Google+

"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

Compartilhe

Mostrando postagens com marcador inFoco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inFoco. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Evangélica concorre ao título de Miss Bumbum: 'Julgarão como pecado'



Publicado em Ego Globo.

Recentemente o portal ego (globo) publicou a matéria “Evangélica concorre ao título de Miss Bumbum: 'Julgarão como pecado' que diz respeito a candidata Rebeka Francis a miss bumbum 2014. Leia o que o portal escreveu sobre:
Rebeka Francis, a candidata de Rondônia ao título de Miss Bumbum 2014, vem sofrendo com uma pichação ofensiva no muro do prédio onde mora, em São Paulo. Recentemente, a moça - que divide apartamento com a amiga Andressa Urach (vice miss bumbum 2012) - se deparou com a frase ‘Miss Bumbum do Capeta’ em letras garrafais na entrada do prédio.

Inicialmente foi especulado que a mensagem seria para Urach, a mais famosa participante do concurso, mas isso foi logo desmentido pela própria Rebeka, que segue a religião evangélica. “Aquilo foi pra mim, pois há dias tinham uns perfis fakes em minhas redes sociais falando sobre minha religião. Como é algo que realmente me ofende, eles acharam meu ponto fraco e quiseram me humilhar. As pessoas são maldosas e acabam não tendo noção de seus atos”, disse a Miss Bumbum Rondônia.

Rebeka contou ao EGO que sempre sonhou participar de um concurso de beleza, mas que a sua família, que segue a mesma religião, não apoia. “Mas eles aceitaram”, garantiu ela, antes de completar: “Quando entrei no concurso, foi para ir até o fim. Posso sensualizar, sim, sem problema nenhum, mas uma coisa é o concurso, outra é a minha religião. Jamais vou sensualizar em uma igreja".

Em São Paulo, a candidata ao Miss Bumbum 2014 tem frequentado a Igreja Universal com a amiga Andressa Urach, a quem é só elogios. “Conheço uma Andressa que poucas pessoas conhecem, uma pessoa batalhadora, amiga, sincera e também temente a Deus. Sinto que Deus está fazendo a obra na vida dela e me sinto muito abençoada por estar participando disso”, declarou.

Preconceito e ensaio nu
Rebeka sabe que sua opção pode não ser bem aceita pela comunidade evangélica. A candidata, porém, está dedicada a seguir seu sonho. “Não estou me vendendo, nem nada parecido. Sou empresária, estudante e participante de um concurso, mas as pessoas com certeza vão me julgar como pecadora. Quem não tem pecado que atire a primeira pedra. Sei que Deus sabe meu coração e meus sonhos, o que me importa é ir buscar a palavra e alimento para meu espírito”, afirmou.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O tigre, o menino e o trânsito


por Geraldo Tite Simões, no @Motite
Jornalista, escritor, especialista em segurança viária, duas filhas (bem educadas, eu acho...). 

Como um acidente pode explicar o comportamento humano

O Brasil ficou chocado nos últimos dias de julho quando um garoto de 11 anos teve o braço direito dilacerado por um tigre. O "acidente" ocorreu em um zoológico de Cascavel, PR, quando o garoto, acompanhado do pai, pulou uma cerca de proteção, ignorou os avisos de manter-se afastado e provocou primeiro um leão e depois o tigre. O desfecho todo mundo viu: teve o braço amputado na altura do ombro e terá a vida inteira para refletir sobre esse ato "corajoso". Esse acidente é exemplar, em todos os sentidos.

Quem acompanha minhas colunas sabe que há décadas eu insisto no declínio na qualidade do ser humano em sociedade. Especialmente no Brasil, país que parece caminhar ladeira abaixo no campo das relações humanas.

Felizmente alguém filmou e mostrou uma imagem que retrata o que vem acontecendo em uma sociedade desacostumada a respeitar uma autoridade. O garoto ficou por cerca de seis minutos atiçando dois felinos de grande porte, conhecidos por qualquer ser vivente como predadores. Até as pedras sabem que esses animais se alimentam de outros animais desde que o mundo é mundo.

Imediatamente após a divulgação das imagens começaram os julgamentos, principalmente os do "contra" e "a favor", seja do tigre, do garoto, do pai, do zoológico, de Deus etc. No atual modus operandi social de palpitar sobre tudo houve a esperada distribuição de culpa para todos os envolvidos, alguns até tentando amenizar o lado do garoto sob a alegação de que era "incapaz" de avaliar os riscos. Será? Com 11 anos você não sabe a diferença de um gato para um tigre?

Deixando um pouco o tigre de lado, vamos lembrar um pouco das histórias da Bíblia. Sem a menor conotação católico-cristã, mas apenas como exemplo. Muita gente atribui o pecado original ao sexo, fazendo uma analogia direta da mordida na maçã com rala e rola entre Adão e Eva. Mas Deus não poderia castigar pelo sexo, senão inviabilizaria a reprodução humana e jogaria por terra o famoso "crescei e multiplicai". 

O pecado original que condenou Eva e seu amasio ao mundo terreno foi a DESOBEDIÊNCIA. Deus deixou bem claro: não coma a fruta dessa árvore! E quando virou as costas lá foi ela e nhoc! Não tinha uma placa na macieira do tipo "fique longe, não coma". Por trás da desobediência está o conceito que quero chegar: o desrespeito!

Voltando ao zoológico, qual o padrão de comportamento dos visitantes: enfiar o braço na jaula ou manter-se afastado? Se uma criança violou o padrão é preciso olhar para esse caso isolado e tentar entender melhor de onde vem o comportamento tão prepotente.

Hoje em dia existe uma enorme confusão aqui em terras brasileiras com relação à educação. Também já escrevi sobre isso. E é um tal de pais entregarem seus filhos às escolas na crença cega de que o pimpolho sairá de lá um lorde inglês e com conhecimento de filósofo alemão. Mas em casa o filho faz o que quer, passa o dia no videogame, desobedece os pais e eventualmente despreza a autoridade dos empregados.

Educação é aquele conjunto de regras transmitidos de pais para filhos como uma carga genética. O que a escola transmite é conhecimento. Portanto, escola não educa, quem educa é o convívio familiar. Já defendi mais de um milhão de vezes a mudança do nome de ministério da Educação para ministério do Ensino.

Pergunto, que tipo de pai pode gerar um filho tão incapaz de entender a regra mais elementar, bíblica e basilar da educação que é a obediência? Que tipo de exemplo esse garoto tem em casa para ignorar tão descaradamente os perigos que envolvem o enfrentamento de um animal feroz? Uma criança que atiça descaradamente um animal selvagem como o tigre respeita seus professores? Obedece seus pais?

É o reflexo da falta de cuidado na educação, não da escola, mas aquela da formação do caráter. Quem enfrenta um tigre não é corajoso - como escreveram alguns - ou simplesmente desobediente?

Chamou-me a atenção o comentário de vários jornalistas que reforçaram o fato de no momento do acidente não ter nenhum vigia, embora o zoológico tenha se defendido alegando que a área é monitorada por quatro fiscais.

Ora, jornalistas são pessoas esclarecidas, viajam e normalmente voltam do exterior sempre com uma história de civilidade na ponta da língua. Ficam impressionados que nos museus americanos o visitante deposita o valor em uma caixa que fica ali, ao alcance de qualquer um, mas ninguém pega. Contam - impressionados - que na Áustria as padarias deixam o leite fora e as pessoas pegam e depositam as moedas em um pote, sem ninguém vigiando.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Vamos organizar o Deus de Rubem Alves

04-Rubem-AlvesRicardo Alexandre, no R7
Com a morte de Rubem Alves, aos 80 anos no último sábado (19/07), começará oficialmente o veloz processo de avaliação, reavaliação e organização de seu pensamento. É um crime, por um lado. Vivo, o pedagogo, escritor, teólogo, poeta e psicanalista permitia-se o direito à dúvida, as incertezas, ao paradoxal. Agora morto, será estudado até que dele não sobre mais do que as certezas sobre o que pensou, o que pretendeu. E quem sabe?
É um crime, mas é inevitável também. Seu pensamento sobre espiritualidade, por exemplo (talvez o campo mais intangível de todas as suas ocupações), foi um dos mais avessos à sistematização. Mas agora virão os que dele beberam e tentarão domesticá-lo, porque dele são/somos devedores, porque esperam/esperamos que dele se sirvam as futuras gerações.
Bem, serei o primeiro desses criminosos.
Rubem Alves foi um pastor progressista no interior de Minas Gerais nos anos 1950. Foi pastorear “gente pobre e simples” com a cabeça cheia de Albert Schweitzer, Miguel de Unamuno e Kierkegaard. Nos eventos que se seguiram ao golpe militar, acabou denunciado pela própria Igreja Presbiteriana como subversivo, e exilou-se nos Estados Unidos onde trabalhou em seu mestrado A Theology of Human Hope, que é considerado uma das pedras fundamentais do que viria a ser chamado de teologia da libertação.
Quando, pressionado, decidiu romper com a igreja e abandonar o ofício pastoral, tornou-se crítico ferrenho da religião institucionalizada e do chamado “protestantismo de reta doutrina”. Sua “Carta aberta aos companheiros da antiga Igreja Presbiteriana” e seu livroProtestantismo e repressão, mesmo que urdidos em mágoa, foram plantados nos anos 1970 e brotaram, primeiro no ambiente acadêmico onde nasceram (Alves foi professor de filosofia na Unicamp até se aposentar), depois em jovens estudantes de teologia que começaram a pensar o cristianismo para um mundo pós-moderno, menos ingênuo e mais urbano, com instituições em cheque, verdades sub judice, dezenas de tons de cinza entre o branco e o preto. A influência desse pensamento heterodoxo dentro da teologia ortodoxa talvez seja um dos maiores e mais improváveis legados de Alves. Sua morte foi chorada por católicos (“um dos grandes”, disse o padre Fábio de Melo), por pentecostais (“seu legado me acompanhará por toda a vida”, tuitou Ricardo Gondim), por batistas, presbiterianos e afins.
“Toda certeza provoca inquisições”, disse a Geneton Moraes Neto na bela entrevista da GloboNews, reprisada neste último fim de semana. “Por isso corro das certezas. Prefiro as perguntas”. Vivo, Geneton passou a vida fugindo das respostas. Morto, pode ver finalmente fechar as feridas que a religião lhe causou e ver surgir uma teologia na qual as dúvidas não são parte do problema da falta de fé, mas componente essencial no alumbramento do homem diante do Divino. Como descreveu poeticamente em seu livro O infinito na palma de sua mão:
Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas.
Para voar, é preciso amar o vazio. Porque o vôo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso, trocam o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram. É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas da gaiola estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão suas vidas.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Padre é suspenso por dar uma bênção na casa de um casal gay em Goiás


O padre Cesar Garcia (à esquerda) com Leo Romano (de branco) e Marcelo Trento durante evento na residência do casal, onde aconteceu a bênção Foto: Arquivo pessoal

publicado em O Globo


O padre César Garcia, de 53 anos, de Goiânia, foi afastado de suas funções religiosas - suspensão de ordem - pelo arcebispo da cidade, dom Washington Cruz, por ter dado uma benção na residência do casal homossexual Léo Romano, de 43 anos, e Marcelo Trento, de 38, no dia 20 de maio. O padre foi comunicado na terça-feira pelo bispo de sua decisão. Em entrevista ao GLOBO na manhã desta quarta-feira, o padre Garcia contou que não estimulou a união homoafetiva e nem simulou o casamento entre o casal, que já está junto há onze anos. Já Léo Romano e Marcelo Trento defendem a atitude do religioso. A Arquidiocese de Goiânia confirmou o afastamento, mas diz que ele é "temporário" e que vai apurar o ocorrido.

O padre César Garcia disse que fez uma celebração da palavra, como uma forma de abençoar a nova casa do casal. O religioso, que não vestia qualquer paramento e usava roupa comum na ocasião, classificou a atitude de dom Washington Cruz como uma truculência, diz que não feriu qualquer lei canônica e que comunicou previamente ao bispo que compareceria nesta celebração.

- O bispo se deixou guiar por interpretações fantasiosas, como se eu estivesse estimulado a união entre os dois. Não celebrei nenhum casamento. Sou muito prudente, quem me conhece sabe disso. Respeito os sacramentos e as pessoas. Tenho lisura nos meus atos. Não contrariei as leis canônicas - disse o padre César Garcia.

Com a decisão, César Garcia está proibido de executar os ritos sacramentais, como casamento e batizado, celebração de missa. Ele também deve ser julgado por um tribunal eclesiástico. O padre foi ordenado há 30 anos e atua na paróquia São Leopoldo, no bairro Jaó.

Casal defende o padre

Diante do afastamento do padre, Léo Romano e Marcelo Trento saíram em defesa do religioso. Romano também nega que a cerimônia tenha tido o sentido de confirmar uma união e sabe que o direito canônico proíbe celebração de casamento entre pessoas do mesmo sexo.

- Foi um lamentável episódio que ocorreu em virtude de uma bênção dada pelo padre César em uma celebração em nossa casa, onde festejávamos onze anos de união - disse Romano.

Em uma rede social, o arquiteto afirmou que o padre é conhecido da família e que falou “de amor” durante a visita:

“Padre César compareceu como amigo da família, que já celebrou casamentos de irmãos, cunhados e batizou sobrinhos. Ele falou de amor e abençoou nossa casa”, escreveu Romano na rede social.

O arquiteto classificou a atitude do bispo Washington Cruz de homofóbica.

"Sofremos essa reação homofóbica e retrógrada da igreja. Foi uma ação excludente e que não permite sequer que um ser humano manifeste seu afeto e carinho por outro", escreveu.

De acordo com Romano, cerca de 120 pessoas participaram da festa em que o padre estava presente, e que comemorava onze anos da união do casal. Eles estavam inaugurando a casa nova, no condomínio Aldeia do Vale, de classe média alta em Goiânia.

Para o padre, caso teria tido tratamento legalista

O padre César Garcia diz acreditar que o bispo Washington Cruz foi pressionado por setores religiosos para adotar uma punição para a sua conduta:

- Fiz uma comunicação prévia. Por que então tomou essa atitude posterior? Com essa atitude, ele está matando a Igreja, o direito de ir e vir das pessoas aos encontros. Quem sou eu para julgar. Sua santidade o Papa Francisco deixou isso claro no início do seu pontificado a ser questionado sobre os homossexuais. Houve um pré-julgamento.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

'Não sou eu. É Deus que opera através de mim', diz menina chamada de milagreira em São Gonçalo

Alani dos Santos, de 10 anos, é a esperança para fiéis em São Gonçalo
Alani dos Santos, de 10 anos, é a esperança para fiéis em São Gonçalo
Foto: Paulo Mumia

Natália Marshal, no Extra

Toda segunda-feira, Alani dos Santos, de 10 anos, deixa as brincadeiras com os amigos de lado e chega à igreja evangélica Missão Internacional de Milagres, em São Gonçalo, com uma responsabilidade que muito adulto não aguentaria. Ela ora, se junta aos colegas. E assim que sobe ao palco, a menina conhecida por fazer milagres se dirige a uma multidão devota, que vê nela sua chance de salvação.

Depois que Alani canta e prega como se fosse gente grande, os fiéis se aproximam com os seus problemas. Passaram por ali pessoas com HIV, hérnia, câncer, dores de cabeça, na coluna. E muitos deles se dizem curados.

Rosenilda Maria Klem, de 46 anos, hoje obreira da igreja, foi no culto da menina pela primeira vez há cinco anos após ouvir falar que ela fazia milagres. Moradora do bairro de Santa Isabel, em São Gonçalo, contou que a filha sofria de alergia e não conseguia dormir:

— Um dia ela (a filha) foi à igreja e, de repente, percebemos que melhorou. Não reclamava mais. Nunca tinha visto isso, mas agora pra mim se tornou normal.

O pai de Alani e pastor da igreja onde a menina ficou famosa por realizar curas, Adauto, de 47 anos, conta que o primeiro ‘milagre’ aconteceu quando ela tinha 51 dias de vida. Uma senhora que sofria com um mioma há 9 anos tocou as mãos do bebê e foi jogada para trás. “Assim que se levantou, sua barriga começou a desinchar”, descreveu.

— Até então nunca tinha ouvido falar que uma criança da idade dela tinha feito isso. Fiquei espantado. Minha filha é usada por Deus para curar as pessoas — define Adauto.

A notícia da menina “milagreira” rapidamente se espalhou. A igreja hoje recebe fiéis de todo mundo em busca da missionarinha, como Alani é chamada. No último culto, foram evangélicos de vários bairros do Rio de Janeiro, de São Paulo e até dos Estados Unidos.

— Sempre falo para procurar um médico. Não tenho nada contra a medicina. Pelo contrário. Minha filha será médica — defendeu o pai, que jura que nunca foi chamado de mentiroso, mesmo quando alguém deixou a igreja sem estar curado.

Com boas notas na escola (a mais baixa do último bimestre foi 9.1) e cursando o 5º ano, Alani confirma que quer estudar medicina para curar também aqueles que não acreditam no poder de Deus. Além de estudar, a menina adora dançar, cantar hip hop e comandar sua rádio on line Pérola kids, que traz temas evangélicos.

— Eu fico triste quando alguém não é curado, mas acredito que atingirá a graça um dia.

Desde o momento que Sandra, de 36, ficou grávida, acreditou que Alani seria um milagre. Isso porque ela teria sido avisada por médicos que seria muito difícil ter filhos.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Justiça da Índia terá de decidir se guru milionário está morto ou meditando

  • Shri Ashutosh Maharaj
    Shri Ashutosh Maharaj
Depois de um desentendimento entre seguidores de um líder espiritual indiano e sua família, a Justiça da Índia foi acionada e terá de decidir se ele está vivo ou morto. Os devotos de Shri Ashutosh Maharaj acreditam que o guru está passando por um estado profundo de meditação, mas os parentes do religioso dizem que ele, na verdade, está morto desde janeiro.
Certos de que, aos 70 anos de idade, Maharaj está vivenciando o Samadhi, quando se alcança um nível de profunda meditação, seus seguidores resolveram congelar seu corpo até que o mestre desperte, em Punjab (400 km de Nova Déli), e se negam a entregar seu corpo para a cerimônia de cremação, de acordo com o jornal britânico "The Telegraph".
Médicos já declararam a morte clínica do guru, fundador da ordem religiosa Divya Jyoti Jagrati Sansthan, após uma suposta parada cardíaca, informação que é negada por seus discípulos, que inclusive publicam em seu site oficial que Maharaj "está meditando desde 29 de janeiro de 2014".
Embora a polícia também já tenha confirmado a morte, a Alta Corte de Punjab não aceitou a constatação, e o governo local decidiu que a disputa se trata de um assunto espiritual.
Restou à mulher e ao filho de Maharaj pedir à Justiça que investigue a morte e ordene à devolução do corpo à família.
Dilip Jha, 40, filho do líder espiritual, acredita que os interesses dos devotos de seu pai são muito mais mundanos do que se imagina. Para Jha, os seguidores de Maharaj mantêm seu corpo para poder controlar suas finanças; os bens imobiliários do guru têm valor estimado em cerca de R$ 370 milhões.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Grupo de religiosos assusta seguranças na chegada da seleção da Austrália


Rafael, ao centro, faz parte do grupo de evangélicos que foi recepcionar a seleção
australiana em Vitória O Globo / Kleber Amorim
Kleber Amorim, no O Globo

VITÓRIA – Em tempos de protestos no Brasil, uma cena inusitada marcou o desembarque da seleção australiana em Vitória, na noite desta quarta-feira. Entre os cerca de 200 torcedores que foram ao aeroporto Eurico Salles, estava um grupo de 20 evangélicos que carregava uma faixa, em inglês, saudando a primeira delegação estrangeira a chegar no país para a disputa da Copa do Mundo.

Os religiosos chegaram a provocar um princípio de alvoroço nas forças de segurança que estavam de prontidão, quando se aproximavam do aeroporto.

- Viemos fazer uma recepção de boas-vindas, dizer que os queremos no Brasil. E também queremos chamar atenção para o movimento que fazemos de evangelização - disse Felipe de Souza Ramos, de 19 anos, um dos integrantes do grupo.

Estreia no dia 13

Na Copa do Mundo, a Austrália está no grupo B, e a estreia será no dia 13 de junho, contra o Chile, na Arena Pantanal. Os outros jogos na primeira fase serão contra Holanda, no Beira-Rio, dia 18, e Espanha, na Arena da Baixada, dia 23.

Time de azarões

Antes do desembarque em Vitória, a delegação australiana fez uma escala em Curitiba, onde o meia Tommy Oar falou sobre as pretensões da seleção no Mundial:

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Boneco desbocado de Ratinho vira pastor e critica Macedo e Santiago

Eduardo Mascarenhas manipula Xaropinho em culto da
Igreja Evangélica Missão Vida em Cristo

Por PAULO PACHECO, no Notícias da TV

O rato Xaropinho, personagem desbocado do Programa do Ratinho, virou pastor. Seu manipulador, Eduardo Mascarenhas, pastor da Igreja Evangélica Missão Vida em Cristo há quatro meses, leva o boneco aos cultos, mas não para orar ou ler a Bíblia, e sim para tirar sarro dos fiéis. A liderança religiosa faz parte da nova rotina do artista, que pretende, aos poucos, deixar o mascote da atração do SBT, por problemas de saúde e para se dedicar à igreja.

"Eu não descaracterizo o Xaropinho. Na igreja, ele continua doido, brincalhão, falando abobrinha. Não quero ficar podando meu humor por causa do puritanismo. Quando não estou fazendo humor, sou pastor Eduardo. Não vou deixar de fazer piada, mas sem falar nenhum palavrão cabeludo", diz Mascarenhas, que pede permissão a Ratinho, dono de Xaropinho, para manipular o personagem nos cultos.

A ideia de levar Xaropinho à igreja surgiu após Mascarenhas perceber que os frequentadores dos cultos não fazem outra atividade cultural senão ir à igreja: "Quando anuncio o Xaropinho, claro, sempre atrai um ou outro curioso para a igreja, mas levo porque a Igreja é muito séria, sisuda, carrancuda. Pensei nas famílias que não podiam pagar para irem ao cinema, ao teatro".

O artista, hoje pastor, faz questão de se manifestar contrário às grandes igrejas, como a Mundial, de Valdemiro Santiago, e a Universal, de Edir Macedo. Para Mascarenhas, essas igrejas são "caça-níqueis" e visam apenas o dinheiro.

"Sou contra essas igrejas caça-níqueis que surgem a todo instante. Os caras não fazem nada útil, só fazem igreja para encher de gente, tomar grana [dos fiéis] e comprar emissoras de TV", critica o pastor, que se sustenta com o salário do SBT e arrecada dinheiro na igreja para seu projeto social, o Instituto Xaropinho.

Na igreja, Mascarenhas manipula Xaropinho como ventríloquo. O rato já aparece gritando e xingando. Chama os fiéis de "feios" e diz que os pastores se parecem com o pugilista Adílson Maguila ou o apresentador José Luiz Datena:

Xaropinho - Beleza, Brasil, vai começar o Programa do Ratinho!

Mascarenhas - Está louco, Xaropinho? Você está na igreja!

Xaropinho - Meu Deus, que povo estranho... aquele é o Maguila ou o Datena?

Mascarenhas - Não, ele é o pastor.

Xaropinho - Pastor é para pastar?

Mascarenhas - Não, é para pastorear!

Xaropinho - Pastorear o quê?

Mascarenhas - As ovelhas. Todo esse povo são as ovelhas!

Xaropinho - Nossa, tem cada ovelha feia! Sabia que ovelha faz cocô redondinho?

Mascarenhas - Você está louco! Aqui é a casa de Deus!

Xaropinho - Deus está me ouvindo? Estou ferrado!

O pastor Eduardo Mascarenhas manipula o boneco Xaropinho durante culto (Arquivo pessoal)

Se atualmente Xaropinho é aceito na igreja, a situação era bem diferente quando Eduardo Mascarenhas começou a manipular o personagem, há mais de 15 anos. "Fui muito perseguido nas igrejas por ser o Xaropinho. Teve igreja que barrou a minha entrada por causa do Programa do Ratinho, já fui xingado. Hoje, não tenho problema com isso", relembra o artista.

A rejeição que sofreu na igreja fez Eduardo Mascarenhas entrar em depressão e quase largar tudo, porém foi impedido pelo apresentador Carlos Massa: "Já pedi a conta cinco vezes no mesmo dia, mas o Ratinho não deixou. Ele percebeu que eu não estava normal. Eu estava meio deprimido, tive uma crise de pânico".

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Ter fé na ciência pode ser tão bom quanto acreditar em Deus

Já existe um movimento que prega a união do conhecimento com a crença (foto: Getty Images)
Já existe um movimento que prega a união do conhecimento 
com a crença (foto: Getty Images)

Marina Oliveira e Rita Trevisan, no UOL Mulher (via Pavablog)
No meio científico, o preconceito com a religião ficou no passado. Atualmente, há milhares de estudos que avaliam a influência da religiosidade no bem-estar físico e mental. E a conclusão é sempre a mesma: a de que os religiosos, ao darem significado ao que é caótico e aparentemente incontrolável, não só lidam melhor com os momentos de crise, como sofrem menos de ansiedade, depressão e estresse, assim como são menos vulneráveis adoenças diversas, a exemplo das cardíacas.
Há também quem defenda que não é preciso seguir uma religião para colher esses benefícios, mas apenas vivenciar a espiritualidade. E é desse movimento, que prega a união do conhecimento com a crença, que nasceu uma nova corrente de estudos, a que investiga a fé na ciência.
Deriva dessa vertente o estudo divulgado em 2013, conduzido pelo Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, nos Estados Unidos, que apontou que os mesmos benefícios encontrados pelos religiosos nos cultos ou na vivência da espiritualidade também podem ser usufruídos por aqueles que acreditam na ciência, no poder explicativo e revelador da soma dos conhecimentos humanos.

Endeusamento da ciência

De acordo com o pesquisador Miguel Farias, líder desse grupo de estudos, a crença na ciência pode ajudar as pessoas não-religiosas a lidarem com a adversidade, oferecendo conforto e tranquilidade.
Para o especialista Ricardo Monezi, do Centro de Estudos em Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o estudo condiz com a realidade. “Hoje em dia, temos uma pluralidade de religiões. Você tem até a liberdade de não ter uma, se não quiser”, diz. Isso possibilita que um agnóstico enxergue na medicina uma base onde pode depositar sua confiança. “Ao acreditar na ciência, o cérebro faz uma construção, entende o conhecimento como algo maior, que pode ajudar”, afirma.
Segundo Monezi, os avanços tecnológicos propiciaram, inclusive, um “endeusamento” da ciência, que passou a ser vista como algo que pode salvar o ser. “Quando alguém pergunta a um religioso o que dá segurança a ele, a resposta provável será ‘Deus’. Já para o ateu, o importante é saber que a medicina está tão avançada que poderá socorrê-lo em um momento complicado”, explica. “Os benefícios nas dimensões biológica, psicológica e social do indivíduo estão presentes em qualquer dessas situações, porque o que faz a diferença é acreditar”, diz.

A escolha de cada um

Ser religioso ou espiritualizado tem a ver com as experiências pessoais e individuais. Quem cresceu em uma família na qual a religião faz parte da tradição, por exemplo, poderá se influenciar por essa experiência. Da mesma forma, há pessoas que, por terem passado por vivências traumáticas, adotaram as práticas espirituais.
“Já quem não teve experiências dessa ordem, tende a crer mais no âmbito material das ocorrências, em algo que converse com métodos de investigação”, explica o psicólogo Julio Fernando Prieto Peres, que realizou o seu pós-doutorado no Centro de Espiritualidade e Mente da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

"O Deus de Israel não gosta de convarde", Pondé.


foto divulgação

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo
Título original: Nôach

O Deus de Israel não gosta de covardes. Homem, mulher, criança, todos são chamados à coragem, à dor e a tomar decisões difíceis.

Noé (Nôach), foi um desses heróis. Erich Auerbach, no seu "Mímesis", afirma que Deus testa seus heróis e heroínas, levando-os ao limite do insuportável, para que, sobrevivendo ao teste, descubram por que foram eleitos. Deus funda, assim, a ideia de autoconhecimento na literatura ocidental.

"E os que vieram, macho e fêmea, de toda criatura vieram, como Deus lhe havia ordenado; e o Eterno o fechou para protegê-lo. E foi o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e multiplicaram-se as águas, e alcançaram a arca, e levantou-se de sobre a terra" (Gênesis, 7; 16-17, edição hebraica).

O filme "Noé", de Darren Aronofsky, é sobre eleição. "Eleição" é um conceito, muitas vezes, pouco compreendido pelo mundo contemporâneo, maníaco por felicidade "projetos do self" e sucesso.

Os eleitos pelo Deus de Israel só têm problemas; a solidão os assola, o medo e o sofrimento os persegue. Erich Auerbach entende muito mais de "eleição" na literatura israelita do que muito rabino, pastor e padre por aí, obcecados por vender autoajuda espiritual. "Dificilmente, um deles não sofre, como Adão, a mais profunda humilhação...", afirma Auerbach.

O diretor do filme, faz licenças poéticas, e algumas delas (não tenho como saber o quão consciente ele estava quando as fez) muito sofisticadas, levando em conta a "dramaturgia" do Velho Testamento, como falam os cristãos quando se referem à Bíblia hebraica.

Uma delas, muito pontual, é o uso da pequena tira de couro que o pai de Noé, e depois o próprio, enrola no braço: uma referência direta ao "tefilin" (filactério). A palavra hebraica tem sua raiz em "tefilá", que significa prece. Hoje, ela "virou" um cordão de couro ligado a duas caixinhas que o judeu amarra daquele jeito e também na cabeça (é bem maior do que mostra o filme).

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Noé no Brasil!!

Não, não vou falar do filme NOÉ. Afinal, já tem muita gente falando e dando opinião a respeito dele. Mas confesso que vou pegar a "onda" (desculpe o trocadilho atroz) e repostar um texto que traduzi, que ronda a Internet ,e tropicalizei-o às condições peculiares de nossa terrinha...

Um amigo meu, sobrevivente da grande cheia recifense de 1975, teve um pesadelo. Ele testemunhava o que ocorria com Noé, só que o patriarca morava no Brasil, nos nossos dias:
-----------------------------------------
Solano Portela, no O Tempora! O Mores!

Noé nunca tinha visto chuva em sua vida e fica espantado quando ouve uma voz retumbante dizendo: “Em um ano eu farei chover sobre toda a terra. Ela será coberta com água até que tudo esteja destruído, começando aí no Brasil, mas quero que você salve os justos e dois espécimes de cada animal. Assim, estou lhe comandando a construir uma ARCA”!

No meio de um relâmpago, num piscar de olhos, caem às mãos de Noé os desenhos e todas as especificações da Arca a ser construída.

Tremendo de pavor, Noé pega o projeto e concorda com a construção da Arca. “Lembre-se”, diz a voz, “Você tem que terminar a Arca e ter tudo e todos a bordo dentro de um ano”.

Passa-se exatamente um ano, no sonho, e uma tormenta monumental cobre toda a terra. Os mares estão agitados e tumultuados, mas Noé está sentado no terreno de sua casa, chorando!

“Noé”, ressoa novamente a voz, “onde está a ARCA”?

“Perdoe-me”, clama Noé. “Fiz o que eu pude, mas os problemas foram terríveis”!

“Primeiro, eu tive de obter uma licença de construção e o projeto da Arca não se enquadrava no código naval, nem estava assinado por um engenheiro credenciado na Marinha. Tive que contratar uma firma especializada para redesenhar tudo”!

“Depois, fiquei sabendo que o Distrito Naval havia feito um convênio de segurança e entrei numa questão judicial com o CONTRU, pois insistiam que a Arca precisava de uma sistema de ‘sprinklers’ contra incêndios e, além disso, a Capitania dos Portos exigia uma enormidade de coletes-salva-vidas”.

“Ai o meu vizinho ligou para o ‘Psiu’ dizendo que eu estava fazendo muito barulho e depois para a prefeitura, alegando que a construção da Arca no quintal da frente, violava o zoneamento da Capital. Tive que estar presente a cinco audiências na comissão de planejamento municipal até conseguir um certificado de exceção, para dar andamento ao projeto”.

"Quando a ARCA estava com a estrutura pronta, passou um protesto pela frente da minha rua e os Black Blocs tocaram fogo nela, enquanto a polícia olhava de longe, 'protegendo' os manifestantes. Sem chuva, tive um trabalho enorme para apagar o fogo".

“Tive problemas na compra de madeira para construir a Arca em função da proibição de corte de árvores, para proteção do mico-leão na Mata Atlântica. Finalmente, consegui convencer a Secretaria Estadual de Proteção à Fauna e Flora que eu precisava da madeira EXATAMENTE para salvar o mico-leão, mas a Polícia Florestal não me deixou pegar um casal de micos-leão. Sem mico-leão, não havia o que salvar”.

“Os marceneiros que eu havia contratado foram visitados pelo carro de som do Sindicato dos Trabalhadores em Madeira que convenceu-os a procurar a proteção do Sindicato. Na semana seguinte, fizeram uma greve, querendo intervalos para lanche de 2 em 2 horas e recusando-se a trabalhar horas extras. Tive de negociar até com a CUT e agora, em vez dos 8 carpinteiros que contratei quando comecei, tenho 16, que trabalham 5 horas a menos por semana do que os 8 que eu tinha, no início. E ainda não tenho os micos-leão”.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Eu não mereço ser estuprado. Ponto!

Por Mauro Meister

Muita polêmica em torno do óbvio e de perguntas muito mal feitas e, consequentemente, mal interpretadas e mal usadas em diversas agendas. Digo o seguinte, e não espere uma sequência lógica de argumentos, se não um desabafo desordenado no final do dia:

1. Ninguém merece ser estuprado! Nem mulher, nem homem, nem religioso ou ateu, nem velho, nem criança, nem homossexual, nem prostituta, nem jornalista, nem tímidos ou extrovertidos... será que é preciso estabelecer categorias de quem não merece ser estuprado? Ninguém merece isso, nem o insano que pensa que outro merece ser estuprado (eles existem!).

2. Ninguém merece ser atacado. Isto vale para todos os seres humanos. É por isto que temos leis que devem ser respeitadas, inclusive aquelas que dizem respeito à moral, os bons costumes, respeito a valores que a sociedade construiu durante décadas e que encontram-se em baixa no meio da população contemporânea e que prezam mais o valor das ideias individuais do que o que diz respeito a todo mundo: “o corpo é meu e eu faço dele o que quiser”. Se assim for, tudo é permitido e as leis contra, por exemplo, drogas, deveriam mesmo ser extintas. Não é isto que querem os consumidores de drogas e abolicionistas da canabis? Isso é só o começo, mais virá a frente.

3. Ninguém merece ser ameaçado e nem intimidado. A única coisa que deve ameaçar um ser humano é sua própria consciência e a lei, que afirma quais são os direitos e os deveres do cidadão e, consequentemente, as penalidades que ‘ameaçam’ aqueles que quebram a lei. Até mesmo Deus, ao tratar com o homem, trata-o conforme a sua santa lei e a consciência, afirmando que esta o condena.

4. Ninguém merece responder as questões conforme feitas na pesquisa do IPEA. Conforme bem exposto por Felipe Moura Brasil na sua matéria A culpa do estupro não é da mulher, mas a da confusão é da pesquisa do IPEA! Essa, sim, merece ser “atacada”! Não vou me delongar aqui. A pesquisa é mal feita!

5. Ninguém merece a rápida e tola conclusão de boa parte da mídia: 65% da população pensa que mulheres que mostram o corpo merecem ser estupradas. Estou quase batendo de porta em porta aqui no meu prédio para ver se a pesquisa se confirma, mas tenho cá minhas dúvidas. Afinal de contas, o que significa “merecer ser atacada”? Tem algo de podre no reino da dilmamarca. Da tolice da pergunta, à conclusão tola, porém, óbvia e imediata, já ouvi várias vezes no rádio e televisão: 65% da população pensa que mulheres que mostram o corpo merecem ser estupradas (porque a próxima questão diz “Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros.”)

No limite entre fé e obsessão, Noé ousa e vai além do “filme bíblico”






Roberto Sadovski, no UOL Entretenimento

Em um dos grandes momentos do novo filme de Darren Aronofsky, Noé (Russell Crowe) conta para seus filhos a mesma história que ouviu de seu pai, que por sua vez ouviu de seu avô, sucessivamente até chegar no primeiro homem, Adão: a história da criação. O que se segue é uma sequência belíssima e assustadora, em que os sete dias da criação do mundo são narrados com a base do texto do Velho Testamento, integrado ao Big Bang que deu origem ao universo e à Teoria da Evolução de Darwin. Os “dias” divinos podem ser eras, encapsuladas no trabalho do Criador (e nunca Deus) em erguer um novo mundo, em fazer do nada, vida. Noé não é um “filme bíblico” na definição clássica do termo. Mas é um épico de fé e obsessão que coloca o profeta na posição de zelador, carcereiro e ativista, que atende a um chamado, entende sua função na Terra e não vai deixar que nada fique entre ele e a tarefa a qual foi designado.

O modo de cumprir essa tarefa é o que há de mais fascinante no filme de Aronofsky. O diretor já havia flertado com a fagulha da criação no subestimado Fonte da Vida(não viu? veja!), mas para fazer Noé ele teve acesso a uma caixa de brinquedos mais elaborada. A ideia de interpretar e adaptar a passagem da Bíblia sobre o dilúvio, a arca e o que aconteceu depois (uma passagem pequena, por sinal) assolava a mente de Aronofsky desde que ele tinha 13 anos, quando escreveu um poema sobre o tema, posteriormente sendo premiado pelo texto. Religião, embora seja a matéria prima da história, não é a mola que impulsiona o projeto: é o fascínio em materializar um conto presente em escrituras de todas as religiões, uma metáfora para o fim de tudo e seu renascimento. Embora, como acredita o próprio Russell Crowe (em grande atuação), as evidências físicas e geológicas em todo o planeta corroboram que, um dia, fomos cobertos por água.

Os filhos de Noé, Jafé e Sem, observam na frente da arca ao lado de sua mãe,
Naameh, e de Ila.

Arca que, no filme, surge como uma caixa, não um barco: sua função era simplesmente proteger, e não navegar. Sua construção, uma visão surgida depois de um encontro com seu avô, Matusalém (Anthony Hopkins), é tarefa de Noé e sua família – a mulher Naameh (Jennifer Connely) e os filhos, Sem (Douglas Booth) e Cam (Logan Lerman), além do caçula Jafé (Leo McHugh Carroll). Fora dos textos bíblicos surge Ila (Emma Watson), adotada pela família ao ser encontrada em um acampamento em reínas quando bebê, com uma lesão que a deixou estéril. Ila se envolve romanticamente com Sem, deixando em Cam a esperança de que, quando chegar a hora, seu pai também permitirá que ele encontre uma esposa. Mas a obsessão de Noé em interpretar a tarefa lhe apontada pelo Criador (suas visões vem em sonhos, também uma maneira esperta em mostrar essa comunicação divina) o coloca como zelador dos inocentes – ou seja, os animais aglomerados e colocados em hibernação na arca –, que seriam os únicos herdeiros da Terra depois de tomada pelas águas.

E os homens, os herdeiros de Caim, se colocam como motivo para o Criador recomeçar a vida do zero. Liderados por Tubal-caim (Ray Winstone), as cidades erguidas pelo homem são como parasitas, exaurindo recursos naturais em cada assentamento, partindo para o próximo deixando destruição em seu rastro. Nas cidades, violência, sexo, maldade mostram que a hora da humanidade talvez tenha chegado ao fim. É o medo de carregar a semente do mal que impele Noé a cumprir sua tarefa com tamanho afinco, e um milagre abençoado em sua família ao fim do segundo ato não traz esperança, e sim mais dor. Na visão de Aronofsky, Noé tem um pouco de profeta e um pouco de louco, o que não o torna um herói, o “salvador da humanidade”, e sim alguém que tem a honra dúbia de fechar a lojinha quando chegar o fim.

Noé encontra seu avô, Matusalém, antes de suas visões do fim do mundo

Visualmente, Noé é espetacular. Para interpretar uma história tão complexa com imagens, Aronofsky vai da simplicidade (a terra que molha os pés de Noé em sua visão parece sangue) ao épico (o dilúvio, como esperado, é grandioso e assustador) – uma clara evolução no apuro do cineasta que, desde sua estréia com π, em 1998, até o sucesso global com Cisne Negro (que deu o Oscar de melhor atriz a Natalie Portman em 2011), casou uma forte narrativa visual com temas difíceis, como perda de identidade, a fusão de ciência e fé e a obsessão em ultrapassar os próprios limites. Essa paleta estética ganha em Noé um componente visual que só soma à polêmica. Para auxiliar na tarefa de erguer a arca, o profeta tem o auxílio dos Guardiões, gigantes de pedra que, na verdade, são anjos caídos, cuja luz foi aprisionada nas entranhas da Terra – tupo porque ousaram ajudar o homem em sua jornada, desviando-se dos desígnios do Criador quando o fruto proibido pôs fim à harmonia no paraíso.

Crítica: É preciso paciência de Jó para encarar o filme "Noé"

Noé (Russell Crowe) e a esposa (Jennifer Connelly) preparam sedativos
para os animais dentro da arca
Thales de Menezes, na Folha de S.Paulo

Para contar no cinema uma das histórias mais grandiosas da humanidade, o que se espera é um filme grandioso.

E "Noé" apenas finge ser um. O ator é um nome de peso, com Oscar e tudo. Há tecnologia e dinheiro para criar a arca gigante e o dilúvio. Tudo narrado em tom épico, certo?

Mas Russell Crowe está péssimo, a arca é só um caixote boiando numa banheira e a história, simplória, tem batalhas que parecem rejeitadas de "O Senhor dos Anéis". Noé (Russell Crowe) e a esposa (Jennifer Connelly) preparam sedativos para os animais dentro da arca O diretor Darren Aronofsky vem de dois belos acertos, "O Lutador" e "Cisne Negro", este um filme surpreendente.

É evidente que fica difícil alguma surpresa quando todo mundo já sabe o roteiro: Noé é o homem escolhido por Deus para construir a arca, colocar nela sua família e um casal de cada espécie animal na Terra, para repovoar o mundo depois do dilúvio divino.

Aronofsky simplifica a história ao máximo e tudo deságua num irritante filme esquemático e de pobreza visual.

Quando Noé conta a história da criação do mundo para sua família, imagens estáticas são trocadas em ritmo acelerado, como se fosse a vinheta de abertura da série de TV "The Big Bang Theory".

A entrada dos animais na arca poderia ser um bom ingrediente para imagens espetaculares, mas os resultados na tela não têm brilho algum. Criar os bichos gráficos deve ter dado um trabalhão, que é matado em cenas curtas, numa direção nada inspirada.

Quando Noé precisa impedir que uma grande horda entre à força na arca, quem aparece para ajudá-lo são os Guardiães, gigantes de pedra que Deus abandonou na Terra. Essas criaturas dormem escondidas como rochas amontoadas e, se Noé é ameaçado, se erguem para lutar, feito desajeitadas versões dos robôs de "Transformers".

O elenco poderia fazer a diferença, mas não consegue. Anthony Hopkins surge como Matusalém, avô de Noé; sua vocação atual se resume a tipos idosos sábios, como seu Odin na franquia "Thor".

A mulher e os filhos de Noé são lindos. Jennifer Connelly fica deslumbrante até coberta pela lama do dilúvio. Russell Crowe assume de vez o lugar de Charlton Heston de sua geração, ambos atores encorpados, de voz grave e missões heroicas.

Heston foi gladiador em "Ben-Hur" e Moisés em "Os Dez Mandamentos"; Crowe ficou célebre em "Gladiador" e foi opção óbvia para Noé.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Evangélico fervoroso e reservado: o irmão Fred dentro da igreja

GloboEsporte.com acompanha culto frequentado por centroavante do Fluminense
Igreja que Fred frequenta tem cadeiras acolchoadas, telão e câmeras para filmar o culto (Foto: Hector Werlang)
Igreja que Fred frequenta tem cadeiras acolchoadas, telão e câmeras para filmar o culto (Foto: Hector Werlang)
Hector Werlang, no globo esporte
Fred não é pontual, prefere ser precavido. Chega com antecedência de 24 minutos. Veste-se de forma discreta: sapatos, calça e camiseta polo pretas. A bíblia, carregada pela mão esquerda, chama atenção só para quem é de fora. Afinal, foge à regra da imagem do centroavante do Fluminense e da Seleção que rodou o país através de um Vídeo na internet, onde aparece beijando uma desconhecida no meio de uma avenida em Belo Horizonte, no ano passado. A presença na Igreja, no entanto, diz muito sobre a nova fase do jogador, embora não seja capaz de fazê-lo notado ao entrar na sede da Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul (Ceizs), no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Ele caminha sem ser abordado com pedidos de fotos ou autógrafos. Gritos femininos? Choros desesperados por atenção? Apelo de pais por um agrado aos filhos? Nada. O que é comum em treinos e jogos, seja do Tricolor ou do Brasil, inexistem na igreja. Por cerca de 100 metros até sentar na sexta fileira de cadeiras acolchoadas, mantém o olhar ao palco. Lá acontece o culto que passou a frequentar rotineiramente em janeiro. A cargo do pastor Marco A. Peixoto, o tema abordado na ocasião foi “o Rio de Janeiros sob trevas”. Especificamente: os efeitos, no entender dele, negativos do Carnaval.
Passar praticamente despercebido não impede que um homem se aproxime de Fred. Não é fã. Sim, um irmão de culto. Os dois conversam. O atleta desliga o celular. E rumam à primeira fila. Ficam perto do palco que, antes da pregação, é tomado por uma banda de música gospel. O camisa 9 canta. Sabe as letras de cor. Se mexe como quem quisesse dar uns passinhos – algo feito por todos os cerca de 5 mil presentes. Ele está pronto para o que está por vir.
O GloboEsporte.com acompanhou a reunião da Ceizs na última segunda-feira. E, a seguir, relata como é Fred dentro da igreja. A partir das 19h30m, ele se revelou ainda um evangélico fervoroso. Irmão que canta, presta atenção à pregação, reza e praticamente fecha a igreja, já que só foi embora após conversar com dois pastores em particular por quase 50 minutos, quando o local já estava vazio.
fred ou, simplesmente, irmão
Fred apareceu no treino do Flu nas Laranjeiras usando uma camiseta da igreja (Foto: Reprodução)
Fred apareceu no treino do Flu nas Laranjeiras usando uma camiseta da igreja (Foto: Reprodução)
Entrar na sede da Ceizs dá a impressão de se estar em uma enorme sala de cinema – antes de virar igreja, o prédio de número 72 na Praia do Flamengo era um local de exibição de filmes. O ambiente é amplo. Tem banheiros, masculino e feminino (este geralmente com filas), bebedores, ar-condicionado central, circuito interno de TV. Tudo controlado por funcionários e seguranças. Há, ao lado, um estacionamento, onde Fred deixou a sua caminhonete BMW após treinar nas Laranjeiras.
O “aparato de show” causa inveja. São duas câmeras, uma posicionada naquela grua que a torcida se acostumou a ver atrás dos gols nas transmissões de jogos, e um ensurdecedor sistema de som: bateria, guitarra e demais equipamentos musicais. Sem falar na iluminação e de um telão dignos de casas de espetáculo.
- Ele andou meio sumido nos últimos tempos, mas desde janeiro passou a frequentar de novo. Sempre vem sozinho. Senta na primeira fila. É um irmão exemplar: vem com bíblia em mãos, canta e faz as orações – diz uma frequentadora do local.
Se as pessoas não o abordam, ao menos falam dele. Antes de o culto começar, foi possível perceber que Fred era assunto. Um grupo de jovens, ao falar de uma pelada disputada entre eles, logo lembrou do centroavante.
- Será que ele vem hoje (segunda-feira)?
- Claro, é nosso amigo. Vai aparecer, pode apostar. Ele se converteu e deixou Jesus entrar na sua vida – apostou um deles.

quinta-feira, 6 de março de 2014

10 considerações sobre 12 Anos de Escravidão, ou como a realidade supera a ficção

1
Douglas Eralldo, no Listas Literárias [via Livros e Pessoas]
O Blog leu 12 Anos de Escravidão, o livro que inspirou o filme. Os relatos de Solomon Northup nesta edição de clássicos da Penguin/Companhia das Letras ainda apresenta a particularidade de manter o projeto gráfico que marca o estilo deste selo, mas também aproveitando o sucesso do filme nos cinemas com uma sobrecapa com a imagem do filme. Neste post as 10 considerações do Listas Literárias sobre o livro:
11 – 12 Anos de Escravidão, o relato do negro liberto que se torna escravo, Solomon Northup, é arrebatador a tal ponto que impede que o leitor se desgrude de suas páginas; com uma lucidez impressionante o autor nos leva a acontecimentos inexplicáveis e que tanto envergonha a história da humanidade, expondo os fatos com clareza e esmiuçando os verdadeiros sentimentos dos escravos americanos;
2 – Fosse escrito por qualquer outro autor 12 Anos de Escravidão, por si só já mereceria estar entre as melhores ficções já publicadas. No entanto, o que Solomon Northup revela se torna tão mais assustador porque longe de ser uma ficção, seu relato nos apresenta um drama real e sombrio que só mesmo com muitas virtudes, o que era o caso de Solomon, ele consegue enfrentar o problema de frente; muitas vezes até mesmo esperançoso durante os doze anos que sua liberdade foi extirpada por ladrões escravagistas;
3 – O relato revela Solomon Northup um homem culto e muito inteligente, e seu texto conciso permite o leitor compreender os verdadeiros dramas da escravidão, e de uma forma poucas vezes vista, já que a condição de ser negro, liberto, e letrado, acaba desta forma permitindo que como raramente ocorreu os próprios escravos tivessem voz, o que torna seu relato muito mais impressionante pois Solomon transcreveu para o papel aquilo que os negros sentiam, diferentemente do que seria qualquer outra pessoa escrevendo;
4 - Além do valor histórico dos relatos de Solomon Northup seria impossível também não falar de suas qualidades literárias, especialmente pela forma de que ele descreve sua jornada épica, colocando sempre mais curiosidade no leitor. É como se ele próprio, Solomon, junto conosco numa roda noturna ao redor de uma fogueira e ele nos contasse seu período de aprisionamento, onde toda sua humanidade foi negada por causa da cor de sua pele. E num grande exemplo, sua narrativa e a forma com qual ele lida com “seus proprietários” e a falta de liberdade é de uma grandiosidade raramente vista nos homens, independente de seus credos ou cor;
5 - Ainda assim, sofrendo demasiadamente como a qualquer outro escravo a mercê dos caprichos ou das ordens de seus senhores, Solomon muitas vezes é condescendente com aqueles que minimamente se mostram dignos (se é que isso seja possível em alguém que realmente acredite que uma pessoa por causa de sua raça possa ser comparada aos cavalos ou porcos da fazenda) para com ele. Ele geralmente acaba culpando mais o sistema vigente por criar e possibilitar a escravidão como algo normal e de maneira alguma indecente, do que diretamente as pessoas que usufruíam desse mesmo sistema;
6 – Solomon Northup de certa forma também apresenta sua jornada como uma jornada de fé. Isto está presente em muitas referências religiosas em seu texto, bem como a fé que manteve ao longo dos seus 12 anos de escravidão;
7 – Outra preocupação evidente no texto de Northup é sua persistente tentativa de tornar o mais real e plausível seu relato. E isto não é algo difícil de entender, pois somente os excluídos e os realmente esquecidos e maltratados podem saber o quanto é difícil fazer crer que há coisas terrivelmente ruins no mundo, que para aqueles cujos jardins são floridos os problemas dos outros não passam de mera especulação;
8 – Por isso em determinadas partes do texto, Northup não se priva de algumas divagações explicando nos mínimos detalhes o trabalho envolvido em determinadas culturas; como a do algodão e do açúcar, onde a mão-de-obra escrava produzia a riqueza de um país inteiro que cresceu “bebendo” do sangue e da alma de homens que tiveram destinos ainda mais sombrios que o de Northup;

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

‘O empregado tem carro e anda de avião. Estudei pra quê?’

Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro “mal-vestido” no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada
Matheus Pichonelli , na Carta Capital
Professora universitária faz galhofa diante do rapaz que foi ao aeroporto sem roupa de gala. É o símbolo do país que vê a educação como fator de distinção, e não de transformação
Professora universitária faz galhofa diante do rapaz que foi ao aeroporto sem roupa de gala. É o símbolo do país que vê a educação como fator de distinção, e não de transformação
O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.
Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.
Mais à frente, ele contava como a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.
Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.
Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhoscampeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.
Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.
O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.
Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Compartilhe no Facebook

Related Posts with Thumbnails