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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Silas Malafaia, Israel e o direito de matar




Por Hermes C. Fernandes, no seu blog

Acabei de assistir ao pronunciamento do pastor Silas Malafaia acerca do conflito "Israel e Palestinos" e coincidentemente tratei do mesmo assunto no culto de ontem em nossa igreja. Apesar do meu amigo Danilo Fernandes, editor do Genizah, concordar 100% com o líder da AVEC, gostaria de apresentar as razões que me fazem discordar de seu posicionamento.

Silas faz coro com boa parte dos líderes evangélicos brasileiros, que por sua vez, estão afinados com o diapazão ideológico americano. 

A primeira coisa que me chamou a atenção na defesa que Silas faz dos ataques de Israel à faixa de Gaza foi dizer que, numa guerra, nenhuma reação é proporcional à ação. Portanto, Israel teria razão em lançar mísseis em escolas palestinas matando crianças inocentes para vingar a morte de três adolescentes judeus mortos por militantes do Hamas. Ora, se Israel se mantivesse fiel aos princípios esboçados na Lei do Senhor, saberia que um dos seus mandamentos diz respeito à proporcionalidade de nossas reações (olho por olho, dente por dente). E mais: um discípulo de Jesus jamais defenderia qualquer reação, uma vez que seu Mestre ensinou a amar a seus inimigos e oferecer-lhes a outra face. Partindo do argumento usado por Silas, o ataque dos EUA a Nagazaki e Hiroshima em reação ao ataque japonês a Pearl Harbor foi totalmente justificável. Enquanto 2403 pessoas morreram na base americana de Pearl Harbor, 220 mil pessoas morreram nas duas cidades japonesas (quase cem vezes mais!). Quantas crianças palestinas terão que morrer para vingar a morte dos três adolescentes judeus?

Porém, o que mais me incomodou em seu discurso pró-Israel foi a interpretação teológica dada ao fato e à posição supostamente privilegiada de Israel. 

De fato, Deus fez uma promessa a Abraão de que toda aquela terra seria dada à sua descendência (Gn.13:14-15). Esta mesma promessa foi confirmada a Isaque e a Jacó (Gn.26:2-24; 28:12-14). Todavia, Deus estabeleceu condições para que seus descendentes tivessem o direito de posse da terra. Se não as cumprissem, a terra os vomitaria e eles seriam espalhados entre as nações (Lv.20:22; 26:14-15, 27-28, 32-33). Portanto, a Diáspora Judaica nada mais é do que o cumprimento das sanções impostas por Deus a Israel, se seu povo não guardasse os seus mandamentos. Ainda mais grave do que rejeitar a Lei do seu Deus, os judeus também rejeitaram o Messias prometido. Portanto, a aliança entre Deus e eles foi quebrada. 

Entretanto, há promessas bíblicas de que Israel retornaria à sua terra. E com base nessas promessas, surgiu o movimento sionista. Sionismo é um movimento político e filosófico que defende a existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel. O sionismo é também chamado de nacionalismo judaico e historicamente propõe a erradicação da Diáspora Judaica, com o retorno da totalidade dos judeus ao atual Estado de Israel.  O termo "sionismo" é derivado da palavra  “Sião”, nome de uma das colinas que cercam a chamada Terra Santa. Durante o reinado de Davi, Sião se tornou sinônimo de Jerusalém. Em inúmeras passagens bíblicas, os israelitas são chamados de "filhos (ou filhas) de Sião".

O que este movimento parece ignorar é que para que Israel retornasse à sua terra, algumas condições precisariam ser preenchidas. Dentre elas, a mais importante é a conversão dos judeus.
“Porque, em vos convertendo ao Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos, e tornarão a esta terra; porque o Senhor vosso Deus é misericordioso e compassivo, e não desviará de vós o seu rosto, se vos converterdes a ele.” 2 Crônicas 30:9
Portanto, o atual Estado de Israel, fruto de um arranjamento político da ONU, nada tem a ver com o cumprimento da promessa de Deus de que seu povo retornaria à sua terra. E a prova disso é que não houve conversão. E converter-se a Deus é acolher a única oferta de salvação possível: JESUS CRISTO. Por isso os apóstolos eram tão enfáticos ao testificar que "tanto a judeus como a gregos devem converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus" (At.20:21). À parte de Cristo, todo judeu está tão perdido quanto qualquer gentio. 

Paulo diz que eles eram os ramos naturais da oliveira (Abraão), mas devido à sua incredulidade e desobediência, foram quebrados e em seu lugar, nós, os que cremos dentre os gentios, fomos enxertados. Até que se convertam ao evangelho, eles são judeus apenas na carne, mas não na fé que teve seu patriarca. A igreja é, por assim dizer, a continuação do verdadeiro Israel. A árvore é a mesma, os ramos que foram substituídos. 

Ademais, a promessa de que os judeus retornariam à sua terra foi cumprida quando deixaram o cativeiro babilônico e voltaram para Jerusalém nos dias de Esdras e Neemias. Porém, por terem se mantido rebeldes, foram mais uma vez espalhados pelo mundo quando Jerusalém foi destruída pelo exército romano no ano 70 d.C. sob o comando de Tito.

A aliança feita com Abraão não caducou, mas foi devidamente cumprida em Jesus, seu Descendente (Gl.3:16). E os que são de Cristo são os verdadeiros descendentes de Abraão (Gl.3:29). De acordo com o próprio Jesus, o reino foi tirado dos judeus e entregue a outro povo, a saber, a Sua igreja, reunião de judeus e gentios que creem em Seu nome (Mt.21:43). 

E mesmo que Israel continuasse a ser o povo da aliança, conforme cre Silas, isso não lhe daria o direito de agir da maneira como tem agido, tirando a vida de milhares de civis inocentes. Deus não lhes deu o direito de matar. Nem a eles, nem ao Hamas, nem aos palestinos, nem aos EUA, nem a quem quer que seja. 

Ainda segundo o pastor Silas, quem se levanta contra a política Israelense corre o risco de ser amaldiçoado por Deus. Ora, ora... A bênção de Abraão a que ele se refere (abençoarei aos que te abençoarem e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem) está sobre seus verdadeiros descendentes, aqueles que seguem suas pegadas de fé, recebendo a oferta de salvação feita em Cristo Jesus. E por favor, não confundam isso com antissemitismo. Faço coro com Paulo que diz que seu desejo era que seus compatriotas fossem salvos. Amo os judeus. Como também amo os palestinos. Oro por Jerusalém. Como também oro por Gaza. E não é porque desejo prosperar, mas pelo simples fato de amar ao que Ele igualmente ama. Porém, este amor não me faz cego ante as arbitrariedades cometidas pelo Estado Israelense. 

Se Israel tem o direito de existir como Estado, os palestinos também tem o mesmo direito. Só haverá paz consistente e verdadeira quando houver justiça. E só haverá justiça quando houver amor. O salmista diz poética e profeticamente que a misericórdia e a verdade devem se encontrar e a justiça e a paz devem se beijar (Sl.85:10). Sem que isso aconteça, o máximo que teremos são tréguas momentaneas, seguidas de conflitos ainda mais severos. 

A questão é: quem será o cupido que promoverá este encontro? Em que cenário se dará o tal beijo? Será no jardim da Casa Branca? Ou quem sabe no pátio do Templo de Salomão... Não! A paz deve ser selada na ambiência do coração. E o cupido que deve promover o encontro não é algum presidente americano, mas ninguém menos que a igreja de Cristo. 

A igreja deve agir como agência reconciliadora entre os povos, e para tal, não pode posicionar-se ao lado de uns contra outros, como fez o meu colega Silas. Deus nos confiou o ministério da reconciliação (2 Co.5:18-19; Ef.2:14-16). Em vez de alimentar discórdias, devemos nos posicionar pela justiça, pela verdade e pela paz. 

Não ouso questionar a sinceridade de Silas, pois reconheço que seu discurso é eco do que tem sido ensinado à igreja desde o surgimento da teologia dispensacionalista. Porém, recuso-me a ficar calado, consentindo com os equívocos desta teologia. 

Que assim como Jesus, que caminhou por Jerusalém durante os dias em que Israel estava sob a tirania romana, preguemos o dever de se oferecer a outra face em vez de o direito de revidar ao ataque dos inimigos. 

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