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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Na dor do suicídio


Dói lembrar o dia em que João correu ao meu lado. Ele tinha 25 anos de idade e era magro. Como João corria leve e sem esforço, mantinha o ritmo com fôlego para conversar. Súbito, meu companheiro confessou: - Estou deprimido. Perguntei se ele identificava alguma raiz para a tristeza. – Medo de fracassar - retrucou entre um passo e outro.
Gastei o restante do percurso procurando tranquilizá-lo. – João, descanse. Deus nos ama sem cobrar desempenho. Mesmo quando não alcançamos êxito, continuamos queridos. Acrescentei ainda: -Deus, ao contrário das pessoas, não desiste dos malsucedidos.
Duas semanas depois, a notícia me devastou: João cometeu suicídio. Sempre que alguém tira a própria vida, as ondas que o desespero produz arrastam muitos com ela. Toda a morte agride, mas aquela me abateu sobremaneira. Eu amava aquele rapaz. Meus conselhos e orações não ajudaram. Terapia e carinho de outras pessoas também foram inúteis. Nada reverteu o desânimo de um jovem apavorado com o porvir. Assim, João se puniu com um castigo irreversível. E, junto, maltratou família e amigos.
João receava o futuro. Por mais que se esforçasse, não conseguia reverter o pavor de enfrentar os possíveis fracassos que viriam em sua vida.
Angústia e depressão fazem parte da existência. Vários personagens da história – secular e bíblica – tentaram fugir da existência em cavernas escuras – caverna como metáfora do exílio que impomos a nós mesmos em tempo de melancolia. Abatidos, preferimos a solidão ao desgaste de enfrentar a crueza da vida. Desesperança solapa a última força que alimenta a resiliência. A apatia do angustiado rouba o sono e, à noite, fortalece um pessimismo vicioso. Depois que acorda, a depressão sugere a morte como saída.
No trágico suicídio do João, aprendi: as pessoas perdem a fobia de morrer quando a precariedade de viver os aterroriza. Para evitar uma vida sem sentido, optam pelo vazio. A noção de se arrastar no dia a dia, sem perspectiva, leva ao desejo de não mais existir.
Milan Kundera afirmou: Todo mundo tem dificuldade de aceitar o fato de que desaparecerá, desconhecido e despercebido, num universo indiferente. A frase, entretanto, só se aplica enquanto sobra ânimo para criar um amanhã diferente. Se o universo parece indiferente e, junto, a existência perde a razão de ser, a fúria da morte deixa de ameaçar.
Me contaram-me, meses depois, que João atravessou a infância sob o imperativo de agradar o pai. Por mais que se esforçasse, ele nunca achou que conseguiria. Sempre que jogava futebol, olhava para a arquibancada; queria ganhar um sorriso de aprovação – que jamais se esboçou. No dia em que se formou em engenharia, João não celebrou. Sem ser o melhor aluno, ele não via porquê na alegria. Assim, ao projetar a vida futura, o jovem engenheiro olhava em retrospectiva, hipertrofiava os erros e se deprimia, imaginando novos fracassos.
João cresceu em uma igreja rígida, conservadora. Em seu mundo, as exigências de um Deus, igualmente, difícil de ser agradado eram ressaltadas. Ele participava de um segmento em que oSenhor é rigoroso. Alguns se espantam quando Gilberto Gil canta: Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que aceitar a dor/ Tenho que comer o pão/ Que o diabo amassou/ Tenho que virar um cão/ Tenho que lamber o chão. Contudo, a fé popular confirma o conteúdo da música. Daí se multiplicarem igrejas que não deixam ninguém esquecer as dívidas incalculáveis para com uma divindade implacável na defesa da sua própria honra, da lei e dos seus caprichos.
As culpa se avolumam nessa religiosidade. Sobram imperativos, oprimindo como um fardo. Como somos inadequados, atribuem os revezes da vida à incapacidade humana de cumprir os detalhes da vontade de Deus. Pecado resulta em contratempo. Eventuais erros abrem brecha por onde o diabo entra. Multidões, ávidas por aprenderem agradar uma divindade meticulosa, lotam as igrejas. Não cabem afetos ou celebração no culto, apenas ajuste contábil. A liturgia se resume a conseguir afastar o mal e alcançar bênção. Se alguém quer conquistar o amor de Deus deve fazer sacrifício, passar por ritos punitivos e, lógico, ofertar dinheiro.
Esse tipo de religião, todavia, é desnecessária. O desgaste de viver já pesa o suficiente. As pessoas carecem da mensagem libertadora da graça: Deus não desiste de amar, mesmo quando seus filhos não merecerem. O amor de Deus é leal. Nada diminui o compromisso da Mãe-Divina (Deus também é mãe) de oferecer o melhor de si para que seus filhos cresçam.
Na parábola do pródigo, o pai disse ao filho mais velho: Tudo o que tenho é seu. Essa frase merece melhor atenção dos crentes. Ela contém um compromisso: somos co-herdeiros de uma herança eterna. Deus jamais estimaria seus filhos pela capacidade de cumprir mandamento ou de alcançar níveis excelentes de santidade. Deus ama de graça.
Chorei a morte do João. Solidifiquei, porém, uma percepção do amor. O bem de Deus nunca vem atrelado a desempenho. Deus é amigo que jamais abandona o outro em seu malogro.
Ninguém precisa ter pânico de fracassar. Não é necessário fazer jus ao amor de Deus. Qualquer um pode se sentir convidado ao banquete divino – o João, o falido, o pecador, o ateu, o cristão, o muçulmano, o budista. A mesa do pão e do vinho tem espaço para errar, voltar a sonhar, brincar tropeçar e levantar – tudo sem condenação. Ponto final.
Soli Deo Gloria

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