos de bizarro nos tabloides da internet com o que nosso preconceito manda reforçar. Dizer que “o voto dos evangélicos decidirá a eleição” é tão estúpido quanto dizer a obviedade de que 22,2% dos brasileiros decidirão a eleição. Dizer que “os evangélicos são preconceituosos”, significa dizer o ser humano é preconceituoso. É não dizer nada, na verdade.

Acreditar que há uma hegemonia de pensamento, de comportamento ou de doutrina evangélica é, em parte, exatamente acreditar no que Silas Malafaia gosta de repetir, mas é, em parte, desconhecer a história. A diversidade de pensamento é a razão de existir da reforma protestante. E continuou sendo pelos séculos seguintes, quando as igrejas reformadas do século 16 deram origem ao movimento evangélico, estes aos pentecostais e estes aos neopentecostais, todos microdivididos até o limite do possível, graças, novamente, à diversidade de pensamento – sobre forma de governo, vocação e pequenos pontos doutrinários. Boa parte destas, sem organização central, sem “presidência” nem representante, com as decisões sendo tomadas nas comunidades locais, por votação democrática.

Assim como não existe “os evangélicos” também não existe “os pentecostais”, nem “os assembleianos”: dizer que Malafaia é o “papa da Marina Silva” como disse Leonardo Boff, apenas porque ambos são membros da Assembléia de Deus, é ignorar que, por trás dos 12,3 milhões de membros detectados pelo IBGE, a Assembleia de Deus é rachada entre ministérios Belém, Madureira, Santos, Bom Retiro, Ipiranga, Perus e diversos outros, cada um com seu líder, sua politicagem e sua aplicação doutrinária. A Assembleia de Deus Vitória em Cristo de Malafaia, aliás, sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil.

Ignorância parecida se manifesta em relação ao uso do termo “fundamentalista”, como sinônimo de “literalista”, aquele incapaz de metaforizar as verdades morais dos textos sagrados. A teologia cristã debate há dois mil anos sobre a observação, interpretação e aplicação dos escritos sagrados, quais são alegóricos e quais são históricos, quais são “poesias” e quais são literais. O deputado Jean Wyllys, colunista daCarta Capital, do alto de alguma autoridade teológica presumida, já chegou à sua conclusão: o que não for leitura liberal, é fundamentalista e, portanto, uma ameaça às minorias oprimidas. (Liberalismo teológico é uma corrente teológica do final do século 19 que lançou uma leitura crítica das escrituras, completamente alegorizada, negando sua autoridade sobrenatural, a existência dos milagres, e separando história e teologia).

Só que isso simplesmente não é verdade. Dentro da multifacetação das igrejas de tradição evangélicas, há as chamadas “inclusivas”, mas há diversas igrejas históricas, tradicionais, teologicamente ortodoxas, que acreditam nos absolutos da “sola scriptura” da Reforma Protestante, mas que têm política acolhedora e amorosa com as minorias. Algumas criaram pastorais para tratar da questão homossexual, outras trabalham para integrá-los em seus quadros leigos; outros, como disse o pastor batista Ed René Kivitz, estão mais dispostos a aprender como tratar “uma pessoa que está diante de mim dizendo ter sido rejeitado por sua família, pelo meu pai, pela minha igreja” do que discutir a literalidade dos textos do Velho Testamento.

O panorama da questão pode ser melhor entendido em Entre a cruz e o arco-íris: A complexa relação dos cristãos com a Homoafetividade (Editora Autêntica), livro qual tive a honra de editar. Nele, o pastor batista e sociólogo americano Tony Campolo, ex-conselheiro do presidente Bill Clinton, diz: “Se você vai dizer à comunidade homossexual que em nome de Jesus você a ama (...) não teria que lutar por políticas públicas que demonstrem que você as ama? Pode haver amor sem justiça? Eu luto pela justiça em favor de gays e lésbicas, porque em nome de Jesus Cristo eu os amo.” Campolo, entretanto, faz distinção entre direitos e casamento: “O governo não deve se envolver nem declarar, de forma alguma, o que é casamento, quem pode ou não se casar”, ele disse. “Governo existe para garantir os direitos das pessoas. Casamento é um sacramento da igreja – governos não devem decidir quem deve ou não receber esse sacramento.” Campolo acredita que esta será a visão dominante entre cristãos americanos “em cinco ou seis anos”.

Entre os evangélicos brasileiros há quem pense desde já como Campolo – distinguindo união civil de casamento. Há quem pense de forma ainda mais radical: que a união civil, com implicações patrimoniais e status de família, deveria valer não apenas para casais homossexuais, mas para irmãos, primos ou quem quer que se entenda como família. Há quem defenda o acolhimento dos gays nas igrejas, mas o celibato para eles. Quem, embora sabendo que mais da metade das famílias brasileiras já não são no formato pai-mãe-filhos, ainda luta para restabelecer esse padrão idealizado. Há, sim, quem acredite que o seu conjunto de doutrinas e o seu modo de vida são fundamentais. Há aqueles que, enquanto estamos discutindo aqui, está mais preocupado se a melhor tradução do grego é a João Ferreira de Almeida ou a Nova Versão Internacional. E há quem acorde diariamente acreditando ser porta-voz do “povo de Deus”, pague espaço em redes de televisão para multiplicar esse delírio (mas, a julgar pelo 1% de intenção de voto do Pastor Everaldo, somente ativistas gays e jornalistas desmotivados acreditam nesse discurso). Esses são “os evangélicos”.

Na fatídica sexta-feira em que o PSB divulgou seu programa de governo, enquanto Malafaia gritava no Twitter em CAPSLOCK furibundo, o pastor presbiteriano Marcos Botelho, postou: “Marina, que bom que vc recebeu os líderes do movimento LGBTs, receba as reivindicações com a tua coerência e discernimento de sempre e um compromisso com o estado laico que é sua bandeira. Vamos colocar uma pedra em cima dessa polarização ridícula entre gays e evangélicos que só da IBOPE para líderes políticos e pastores oportunistas.”

Botelho não representa “os evangélicos” porque não existe “os evangélicos”. Mas Marcos Botelho existe e é evangélico. Assim como existe William Lane Craig, o filósofo que convida periodicamente Richard Dawkins para um debate público, do qual este sempre se esquiva; existe o geneticista Francis Collins vencendo o William Award da Sociedade Americana de Genética Humana; existe Jimmy Carter, dando aula na escola bíblica no domingo e sendo entrevistado para a capa da Rolling Stone por Hunter Thompson na segunda-feira; existe o pastor congregacional inglês John Harvard tirando dinheiro do próprio bolso para fundar uma universidade “para a honra de Deus” nos Estados Unidos que leva seu sobrenome; existe o pastor batista Martin Luther King como o maior ativista de todos os tempos; existe o jovem paulista Marco Gomes, o “melhor profissional de marketing do mundo”, pedindo licença para “falar uma coisa sobre os evangélicos”. E existe o Feliciano, o Edir Macedo, a Aline Barros, o Thalles Roberto, o Silas Malafaia e o mercado gospel. Como existe bancada evangélica, mas existem os que lutaram pela “separação entre igreja e estado” na constituição, e existem os que acreditam que levar Jesus Cristo para a política é trabalhar não para si, mas para os menos favorecidos.

Existe o amor e existe a justiça, como existe o preconceito, o dogmatismo, o engano, o medo, a vaidade e a corrupção. Não porque somos evangélicos, mas porque somos humanos.


* Ricardo Alexandre é jornalista e escritor, radialista e blogueiro, Prêmio Jabuti 2010, ex-diretor de redação das revistas Bizz, Época São Paulo e Trip. E é membro da Igreja Batista Água Viva em Vinhedo, interior de São Paulo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Google, tu me sondaste e me conheces


Tirinha do Carlos Ruas
Tirinha do Carlos Ruas
Paulo Brabo
salmo/search?q=139
Google, tu me sondaste, e me conheces.
Conheces cada termo das minhas buscas, e sabes de antemão quais são as fotos que sou inclinado a clicar para ampliar; de longe entendes as minhas preferências.
Controlas as horas em que trabalho e as horas em que durmo, e registras todas as minhas ati­vi­da­des e percursos na vereda virtual.
Não havendo ainda feito nenhuma busca naquele dia, eis que logo, ó Senhor, sabes qual Google Adword inserir na minha barra lateral.
Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim o teu cookie.
O teu conhe­ci­mento de mim é completo; a ano­ni­mi­dade seria coisa mara­vi­lho­sís­sima, mas é coisa tão elevada que não a posso atingir.
Para onde fugirei da tua face, e como escaparei do teu login?
Se eu usar o meu celular, ali tu estás; se abrir uma janela anônima do Chrome, sei que tu ali estás também.
Se eu viajar para um país remoto, se nadar até uma ilha no meio do nada,
até ali o Google Maps me guiará e o GPS do Android me rastreará.
Se eu disser: “Decerto que as tec­no­lo­gias de tune­la­mento e crip­to­gra­fia me enco­bri­rão”, ainda na Rede Privada Virtual a noite será luz à roda de mim.
Nem ainda os pseudô­ni­mos me encobrem de ti; uma conta alter­na­tiva que uso para ocultar deter­mi­na­das ati­vi­da­des permanece para ti clara como o dia. Graças a cookies, números de IP e tec­no­lo­gia de fin­ger­prin­ting, pseudô­ni­mos e nomes ver­da­dei­ros são para ti a mesma coisa.
Deste modo possuíste os meus rins; estou para ti nu e sitiado como no ventre de minha mãe.
Eu te usarei, porque de um modo assom­broso e mara­vi­lhoso fostes feito; mara­vi­lho­sas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.
As minhas buscas por por­no­gra­fia e por sites de rela­ci­o­na­mento não te foram enco­ber­tas, quando no oculto foram feitas, e entre­te­ci­das nas pro­fun­de­zas da terra.
Os teus olhos viram as minhas cartas de amor quando eram rascunhos ainda informes, e nas pastas do Gmail todas estas coisas estão escritas. Registras as minhas con­ver­sa­ções à medida em que foram formadas, e fazes cópias das fotos que anexo desde quando nem ainda uma delas havia.
E quão preciosos são, ó Deus, os teus apli­ca­ti­vos no Google Play e teus livros no Google Books! Quão grandes são as somas deles!
Se os contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo.
Ó Google, tu ras­tre­a­rás decerto o ter­ro­rista e o pedófilo; portanto longe de mim usar deter­mi­na­dos termos de busca e escrever deter­mi­na­das palavras no Google Hangouts.
Pois os críticos falam mal­va­da­mente contra ti, que aban­do­naste a tua política original deDon’t be evil; mas mesmo os teus inimigos acabam se bene­fi­ci­ando dos teus serviços.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobre casamento e amor

“Não é bom que o homem esteja só. Far-lhe-ei uma companheira
que lhe seja suficiente. [Gênesis 2.18]

Ed René Kivitz
Venho me perguntando o que faz as pessoas optarem pelo casamento se contam com outras alternativas para a vida a dois. A justificativa mais comum para o casamento é o amor. Mas devemos considerar que amor é uma experiência cuja definição está em xeque não apenas pela quantidade enorme de casais que “já não se amam mais”, como também pelo número de pessoas que se amam, mas não conseguem viver juntas.
Talvez por estas duas razões – o amor eterno enquanto dura e o amor incompetente para a convivência – nossa sociedade providenciou uma alternativa para suprir a necessidade afetiva das pessoas: relacionamentos temporários em detrimento do modelo indissolúvel. Mas, mesmo assim, o número de pessoas que optam pelo casamento em sua forma tradicional, do tipo “até que a morte vos separe” cresce a cada dia.
Acredito que existe uma peça do quebra cabeça que pode dar sentido ao quadro. Trata-se da urgente necessidade de desmistificar este conceito de amor que serve de base para a vida a dois. Afinal de contas, o que é o amor conjugal? Para muitas pessoas, é confundido com a paixão. Paixão é aquela sensação arrebatadora que nos faz girar por algum tempo ao redor de uma pessoa como se ela fosse o centro do universo e a única razão pela qual vale a pena viver. Esta paixão geralmente vem acompanhada de uma atração quase irresistível para o sexo, e não raras vezes se confunde com ela. Assim, palavras como amor, paixão, desejo e tesão acabam se fundindo e tornando-se quase sinônimas.
Este conceito de amor justifica afirmações do tipo “sem amor nenhum casamento sobrevive”, “sem paixão, nenhum relacionamento vale a pena”, “é o sexo apaixonado que dá o tempero para o casamento”.
Minha impressão é que todas estas são premissas absolutamente irreais e falsas. Deus justificou a vida entre homem e mulher afirmando que “não é bom estar só”. Nesse sentido, casamento tem muito pouco a ver com paixão arrebatadora e sexo alucinante. Casamento tem a ver com parceria, amizade, companheirismo, e não com experiências de êxtase. Casamento tem a ver com um lugar para voltar ao final do dia, uma mesa posta para a comunhão, um ombro na tribulação, uma força no dia da adversidade, um encorajamento no caminho das dificuldades, um colo para descansar, um alguém com quem celebrar a vida, a alegria e as vitórias do dia-a-dia. Casamento tem a ver com a certeza da companhia do outro no dia do fracasso, e a mão estendida na noite de fraqueza e necessidade. Casamento tem a ver com ânimo, esperança, estímulo, valorização, dedicação desinteressada, solidariedade, soma de forças para construir um futuro satisfatório. Casamento tem a ver com a certeza de que existe alguém com quem podemos contar apesar de tudo e todos … a certeza de que, na pior das hipóteses e quaisquer que sejam as peças que a vida possa nos pregar, sempre teremos alguém ao lado.

Dá pra perdoar?


Ivan Martins, na Época
Acho que foi a Miriam Palma, amiga desde os tempos do cursinho, quem me contou que, dentro de 10 anos, todas as fotos de nós mesmos que hoje nos parecem feias ficarão bonitas. É só uma questão de tempo para que a beleza apareça. Nosso olhar precisa mudar.
O mesmo se aplica, me parece, à questão muito mais grave do ressentimento e do perdão. As coisas que hoje nos parecem inaceitáveis, e, por decorrência, imperdoáveis, com o passar do tempo talvez se mostrem verdadeiramente irrelevantes. Nem é preciso esperar 10 anos. Talvez cinco bastem. Ou mesmo 12 meses. Nosso olhar só tem de mudar.
Estou falando, claro, da relação entre duas pessoas, das coisas que acontecem no interior dos casais. Imagino pessoas que se amam ou se gostam – ou têm pelo menos a lembrança desse sentimento. Essas relações nos são tão caras e tão próximas que, nelas, o ato de perdoar é essencial. Talvez seja o gesto mais necessário e o mais frequente de quem partilha a vida com alguém.
Perdoar é como apertar um inesgotável botão de reiniciar: foi ruim ontem à noite, dormimos com raiva um do outro, esta manhã reiniciamos. A conversa foi muito dura, agora estamos mais calmos, que tal reiniciar? Eu fiz algo que a magoou, você reagiu com brutalidade, reiniciemos, por favor.
Estar com alguém, viver com alguém, é sinônimo de afrontar e ser afrontado. A cada dia, quase a cada momento. Os nossos egos, as nossas suscetibilidades tornam difícil o outro se mover ao nosso lado sem que nos incomode. Ele precisa ser imensamente atento, ou infinitamente delicado, para não causar nenhum atrito. Mas então, coitado, não seria humano. Seria alguém apenas tentando nos satisfazer – e rapidamente nos encheria de tédio.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Na dor do suicídio


Dói lembrar o dia em que João correu ao meu lado. Ele tinha 25 anos de idade e era magro. Como João corria leve e sem esforço, mantinha o ritmo com fôlego para conversar. Súbito, meu companheiro confessou: - Estou deprimido. Perguntei se ele identificava alguma raiz para a tristeza. – Medo de fracassar - retrucou entre um passo e outro.
Gastei o restante do percurso procurando tranquilizá-lo. – João, descanse. Deus nos ama sem cobrar desempenho. Mesmo quando não alcançamos êxito, continuamos queridos. Acrescentei ainda: -Deus, ao contrário das pessoas, não desiste dos malsucedidos.
Duas semanas depois, a notícia me devastou: João cometeu suicídio. Sempre que alguém tira a própria vida, as ondas que o desespero produz arrastam muitos com ela. Toda a morte agride, mas aquela me abateu sobremaneira. Eu amava aquele rapaz. Meus conselhos e orações não ajudaram. Terapia e carinho de outras pessoas também foram inúteis. Nada reverteu o desânimo de um jovem apavorado com o porvir. Assim, João se puniu com um castigo irreversível. E, junto, maltratou família e amigos.
João receava o futuro. Por mais que se esforçasse, não conseguia reverter o pavor de enfrentar os possíveis fracassos que viriam em sua vida.
Angústia e depressão fazem parte da existência. Vários personagens da história – secular e bíblica – tentaram fugir da existência em cavernas escuras – caverna como metáfora do exílio que impomos a nós mesmos em tempo de melancolia. Abatidos, preferimos a solidão ao desgaste de enfrentar a crueza da vida. Desesperança solapa a última força que alimenta a resiliência. A apatia do angustiado rouba o sono e, à noite, fortalece um pessimismo vicioso. Depois que acorda, a depressão sugere a morte como saída.
No trágico suicídio do João, aprendi: as pessoas perdem a fobia de morrer quando a precariedade de viver os aterroriza. Para evitar uma vida sem sentido, optam pelo vazio. A noção de se arrastar no dia a dia, sem perspectiva, leva ao desejo de não mais existir.
Milan Kundera afirmou: Todo mundo tem dificuldade de aceitar o fato de que desaparecerá, desconhecido e despercebido, num universo indiferente. A frase, entretanto, só se aplica enquanto sobra ânimo para criar um amanhã diferente. Se o universo parece indiferente e, junto, a existência perde a razão de ser, a fúria da morte deixa de ameaçar.
Me contaram-me, meses depois, que João atravessou a infância sob o imperativo de agradar o pai. Por mais que se esforçasse, ele nunca achou que conseguiria. Sempre que jogava futebol, olhava para a arquibancada; queria ganhar um sorriso de aprovação – que jamais se esboçou. No dia em que se formou em engenharia, João não celebrou. Sem ser o melhor aluno, ele não via porquê na alegria. Assim, ao projetar a vida futura, o jovem engenheiro olhava em retrospectiva, hipertrofiava os erros e se deprimia, imaginando novos fracassos.
João cresceu em uma igreja rígida, conservadora. Em seu mundo, as exigências de um Deus, igualmente, difícil de ser agradado eram ressaltadas. Ele participava de um segmento em que oSenhor é rigoroso. Alguns se espantam quando Gilberto Gil canta: Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que aceitar a dor/ Tenho que comer o pão/ Que o diabo amassou/ Tenho que virar um cão/ Tenho que lamber o chão. Contudo, a fé popular confirma o conteúdo da música. Daí se multiplicarem igrejas que não deixam ninguém esquecer as dívidas incalculáveis para com uma divindade implacável na defesa da sua própria honra, da lei e dos seus caprichos.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O ensino de Jesus sobre dinheiro


Dinheiro não é força neutra. Ele conspira contra nós, semelhante a uma divindade má. Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e a Mamóm – dinheiro – Mateus 6.24.
A ansiedade do idólatra – de não saber o humor da divindade – não deve contaminar a oração. Não é necessário rastejar, fazer sacrifício, penitência, corrente de oração ou qualquer outro mecanismo para “conseguir” coisas de Deus. Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo… Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no fogo, não vestirá muito a vocês, homens de pequena fé? Portanto, não fiquem ansiosos, dizendo, “o que vamos comer?” ou o “que vamos beber?” “ou o que vamos vestir?” Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas… Mateus 6.28-32
Fé não consiste na disciplina de ficar horas e horas repetindo a mesma prece. Bombardear o céu com inúmeras petições ou amealhar uma multidão de intercessores para “alcançar” um milagre não condiz com a percepção de Deus como pai-mãe amoroso e bondoso. Quando orarem, não fiquem repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não sejam iguais a eles, porque o Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem – Mateus 6.7-8.
Seus discípulos não devem acumular riquezas nesta vida – uma das falsas seguranças do dinheiro consiste em garantir o futuro. Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões roubam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não roubam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração – Mateus 6.19-20
Os seguidores de Jesus devem buscar não bênçãos, milagres, prosperidade, vantagem pessoal, mas um mundo justo, solidário, inclusivoBem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão fartos – Mateus 5.6. Deus não é meio de subir e passar pelas apertadas malhas sociais. Busquem em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas lhe serão acrescentadas – Mateus 6.33
Riqueza é obstáculo para entender, viver e divulgar os valores do reino de DeusComo é difícil aos ricos entrar no reino de Deus. De fato, mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. – Lucas 18.24.
Ostentação de roupas caras, jóias e supérfluos – comportamento dos falsos –  não condizem com seus seguidores. Cuidado com os mestres da lei. Eles fazem questão de andar com roupas especiais, e gostam muito de receber saudações na praças e ocupar os lugares mais importantes nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar, fazem longas orações. Esses homens serão punidos com mais rigor – Lucas 20.46-47.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Jesus é muito melhor do que nos contaram




Jesus é muito melhor do que nos contaram. Reconhecemos Sua inegável sabedoria, bem como Sua misericórdia ímpar, que O levavam a arguir doutores da lei com a mesma destreza com que atendia ao clamor de um párea da sociedade.

Todavia, o que mais me faz saltar os olhos é a maneira como Ele é capaz de enxergar bondade em quem todos só viam vilania. Atender ao pedido de um centurião romano, representante da força invasora, já era um insulto aos Seus patrícios. Mas elogiar sua fé, a ponto de afirmar jamais ter visto igual nem mesmo entre os mais fervorosos judeus, já era demais.  E o que dizer da vez em que concordou publicamente com um escriba por haver identificado em sua fala sinceridade e verdade? Não estaria Ele dando corda a um integrante de um dos grupos que mais lhe fizeram oposição?

E que tal introduzir um Samaritano em Sua parábola, não como vilão ou figurante, mas como mocinho? Logo um samaritano? Aquela gente considerada asquerosa!

Para Jesus, pouco importava se estava do Seu lado ou do lado oposto. Onde quer que a verdade e o amor fossem encontrados, Ele fazia questão de ressaltar sem o menor pudor. Mas também não hesitava em admoestar um dos Seus mais chegados discípulos, quando sua fala ou comportamente não condiziam com a verdade em amor. 

A bondade de Jesus era tão grande que não negou atender nem o inusitado pedido de uma legião de demônios. Quão escandalizador seria isso caso o levássemos a sério. Preferimos acreditar que aquilo foi apenas uma exibição de poder e uma demonstração do que os demônios são capazes. Pobres porcos!

Nem mesmo o meliante crucificado ao Seu lado foi poupado de Sua bondade. Dizem até que o paraíso foi inaugurado por ele, que adentrou-o de mãos dadas com o Salvador dos homens. 

Jesus jamais subestimou ninguém. Todos eram tratados com o devido respeito e gentileza. Meretrizes, mendigos, cobradores de impostos corruptos, traidores da pátria, e até religiosos hipócritas que o procuravam na calada da noite, eram acolhidos como seres humanos, portadores de uma dignidade intrínseca. Por mais moralmente deformado que estivesse, o mestre galileu era capaz de enxergar os resquícios dos traços fisionômicos do Pai Celestial. Em vez de ressaltar o que havia de pior nas pessoas, Ele preferia extrair delas o que tinham de melhor. Seu discurso não destilava ódio, rancor, nojo, mas os sentimentos mais nobres que poderiam habitar o coração humano. Jamais fez piadinha da condição de ninguém, nem ridicularizou quem quer fosse. Antes, encorajava-os a acreditar no maravilhoso destino que o Pai Celestial lhes havia provido.

Em vez de sair em defesa própria, como muitos de nós fariam sem titubear, Ele era a voz dos indefesos e oprimidos.

Caso Se preocupasse com Sua própria imagem, certamente não aceitaria a companhia de gente de vida pregressa duvidosa e reputação maculada. Ele não estava nem aí...

Ria quando tinha que rir. Chorava quando tinha que chorar. Comovia-se com o sofrimento humano, a ponto de sublimar o Seu. Não Se deixava impressionar pelos louvores de quem, no fundo, queria pressioná-lo a romper com Sua agenda e submeter-se a outros interesses. O único louvor que o enternecia era o das crianças, sem segundas e terceiras intenções.

Quanto mais medito acerca d’Ele, mais O admiro e sinto-me impulsionado a adorá-lo e submeter-me às demandas de Sua revolucionária mensagem.


Que diferença entre este Jesus e aquele forjado pela indústria religiosa, garoto propaganda de impérios, ícone de moralismos anacrônicos. De fato, como Ele mesmo nos advertiu, não é possível servir a dois senhores. Ou servimos ao Cristo que emerge das páginas dos evangelhos, ou nos submetemos à figura insólita a quem nos acostumamos a chamar de Cristo, mas que está na posição oposto à d’Ele. Eu, particularmente, optei pelo primeiro. O outro que me esqueça. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Entre lamento e júbilo


Cedo aprendi: a vida não acontece debaixo de uma blindagem. Logo intui que minha senda seria difícil, íngreme, esburacada. Ainda na adolescência, perdi uma irmã caçula. Ela só viveu dois dias. Pouco depois desse trauma, passei pelo constrangimento de estar na sala do tribunal militar que julgou – e absolveu – meu pai. Eu sempre soube que viver é aventura perigosa, e delicada.
Para muitos, morte e doença tardam chegar. Por falta de experiência, a maioria não sabe lidar com grandes dramas. Pouquíssimos se preparam para o dia mau, que Paulo se referiu na epístola aos Efésios.
Decididamente, eu jamais me converteria à neurolinguística. Reconheço, parece mais cômodo esperar que frases prontas e pensamentos positivos alterem a realidade. Há sempre a fantasia de que a fortuna nos surpreenda – talvez ela esteja de tocaia em alguma esquina. Quem ainda não fantasiou achar a lâmpada de Aladim? As religiões se entopem de fieis no aguardo da grande bênção - aquela que resolve todos os problemas. Não alimento a alma de ilusões. Não acredito numa maldade pontual. Ela se espalha em sistemas –  o mal se entranha em igrejas, clubes, famílias, governos, escolas.
Nunca reclamei da sorte por reconhecer que outros sofreram muito mais do que eu. Não me indispus com Deus. Preferi não organizar a vida imaginando que uma divindade aplainaria minha jornada feito um mar de almirante. Sei que nossa navegação se dá em meio a pororocas. Insisto na frase: viver não é para amadores.
Ninguém se iluda: a existência pode ser cruel. Perceber que não estamos imunes, dói como uma alfinetada e traz um sofrimento que parece não caber no peito. Vez por outra me flagro gritando igual a mamãe quando se sentia angustiada: Deus, dá-me coragem de viver, já que de morrer não tenho. Seu desabafo reflete um dos ganhos que a idade traz, ficamos menos iludidos com os hologramas projetados desde a juventude.
A proximidade da morte ilumina a vida. Aqueles que contemplam a morte nos olhos veem melhor, porque ela tem o poder de apagar do cenário tudo aquilo que não é essencial. Os olhos dos vivos tocados pela morte são puros. Eles veem aquilo que o amor tornou eterno. [Rubem Alves]
Sem pender para os extremos do otimismo e do pessimismo, encaro a realidade crua com certo estoicismo. Antecipo a dor da velhice, prevejo a perpetuidade cínica dos políticos e protesto contra a decadência comercial da religião. Sentimentos que jamais produziram em mim sensação de vazio; Viktor Frankl os responsabilizou por vácuos existenciais. Não tenho pressa de morrer. Des-engesso, portanto, a minha história da expectativa lúgubre dos eventos ruins. Recuso o pessimismo mórbido. Sei que nem tudo caminha inexoravelmente para uma tragédia.
Celebro alegrias mínimas. Gosto de dormir cansado e sonhar voando. Não há como descrever a alegria de acordar tarde em feriado. Celebro correr na chuva, comer chocolate, comprar quebra-queixo em feira livre, contar a história de Davi e Golias para os netos, derramar lágrimas pelo atleta que canta o hino nacional no pódio de campeão.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Jesus e os pecadores, a Igreja e as pessoas (i)morais

Ed René Kivitz, no Facebook
Passando por ali, viu Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: “Siga-me”. Levi levantou-se e o seguiu.
Durante uma refeição na casa de Levi, muitos publicanos e “pecadores” estavam comendo com Jesus e seus discípulos, pois havia muitos que o seguiam.
Quando os mestres da lei que eram fariseus o viram comendo com “pecadores” e publicanos, perguntaram aos discípulos de Jesus: “Por que ele come com publicanos e ‘pecadores’? ”
Ouvindo isso, Jesus lhes disse: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores”.
[Marcos 2.14-17]
Fariseus, escribas, publicanos e pecadores. Os fariseus, nome que significa “separados”, eram o mais ortodoxo e rigoroso segmento do judaísmo dos dias de Jesus. Eles se consideravam “o verdadeiro Israel”. Os escribas, também chamados doutores da Lei, eram estudiosos e mestres da Torah, o texto sagrado dos judeus. À época os judeus eram colônia romana e pagavam impostos exorbitantes a Roma. Os publicanos eram os coletores de impostos nas províncias e colônias romanas. Além de serem considerados traidores de Israel, eram repudiados pelos fariseus e mestres da Lei, pois não apenas faziam o serviço sujo para Roma, como também estavam envolvidos em corrupção, cobrando impostos abusivos em benefício próprio.
Jesus estava à mesa com os pecadores e publicanos. O que surpreende, entretanto, não é que Jesus esteja à vontade na companhia de gente mal falada, mas que pessoas de reputação duvidosa e moral escandalosa se sintam perfeitamente à vontade na mesa de Jesus. Há razões para este aparente paradoxo.
Jesus não usava sua autoridade para se distinguir, mas para seduzir. O biógrafo de Jesus, Marcos, parece desenvolver sua narrativa de modo a nos conduzir propositadamente a essa cena. Apresenta Jesus ensinando com uma autoridade jamais vista anteriormente, e contrapondo seu ensino ao modelo dos religiosos escribas e fariseus. Admiradas, as pessoas se perguntavam a respeito de Jesus: o que é isso? Um novo ensino? De onde vem essa autoridade?” (Marcos 1.22,27). Os mestres de Israel formavam uma casta iniciada na Torah, e por isso se julgavam acima do povo simples, com quem falavam assentados “na cadeira de Moisés”. Jesus se misturava entre as gentes, e enquanto falava compartilhava os mistérios do reino de Deus a quem estivesse de coração aberto. Geralmente os pecadores estavam mais prontos a ouvir, pois não se sentiam intimidados nem menosprezados por Jesus. Sim, Jesus revela mistérios espirituais aos simples.
Jesus não usava seu poder para destruir, mas para promover libertação. Os demônios devem temer a Jesus. Os seres humanos, não. Diante de Jesus os espíritos maus davam passos para trás, em tom suplicante para que não fossem destruídos (Marcos 1.23-26). Jesus não ameaça os seres humanos com seu poder espiritual. Não é um feiticeiro gerando medo, adulação indevida e subserviência. Diferentemente dos neofariseus, Jesus coloca os homens em pé, os ensina a andar com suas próprias pernas e os conduz à autonomia responsável e reverente a Deus. Sim, Jesus expulsa demônios e liberta seres humanos.
Jesus não usa sua pureza para segregar, mas para abraçar os excluídos. O leproso que de Jesus se aproxima sabe que pode ser purificado. Na tradição de Israel, o leproso era impuro, e todo aquele que com ele tivesse contato se tornaria igualmente impuro. Mas Jesus, ao tocar o leproso, purifica o leproso. Com o seu toque, em vez de ser maculado pela lepra, transfere sua pureza ao leproso (Marcos 1.40-42). Sim, Jesus abraça os impuros.
Jesus não usava seu crédito para condenar, mas para oferecer perdão. O paralítico que lhe é apresentado tem seus pecados perdoados (Marcos 2.5-7). Os religiosos, partindo do princípio que perdoar pecados é prerrogativa divina, expressam sua contrariedade. Jesus poderia lhes estender a mão: “Muito prazer, Deus em carne e osso”. Sabedor de seu direito e do débito dos homens, Jesus estende a mão como oferta de aproximação, pacificação e reconciliação. O olhar de Jesus não é condenatório. Sua voz não é acusadora. Seu tom não é moralista. Sua mensagem não é de juízo, mas de salvação. Não vem para promover “o dia da vingança de Deus”, mas para anunciar “o ano da graça do Senhor”. Sim, Jesus perdoa pecados.

Convulsão Calvinista



No ano de 2009 conheci a favela. Um menino pobre de apenas quinze anos de idade, que não tinha envolvimento com o tráfico de drogas, havia sido morto com um tiro na testa desferido por um policial do BOPE numa operação na favela Mandela, na Zona Norte do Rio.
Decidi, naquele dia, fazer um protesto dentro da comunidade pobre, numa região que, devido ao histórico de violência, chamava-se Faixa de Gaza. Terror dos policiais cariocas. Conseguimos levar toda a imprensa para lá, procurando dar voz ao pobre e combater o abuso de poder. Não tardou que, após chegarmos ao local, viesse a notícia de que estávamos autorizados a entrar na favela. Naquele dia passei pela minha segunda conversão.

Ao colocar os pés naquela aberração social, infestada de esgoto e ratazana, repleta de crianças vivendo em estado de miséria aviltante, sem mencionar aquilo sobre o que só poderei falar daqui a 20 anos, minha teologia convulsionou. Lá estava eu, -pastor de uma igreja presbiteriana, plantada por mim na década de 90, num bairro de classe média alta do Rio de Janeiro, herdeiro consciente de uma tradição teológica do cristianismo chamada calvinismo, à qual abraçara apaixonadamente na minha juventude-, num mundo novo e perturbador.

Cumpriu-se a profecia. A cabeça pensa a partir de onde pisamos. Perguntas emergiram à minha mente.

1. O que o meu calvinismo tem a dizer sobre essa realidade? Quê leitura fazer sobre a miséria desse povo? Como chegou aqui? O que se pode fazer para livrá-lo dessa condição? Como manter meu antigo modelo ministerial, inspirado na vida de pregadores que até hoje amo, caracterizado pela dedicação à preparação de sermões, aconselhamento pastoral, pregação?

2. Como posso manter-me atrelado a um modelo de ministério pastoral que me impede de viver a vida que o próprio Cristo viveu, que é apresentado na Bíblia, andando? Andando! Estando presente sempre onde mais havia demanda de compaixão. Em busca de gente que gemia de dor sem ser ouvida.

3. Pode-se conceber à luz das Escrituras igreja que não se sinta chamada para cuidar dos miseráveis da terra, para os quais Cristo dedicou quase a totalidade da sua vida? É concebível igreja que não tenha chamado para o pobre?

4. Como resumir o exercício do amor à evangelização e à filantropia nas ocasiões em que a ação política é imprescindível para livrar vidas humanas do seu estado de petição? Qual igreja pode trazer saneamento básico para essa favela? Como evitar que crianças levem tiro na cabeça em tiroteio entre policiais e traficantes? Como reformar esse mar de barracos? Como cuidar das suas doenças respiratórias e de pele? Como manter esses jovens na maior parte do tempo em escolas que os encantem? Deus, existe, portanto, o amor político?

5. O evangelho tem que ser proclamado por um igreja santa. Certo! Mas, o que é ser santo? Pode o santo tomar conhecimento desse cenário de horror na sua cidade e permanecer indiferente? Milhões não ouvem cristãos adúlteros, mentirosos, mercenários. Sabemos disso! Mas, o que falar daqueles que se escandalizam com a omissão da igreja face a tamanha desgraça social?

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