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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Vamos organizar o Deus de Rubem Alves

04-Rubem-AlvesRicardo Alexandre, no R7
Com a morte de Rubem Alves, aos 80 anos no último sábado (19/07), começará oficialmente o veloz processo de avaliação, reavaliação e organização de seu pensamento. É um crime, por um lado. Vivo, o pedagogo, escritor, teólogo, poeta e psicanalista permitia-se o direito à dúvida, as incertezas, ao paradoxal. Agora morto, será estudado até que dele não sobre mais do que as certezas sobre o que pensou, o que pretendeu. E quem sabe?
É um crime, mas é inevitável também. Seu pensamento sobre espiritualidade, por exemplo (talvez o campo mais intangível de todas as suas ocupações), foi um dos mais avessos à sistematização. Mas agora virão os que dele beberam e tentarão domesticá-lo, porque dele são/somos devedores, porque esperam/esperamos que dele se sirvam as futuras gerações.
Bem, serei o primeiro desses criminosos.
Rubem Alves foi um pastor progressista no interior de Minas Gerais nos anos 1950. Foi pastorear “gente pobre e simples” com a cabeça cheia de Albert Schweitzer, Miguel de Unamuno e Kierkegaard. Nos eventos que se seguiram ao golpe militar, acabou denunciado pela própria Igreja Presbiteriana como subversivo, e exilou-se nos Estados Unidos onde trabalhou em seu mestrado A Theology of Human Hope, que é considerado uma das pedras fundamentais do que viria a ser chamado de teologia da libertação.
Quando, pressionado, decidiu romper com a igreja e abandonar o ofício pastoral, tornou-se crítico ferrenho da religião institucionalizada e do chamado “protestantismo de reta doutrina”. Sua “Carta aberta aos companheiros da antiga Igreja Presbiteriana” e seu livroProtestantismo e repressão, mesmo que urdidos em mágoa, foram plantados nos anos 1970 e brotaram, primeiro no ambiente acadêmico onde nasceram (Alves foi professor de filosofia na Unicamp até se aposentar), depois em jovens estudantes de teologia que começaram a pensar o cristianismo para um mundo pós-moderno, menos ingênuo e mais urbano, com instituições em cheque, verdades sub judice, dezenas de tons de cinza entre o branco e o preto. A influência desse pensamento heterodoxo dentro da teologia ortodoxa talvez seja um dos maiores e mais improváveis legados de Alves. Sua morte foi chorada por católicos (“um dos grandes”, disse o padre Fábio de Melo), por pentecostais (“seu legado me acompanhará por toda a vida”, tuitou Ricardo Gondim), por batistas, presbiterianos e afins.
“Toda certeza provoca inquisições”, disse a Geneton Moraes Neto na bela entrevista da GloboNews, reprisada neste último fim de semana. “Por isso corro das certezas. Prefiro as perguntas”. Vivo, Geneton passou a vida fugindo das respostas. Morto, pode ver finalmente fechar as feridas que a religião lhe causou e ver surgir uma teologia na qual as dúvidas não são parte do problema da falta de fé, mas componente essencial no alumbramento do homem diante do Divino. Como descreveu poeticamente em seu livro O infinito na palma de sua mão:
Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas.
Para voar, é preciso amar o vazio. Porque o vôo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso, trocam o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram. É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas da gaiola estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão suas vidas.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Pai Nosso - em minhas palavras

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Pai nosso e dos exilados, dos deprimidos, das meninas vendidas à prostituição, dos curdos, das aeromoças, dos ianomâmis, dos carvoeiros, das juízas, dos mineradores chineses, dos médicos legistas, dos cabelereiros, das noviças, dos poetas, das atrizes, dos teólogos, das massagistas, dos meus filhos e netos, dos ateus, das motoristas de ônibus, dos carcereiros.
Que estás no céu, na terra, no vácuo, no hades, no patíbulo, na floresta, na sala de hemodiálise, no cabaré, na UTI, no acampamento dos sem-terra, na catedral, na sala de tortura, no asilo de velhos, no botequim, no matadouro, no quartel, na ambulância, no escafandro, no aeroporto, no palco, na piscina, no hospício.
Santificados sejam o teu nome, a ideia que fazemos de ti, o livro que escrevemos sobre ti, a música que cantamos sobre ti, os planos de paz que organizamos pensando em ti, a mulher que tocamos por seguirmos a ti; e o futuro que sonhamos por ousarmos te chamar de Pai.
Venha o teu reino. Sentimos a urgência não de ir até aí, mas de demonstrar aqui neste planeta diminuto a aspiração que está no além. Queremos nos enraizar neste chão para fazer algo novo, algo que se sobreponha ao que já se construiu na história. Acontece que somos inadequados, claudicantes e egoístas. Incentiva-nos a querer mostrar lampejos do que seria a vida se vivêssemos, minimamente, teus valores. Faze-nos subversores do inexorável, sabotadores das sinas, revolucionários do amanhã. Precisamos da esperança que desvela outra realidade, outro mundo, outra forma de viver.
Seja feita a tua vontade na terra como ela é feita no céu. Desde a criação decidiste que homens e mulheres tomariam os rumos da história. Tu assinalaste a eles a responsabilidade de disseminar bondade e não crueldade, equidade e não injustiça, criatividade e não opressão, liberdade e não escravidão. Anima-nos para que possamos incubar vida, parir oportunidade, perenizar o bem e assim estreitar esse abismo que nos separa de tua morada.
O pão nosso de cada dia, nos dai hoje, mas que este pão nos alimente física, emocional e espiritualmente. Não nos deixe satisfeitos com a ração que nos apequena em nossa humanidade. Temos fome de sentido, carecemos de afetos, ansiamos por beleza, desejamos transcendência. Dá-nos gula de palavras; e que as palavras, transformadas em versos, nos saciem de eternidade.  E que as parábolas, temperadas de metáforas, se transformem no banquete que nos salva no dever inclemente de sobreviver, só sobreviver.
Perdoa as nossas dívidas bem como as ofensas grosseiras de quem ataca a adolescente, o homossexual, o pobre, o negro, o cigano, o gari, o porteiro, a babá, o garçom, o pedreiro, o trovador, a enfermeira, a maria-ninguém.  Somos cruéis uns com os outros, lentos em reconhecer a dignidade alheia. Mordazes, desaprendemos a respeitar dores. Inclementes, desonramos sonhos. Insensíveis, não paramos para ouvir queixas. O perdão nos livra dos grilhões que nos aferramos com o endurecimento. Precisamos de misericórdia, antídoto que nos salva do veneno que tentamos inocular nos outros. Falta-nos a percepção que revidar só expõe a soberba de nos achar melhores e mais privilegiados que os demais.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Conte comigo


Ivan Martins, em Época
Outro dia, em circunstâncias suaves e domésticas, lembrei de um poema do Mario Benedetti que costumava me comover até os ossos. Chama-se Hagamos un trato -Façamos um trato, em português – e fala dos sentimentos de um homem por uma militante política, que ele chama de compañera.

Em linguagem simples e direta, o poema diz, essencialmente, que ela pode contar com ele “não até dois ou até dez”, mas contar com ele, em qualquer circunstância. É um poema de amor que expressa um compromisso político. Ou talvez seja um poema épico suavizado por um toque de amor. Não sei. Vocês leiam e me digam.

Mas é evidente, para mim, que qualquer que tenham sido as intenções do Benedetti, seu poema resume uma verdade essencial: afeto é compromisso. Os problemas do outro passam a ser parte dos meus problemas, minhas dores são em alguma medida as dores dele. Eu cuido dele e ele cuida de mim. Não deixei de ser eu, ele tampouco deixou de ser ele, mas há um projeto que nos vincula e nos torna responsáveis um pelo outro. Voluntariamente. Talvez temporariamente. Mas, enquanto estivemos ligados, será assim.
Se isso parece consistir um fardo, não é. Dividir é bom. Cuidar também é bom. Andamos tão acostumados a pensar de forma egoísta que a ideia de ser responsável pelo outro nos apavora. Temos medo também de depender da atenção e dos cuidados alheios. Mas tem sido assim por alguns milênios e acho bom que continue. Somos indivíduos, inescapavelmente, mas algo em nós anseia por ligar-se e partilhar de uma forma que não seja superficial ou declaradamente provisória. Quando isso acontece, nos sentimos parte de algo maior que o mercado ou as redes sociais. E há um profundo conforto nisso.

Talvez essa seja o sentido atual do “conte comigo” de Benedetti. Ele expressa uma forma de amor que não está na moda. É algo que se manifesta não apenas como partilha de prazer e hedonismo, mas como potencial de sacrifício. O poema nos lembra que não estamos nessa apenas pelo riso e pela noite inesquecível. Às vezes será inevitável sofrer, fazer coisas chatas, deixar de lado vontades e interesses imediatos. Às vezes será necessário abrir mão. Seremos capazes? Espero que sim.

Quando li Hagamos un trato pela primeira vez, por volta de 1995, ele me pareceu uma promessa de amor em meio à guerra. Benedetti, afinal, era um homem de esquerda. Fora exilado pela ditadura militar em seu país, o Uruguai, e sempre voltara seu arsenal de palavras contra ela. Hoje, com outros olhos, o poema me sugere outros sentimentos, que vão além do contexto político.

terça-feira, 11 de março de 2014

Distimia

vela-apagandoMarília César, no Pavablog
Prefiro os caídos aos altivos
Prefiro os machucados
Os feridos de guerra
Quero os pecadores
Quero os pessimistas
Os que nada sabem
E não pertencem a lugar nenhum
Que peregrinam, atônitos e sedentos,
Nesta terra devastada
Prefiro os inseguros
Os calados – os que não interpretam nem julgam
Prefiro os que sofrem aos que festejam
Ter os dois pés fincados
Na realidade dos fatos
Quero hospitais, velórios

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ira santa

mulher rezando 2Marília César, no Pavablog
Acordei
Com um grito de guerra no peito
Um clamor antigo
Contra o abuso,
Inimigo de infância.
Toda forma de abuso
Deve ser desmacarada
Deve ser denunciada
Deve ser exterminada
Toda forma de dominação disfarçada de zelo
Toda armadilha mental diabólica, que prende em vez de libertar
Todo silêncio que inferioriza
A falta de resposta que no fundo é menosprezo
Porque toda pergunta tem direito a uma resposta
Contra o abuso de um ser humano contra outro ser humano
Não deve restar
Pedra sobre pedra.
Tudo tem que cair.
E é hoje.
A mulher que escraviza o marido pela culpa.
O marido que a enreda pela violência – e ela, coitada, ainda acha que  violência é amor disfarçado.
O filho que desconta no pai a própria incapacidade de lidar com o fracasso.
O pai que desconta no filho o ódio que sente da mulher.
O casal que destrói a auto-estima do filho ao fazê-lo suportar um relacionamento marcado pelo desamor – e o coitado ainda tem que enfrentar a culpa ao ouvir que eles estão juntos por causa dele.
Toda forma de abuso deve ser desmascarada.
Por esta causa nesta manhã eu elevei os decibéis.
Eu gritei, no meu quarto, a portas fechadas, como manda a Escritura.
Eu chorei pela miséria da minha própria história e pela miséria daqueles que me cercam.
Eu derramei diante de Deus toda a minha ira.
Eu ofereci a Deus uma oração aflita e descompensada. Como Ana, desfaleci de tanta tristeza. Como Davi, soei desequilibrada e louca.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Metáforas para tristeza e angústia

imagem: Intenet

Ricardo Gondim, no seu blog
Tristeza tem o rosto de um pai indo e voltando por algum corredor pediátrico.
Tristeza tem as luzes da alvorada em algum cemitério.
Tristeza tem a lentidão da fila de alguma mina de carvão no começo do expediente.
Tristeza tem a palidez do vestido de noiva em liquidação no brechó.
Tristeza tem o som de murmúrio em algum escombro humano.
Entretanto
O triste percebe realidades imperceptíveis.
O abatido enxerga o invisível.
O desconsolado acorda para o imprevisível.
Bem-aventurado o que ouve.
Feliz o que soletra o antônimo de inexpugnável.
Bendito o que aceita a força da impotência.
Angústia vem com a crueldade de um relógio que não esquece os centésimos de segundos.
Angústia vem com a frieza de um verdugo quando instrui o condenado no patíbulo.
Angústia vem com o desalento de uma enfermeira que aplica quimioterapia sabendo que não haverá cura.
Angústia vem com a insônia de uma avó vergada de saudade .
Entretanto
O angustiado se re-inventa.
O inquieto arroja.
O desassossegado persevera.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Infiéis da própria vida


Arte de Jean Cocteau

Carpinejar, no seu blog

Nossa vida está perdendo consistência. Espessura. Segurança. Estamos mais sujeitos a mudar do que a insistir.

Estamos mais sujeitos a nos separar do que a permanecer casados.

Estamos mais sujeitos a ir embora do que a voltar para casa.

O mundo está tomado de mutantes, zeligs, camaleões, transformers.

Se algo incomoda, se algo atrapalha, o botão Desapego é rapidamente acionado.

Como não pretendemos sofrer, caminhamos para a total insensibilidade. Deixa-se o começo por outro começo. Não há mais meio ou fim, o que vigora é a desistência.

Substituímos a responsabilidade pela ideia de liberdade.

Experimentar é a lei – fazer patrimônio e futuro não tem sentido.

Anteriormente, nos dedicávamos à família. Agora, nossa obsessão é o prazer pessoal. Danem-se as complicações.

A aparente leveza se assemelha a desenraizamento.

Buscamos chegar logo, não olhar a paisagem. A velocidade é o que nos provoca. Buscamos desembarcar logo num novo destino, não nos vale a estrada. A viagem deve ser curta e indolor, jamais reflexiva e longa.

Não estou sendo dramático. Na infância, tínhamos três canais de tevê. Hoje, são mais de 300. A variedade nos conduz a não nos fixarmos em nada durante grande tempo.

Ter um romance longo é quase uma insanidade, assim como ler um livro de 400 páginas ou assistir a um filme de três horas.

Não oferecemos chance para permanência, para a rotina, para a confirmação das expectativas.

Não toleramos o desgaste, o tentar o possível antes de se despedir. Sacrifício e renúncia são expressões banidas do vocabulário, significam burrice. “Perder tempo com alguém, com tanta gente interessante por aí?” é o que nos dizem.

O oi já é um convite, o tchau já é um adeus, não existe relacionamento seguro e firme que suporte a tempestade de contradições.

São muitos apelos para biografias imaginárias. São muitas opções de ser diferente, que nem descobrimos quem somos.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Inveja – grilhão que arrasta os fracassados

imagem: Internet

Inveja é tristeza diante do bem, do talento, da idade, do poder ou do sucesso do outro; nasce quando a excelência de uma pessoa arrasa com o valor da outra. A igreja cristã do século IV classificou a inveja como um dos sete pecados capitais. Santo Tomás de Aquino a tratou como pecado mortal (portanto, imperdoável) e responsabilizou a inveja por outros vícios: murmuração, detração, ódio, dissensão, alegria pela derrocada alheia. Na tradição judaica, a inveja motivou o primeiro assassinato. No Gênesis, Caim matou Abel por não tolerar que Deus preferisse a oferta do irmão à dele. Mais tarde, nas tábuas dos dez mandamentos, a inveja foi condenada na proibição de cobiçar qualquer coisa do próximo.
Inveja participa como ingrediente nas tramas da melhor literatura. E ninguém a retratou melhor do que William Shakespeare. Em Otelo, ele descreve os mecanismos que incitam ódio e ciúme a partir da inveja. Otelo é general reconhecido por seus triunfos em batalhas terrestres e marítimas. Ao assumir a posição de chefe de Estado no Chipre, nomeia Cássio como braço direito. Mas suscita a inveja de Iago, que passa a conspirar contra ele. As desavenças que nascem daí – e que caracterizam as tragédias shakespeareanas  - são horrorosas.
Iago destila uma suspeita mortal em Otelo, com o intuito de levá-lo a acreditar que sua mulher, Desdêmona, o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o amor, que o general nutre pela mulher e a desconfiança incitada por Iago faz Otelo despencar da posição de herói. Debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo  perde o posto de general e é sentenciado à prisão. Sem saída, acaba por tirar a própria vida com um punhal.
José Ingenieros declara que
a inveja é uma adoração dos homens pelas sombras, do mérito pela mediocridade. É o rubor na face sonoramente esbofeteada pela glória alheia. É o grilhão que arrasta os fracassados. É a amargura que toma conta do paladar dos impotentes. É um venenoso humor que emana das feridas abertas pelo desengano da insignificância própria. Mesmo não querendo, padecem desse mal, cedo ou tarde, aqueles que vivem escravos da vaidade; desfilam pálidos de angústia, torvos, envergonhados de sua própria tristeza, sem suspeitar que seu ladrido envolve uma consagração inequívoca do mérito alheio. A inextinguível hostilidade dos néscios foi sempre o pedestal de um monumento”.
Inveja é pior que ódio. O ódio não se contém e, devido à fúria, sempre faz alguma coisa. A inveja por sua vez, aceita manter-se quieta; covarde, contenta-se com as sombras. Para semear suspeita, a inveja precisa se mover sob o cobertor das trevas, feito ratazana no esgoto. O invejoso deseja que todos os outros desacreditem da grandeza humana. Revolve lama para que as pessoas não notem  seu nanismo interior. Também se esconde em sepulcros caiados para iludir e semear dúvida. Ingeniero afirma que o invejoso sem coragem para ser assassino, resigna-se a ser vil.
No filme Amadeus, Salieri não admite a genialidade de Mozart. Inconformado, precisa demonizar o homem que admira. Ele tenta diminuir o talento extraordinário de Amadeus, procurando convencer as demais pessoas de seu caráter desprezível. Salieri não se inquieta com o jeito debochado de Mozart, ele detesta a capacidade extraordinária que ele tem de compor. E se pergunta porque não consegue transformar o próprio moralismo em genialidade. Depois de tentar estigmatizá-lo como um nada, parte para destruí-lo. Salieri, porém, não reúne coragem sequer de agir como algoz. Como hiena, aguarda que outros predadores abatam a presa para depois festejar em cima da carcaça.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Vaidade e orgulho, êxito e fracasso


Fernando Pessoa, [via Ricardo Gondim]
[...]
O orgulho é a consciência (certa ou errada) de nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência de nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, por ser ambas as coisas vaidoso e orgulhoso, pode ser – pois tal é a natureza humana – vaidoso sem ser orgulhoso.
É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência de nosso mérito para os outros, sem a consciência de nosso próprio mérito. Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é.  É a verdade em ação.
Como em todo homem existem as qualidades universais da humanidade toda em baixo grau que seja, todos são até certo ponto orgulhosos e até certo ponto vaidosos.
O orgulho é, em si mesmo, tímido contractivo; a vaidade, ousada e expansiva. Aquele que está seguro (por mais errado que seja) de que vencerá ou conquistará, não pode temer. O medo – onde não é uma disposição mórbida, arraigada em neurose – não é mais do que falta de confiança em nós mesmos para dominar um perigo.
[...]
O sinal intelectual exterior da vaidade é a tendência à zombaria e ao rebaixamento dos outros. Só pode zombar e deleitar-se na confusão dos outros quem, instintivamente, se sente não vulnerável a semelhante zombaria e rebaixamento.
[...]
(Admiremos, mas nunca idolatremos. E se devemos idolatrar, idolatremos somente a verdade, pois é a única idolatria que não pode corromper, uma vez que o que a idolatria corrompe é a verdade, e a idolatria da verdade é, portanto, a única que não pode corromper (gasta-se a si mesma?).
[...]
Nada prejudica tanto um homem na estima dos outros quanto o senso de que ele pode ser melhor do que eles. Ao senso geral e constante de que ele não lhes é superior. Soma-se a suspeita ocasional de que ele pode ser, e o desapreço, incolor como é, assume uma tonalidade de inveja, pois os homens que só admiram quando têm certeza, invejam por suposição.
A hesitação no saber de que um homem pode ser melhor que nós é tão enervante como se alguma coisa agradável nos possa acontecer; esperamos que não, mas esperamos com incerteza. E, como assim tememos mais o acontecimento que semitememos, no outro caso, detestamos mais o homem que quase admiramos. Em ambos os casos, tememos a possibilidade da certeza, mais do que a própria certeza (“não sabemos se devemos admirar”).
Se apenas o senso do desapreço paira como uma sombra sobre as mais negras tragédias da maturidade de Shakespeare, é impossível afirma-lo; mas não é possível que tal desapreço tivesse sido o único na causa da melancolia que se revela diretamente em Hamlet, que escorre nas frases de Otelo e Rei Lear, que, aqui e ali, serpenteia, como se seguisse a contorção da mente sofredora, própria estrutura verbal das supremas expressões de Antônio e Cleópatra. O próprio desapreço desdobra-se em vários elementos depressivos.
Temos em primeiro lugar o próprio desapreço , em segundo, o apreço a homens inferiores, e em terceiro, o senso de que, algum esforço como o de outros homens – a erudição de um, as conexões de outro, o acaso, qualquer que possa ter sido, de um terceiro, poderia ter vencido a dificuldade. Mas o próprio gênio que causa o desapreço inicial embota o espírito para as atividades que poderiam contrabalançá-lo

terça-feira, 21 de maio de 2013

Depois do trabalho, ainda falta trabalhar a relação


Arte de Fraga
Carpinejar, no seu blog

Amar não é suportar tudo. Aguentar qualquer coisa.

Não é porque você ama que o amor se faz sozinho.

Não é porque você conquistou quem desejava que deve relaxar.

Não é porque alcançou a independência financeira que já tem autonomia afetiva.

Quando chega em casa do trabalho, depois de oito horas de incômodo, da chuva de cobranças e prazos, cansado, estressado, faminto, não adianta afundar no sofá, esticar as pernas, esquentar algo e se apagar.

Não terá direito à solidão e ficar em paz. Não terá direito a não conversar. Não terá direito a não ser afetuoso. Não terá direito a assistir televisão sem ninguém por perto.

Se pretende se isolar, não ouse casar, não procure dividir o tempo e o abajur.

Quando regressa do serviço, acabou a vida profissional, porém começa a vida pessoal. E do zero.

Sua mulher não tem que tolerar seu desaparecimento, sua anulação, sua desistência pelos corredores.

Ela quer senti-lo, entendê-lo, percebê-lo.

A noite é manhã para o amor.

Quando retorna da rua, agora é o instante de trabalhar o relacionamento.

Da mesma forma em que seria demitido se ofendesse um colega, não desfruta de espaço para agressão e gritos. É a esfera da delicadeza, das pontas dos dedos no rosto, de emoldurar a confiança.

Controle-se, comporte-se, cuidado com o que diz, não se entregue ao cansaço.

Sua esposa nada tem a ver com aquilo que cumpriu à luz do sol. Não conta pontos sua dedicação no escritório.

É um novo turno, sem antecedentes, sem pré-história.

É a primeira vez durante o dia que trocará assunto com ela (que seja separando as melhores peripécias). É a primeira vez durante o dia que se dedicará a ouvi-la (que decore a intensidade das palavras). É a primeira vez durante o dia que passará as mãos em seus cabelos (que seja mais generoso do que a escova). É a primeira vez durante o dia que beijará sua boca (que seja com calma da janela). É a primeira vez durante o dia que presta atenção no que ela veste e como se veste (que seja com atenção de alfaiate).

Não há como trapacear. Não há como despistar, postergar para o final de semana.

É só você e ela.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Por que escrevo?

imagem: google


Ricardo Gondim, no seu site
Escrever, só escrever, não é tão difícil como parece. Basta compilar frases. Com um mínimo de sintaxe, respeitando as regras da gramática, e o texto fica pronto. Quem sabe conduzir o argumento com começo e fim, consegue passar na prova de redação. Erros ortográficos já não intimidam. Corretores sublinham em vermelho vocábulos estranhos ao dicionário. Só teimosos ou displicentes erram.
Escrevo procurando fugir de simplesmente amealhar frases. Luto para dar forma a pensamentos que pairam sobre minha cabeça como fantasmas. Ideias parecem vir  de mundos transcendentais. Elas chegam difusas. Por vezes não consigo articulá-las na fala e fico com ânsia de cravá-las no texto. Sei que ideias, presas na imobilidade da escrita, suscitam outros pensamentos.
Inspiração vem com dor de parto. Diante do computador, respiro apressado. Sei que preciso oxigenar o útero da alma para que intuições venham à luz. Alguns textos só nascem a fórceps. Daí tanta angústia.
Quando redijo, sofro para não perder o controle sobre o argumento. As palavras, porém,  parecem adquirir vida própria. Começo o primeiro parágrafo e logo me vejo sequestrado; sou conduzido, não conduzo. Só quem ousa encarar o latejar contínuo do cursor sabe que as palavras são selvagens. O escritor não passa de pretenso domador de vocábulos. Não raro os argumentos mostram as unhas; recusam qualquer submissão. Hipótese pode virar tese,  desfazer-se em antítese, sem jamais produzir síntese. O escritor acaba rendido pela verdade – que lhe escapa.
Quando escrevo, suo para não deixar que adjetivos, sempre exibicionistas, roubem o lugar de honra de substantivos e verbos. Um texto enxuto, sem rococó, sem parnasianismo, ligeiro, cativa bem mais. Ensaios não podem parecer penteadeira.
Árduo ofício, grafar o que nos escapa. Criatividade é dom. Autores com metáforas surpreendentes são iluminados. Sacadas que transformam ouvidos em olhos não são aprendidas. Os melhores autores quebram as nossas pernas ao dizerem que saudade é  ”reverso do parto”; afirmarem que a amada, distraída, “pisava os astros” espalhados no chão do barraco; desejarem  ”paz de uma criança dormindo” ou  ”ternura de mãos que se encontram”.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Brennan Manning: O que o mundo anseia encontrar na fé cristã


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Brennan Manning, em Convite à solitude - via Pavablog
“O que o mundo anseia encontrar na fé cristã é o testemunho de homens e mulheres audazes o bastante para ser diferentes, humildes o bastante para cometer erros, selvagens o bastante para ser queimados no fogo do amor, verdadeiros o bastante para perceberem como eles são irreais.”
O escritor e pensador faleceu dia 12/04/2013 aos 78 anos. Leia mais aqui.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Deus em quem creio…


A criação de Adão: Michelangelo

por  José Barbosa Junior, no Crer é também pensar
Creio num Deus que está de bem com a humanidade, para quem o problema do pecado já foi resolvido em e por Jesus…
Creio num Deus que, sendo Senhor e Soberano, prefere ser conhecido como amigo e pela fraqueza de Seu amor…
Creio num Deus que, saindo da virtualidade do texto bíblico, se deixou tocar, cheirar, beijar e abraçar em Jesus de Nazaré…
Creio num Deus que se sentia bem entre pecadores, e, o mais importante e impressionante, os pecadores sentiam-se bem perto dele…
Creio num Deus que prefere a festa do vinho ao ritual da purificação religiosa…
Creio num Deus que odeia a idolatria, principalmente quando Ele é transformado em ídolo, e, desta forma, manipulado por artífices da moderna idolatria…
Creio num Deus que se revela muito além das fronteiras de qualquer religião que arrogue para si o direito de ser a única verdadeira…
Creio num Deus que não pede nenhum dinheiro ou sacrifício em troca de bênçãos porque isso o ofende em seu maior prazer, que é o de amar e abençoar…
Creio no Deus que morre, não no Deus que manda matar…
Creio num Deus que chora quando uma mãe perde, prematuramente ou de forma violenta, um filho querido…
Creio num Deus que sofre junto com aqueles que experimentam as mais terríveis dores…
Creio num Deus que acolhe aqueles que ninguém acolhe, que abraça os “inabraçáveis”, que sorri para aqueles que se acostumaram às carrancas da vida…
Creio num Deus que dança…

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O amor numa emocionante série fotográfica


Uma história que emociona não somente pela coragem de viver o amor, mas pela coragem de superá-lo e atingir a fé.
Rejane Borges. no Obvius
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Senhor das Alianças



por  Fabrício Carpinejar, no seu blog

Recomendo a esposas e namoradas assistirem O Senhor dos Anéis. Mas em 3D. Tem que assistir ao Senhor dos Anéis em 3D. Ou em 48 quadros por segundo.
 
É tanta gente feia e monstruosa que elas vão sair do cinema amando novamente seus maridos e namorados.
 
São criaturas com orelhas imensas, verrugas e cabeças triangulares. Na saída, você só pensará que teve sorte na vida.
 
Ficar duas horas no escuro com pequenos monstros salva qualquer relação.
 
É terapia de graça, exorcismo de graça.
 
Depois do filme, as mulheres acharão seus homens mais altos, mais inteiros, mais musculosos, mais superdotados.
 
Nós, machos, deveríamos fazer sessões beneficentes de Hobbit, propor a exibição do filme em escolas, estádios e igrejas.
 
Se você não aguenta seu marido palitando os dentes em churrascaria, veja os dentes cariados dos moradores da Terra Média.
 
Se você não aguenta seu marido roncando no sofá, veja os pés peludos do Bilbo Bolseiro.
 
Se você não tolera mais o penteado de seu marido para o lado, veja o cabelo lambido de Gollum ou os mullets de Frodo.
 
Se você reclama da barriga de cerveja de seu marido, veja a barriga dura de vermes daquele povo minúsculo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Casaco é meu paizinho



por Fabrício Carpinejar, no seu Blog

Não tenho sequer um objeto de meu pai.

Nenhum cebolão antigo. Nenhum canivete suíço. Nenhum cachimbo. Nenhum cachecol. Nenhuma caneta especial.

Ele não me repassou talismã para lembrar sua importância. Não me chamou para o escritório em separado a fim de antecipar a mínima partilha. Não redigiu uma carta explicando o que era ser homem.

Mas herdei de meu pai o que sou.

Quando pequeno, eu o imitava. Hoje, ele me influencia.

Tenho dele a risada larga, bonachona, uma gaita que impulsiona o rosto para trás e me pede para fechar docemente as pálpebras.

Nosso pulmão é carregado de sotaque, o pulmão é o nosso CTG.

Tenho dele o jeito de cortar tomates na tábua, horizontal, absurdamente errado e divertido.

Tenho dele a mesma compulsão pelo atraso: sempre acreditando que posso fazer mais alguma coisinha antes de sair.

Tenho dele as mesmas distrações e desculpas furadas, as mesmas canetas explodindo nos bolsos.

Tenho dele o mesmo ímpeto de curar a raiva com uma caminhada pelo bairro.

Tenho dele a barba da juventude, as brotoejas do pescoço e a tendência de levantar as golas das camisas.

Tenho dele a adoração por sentar em balcões e experimentar pastéis em cidades estranhas.

Tenho dele as pernas tortas e os olhos puros de medo.

Tenho dele a vontade de cheirar o cangote dos filhos.

Tenho dele a mania por esculturas de cavalos e Dom Quixote.

Tenho dele a compulsão por riscar livros e escrever diários por códigos.

Tenho dele o dom de perder dinheiro e juntar amores.

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