Em setembro, um deputado brasileiro foi destaque na Organização das Nações Unidas, e por um motivo que nada tem a ver com corrupção ou envolvimento em irregularidades – tipo de atitudes normalmente associadas aos políticos no Brasil. O deputado estadual Carlos Alberto Bezerra Jr, do PSDB paulista, falou na reunião do Alto Comissariado dos Diretos Humanos da ONU, realizada em Genebra (Suíça), sobre um projeto de sua autoria que está dando o que falar. Aprovado na forma da Lei nº 14.946, o instrumento prevê a cassação do registro no Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, o ICMS, de toda empresa que se utilizar, ainda que indiretamente, de mão de obra submetida a regimes de trabalho que se assemelhem à escravidão. Na prática, a lei inviabiliza o funcionamento de grupos empresariais que praticam a exploração ilegal de trabalhadores. Embora a escravidão tenha sido oficialmente abolida no país há 125 anos, há muitas pessoas escravizadas ou semi-escravizadas no país, e não apenas nas longínquas zonas rurais. Só em São Paulo, o mais rico e desenvolvido Estado do país, 40 mil trabalhadores nessa condição foram resgatados na última década – tanto brasileiros como imigrantes ilegais oriundos de nações sul-americanas.
Vereador por dois mandatos na capital paulista, Bezerra foi para a Assembleia Legislativa de São Paulo em 2011. Relativamente curta, a carreira política tem se consolidado com ações a favor da saúde e dos direitos humanos, com uma boa avaliação de seus mandatos. Médico e pastor da Comunidade da Graça, em São Paulo, Bezerra sabe, no entanto, que a imagem do político, inclusive o evangélico, está desgastada no país. “Minha fé não é meu palanque; por isso, as diversas matérias que deram destaque à nova lei não entram nesse assunto”, diz. Dizendo que nunca se alinhou às chamadas bancadas evangélicas – “Esses grupos nunca se notabilizaram por suas boas práticas ou significativas contribuições para o país”, explica –,o deputado argumenta que falta à Igreja uma atuação cristã e política que seja profética e transformadora. “É por isso que a agenda gay acaba pautando a agenda evangélica no país.”
Vereador por dois mandatos na capital paulista, Bezerra foi para a Assembleia Legislativa de São Paulo em 2011. Relativamente curta, a carreira política tem se consolidado com ações a favor da saúde e dos direitos humanos, com uma boa avaliação de seus mandatos. Médico e pastor da Comunidade da Graça, em São Paulo, Bezerra sabe, no entanto, que a imagem do político, inclusive o evangélico, está desgastada no país. “Minha fé não é meu palanque; por isso, as diversas matérias que deram destaque à nova lei não entram nesse assunto”, diz. Dizendo que nunca se alinhou às chamadas bancadas evangélicas – “Esses grupos nunca se notabilizaram por suas boas práticas ou significativas contribuições para o país”, explica –,o deputado argumenta que falta à Igreja uma atuação cristã e política que seja profética e transformadora. “É por isso que a agenda gay acaba pautando a agenda evangélica no país.”
CRISTIANISMO HOJE – Cerca de 40 mil trabalhadores foram resgatados de condições de escravidão ou semi-escravidão nos últimos dez anos, só no Estado de São Paulo. Qual é o real tamanho do problema, em escala nacional?
CARLOS ALBERTO BEZERRA JR – O problema é gravíssimo. Trabalho escravo não é coisa do passado. Existe, acontece e está perto de cada um de nós. No mundo todo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja cerca de 27 milhões de escravos – e não apenas nas áreas rurais. Esse problema acontece também, e muito, nas zonas urbanas. No Estado de São Paulo, o trabalho escravo concentra-se especialmente nos setores da construção civil e da indústria têxtil. Hoje, a capital do Estado mais rico do país abriga mais de 10 mil oficinas de costura clandestinas, repletas de trabalhadores em condições de escravidão.
CARLOS ALBERTO BEZERRA JR – O problema é gravíssimo. Trabalho escravo não é coisa do passado. Existe, acontece e está perto de cada um de nós. No mundo todo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja cerca de 27 milhões de escravos – e não apenas nas áreas rurais. Esse problema acontece também, e muito, nas zonas urbanas. No Estado de São Paulo, o trabalho escravo concentra-se especialmente nos setores da construção civil e da indústria têxtil. Hoje, a capital do Estado mais rico do país abriga mais de 10 mil oficinas de costura clandestinas, repletas de trabalhadores em condições de escravidão.
Quando o senhor começou a se envolver com isso?
Comecei a lutar contra essa violência absurda na metade de 2011, quando estouraram as denúncias sobre escravidão na produção das roupas da grife Zara. Não tinha ideia de que aquele caso era uma gota num oceano de crimes dessa natureza. De lá pra cá, foram inúmeras batalhas, com novas denúncias contra grandes empresas e diversos novos casos de escravidão contemporânea. Passei a convocar os principais envolvidos em casos do tipo para dar explicações na Comissão Estadual de Direitos Humanos, da qual sou vice-presidente. Das longas sessões – das quais saíamos quase sempre mais revoltados do que havíamos entrado –, surgiu a ideia de criar um projeto de lei que invertesse a engrenagem que move o trabalho escravo de hoje. A lógica da proposta que nasceu dessa experiência é cortante: se o trabalho escravo não tem outro objetivo que não o lucro, então, para combatê-lo é preciso gerar prejuízo a quem o pratica.
Mexer com esses grupos não o assusta?