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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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terça-feira, 3 de junho de 2014

Entre lamento e júbilo


Cedo aprendi: a vida não acontece debaixo de uma blindagem. Logo intui que minha senda seria difícil, íngreme, esburacada. Ainda na adolescência, perdi uma irmã caçula. Ela só viveu dois dias. Pouco depois desse trauma, passei pelo constrangimento de estar na sala do tribunal militar que julgou – e absolveu – meu pai. Eu sempre soube que viver é aventura perigosa, e delicada.
Para muitos, morte e doença tardam chegar. Por falta de experiência, a maioria não sabe lidar com grandes dramas. Pouquíssimos se preparam para o dia mau, que Paulo se referiu na epístola aos Efésios.
Decididamente, eu jamais me converteria à neurolinguística. Reconheço, parece mais cômodo esperar que frases prontas e pensamentos positivos alterem a realidade. Há sempre a fantasia de que a fortuna nos surpreenda – talvez ela esteja de tocaia em alguma esquina. Quem ainda não fantasiou achar a lâmpada de Aladim? As religiões se entopem de fieis no aguardo da grande bênção - aquela que resolve todos os problemas. Não alimento a alma de ilusões. Não acredito numa maldade pontual. Ela se espalha em sistemas –  o mal se entranha em igrejas, clubes, famílias, governos, escolas.
Nunca reclamei da sorte por reconhecer que outros sofreram muito mais do que eu. Não me indispus com Deus. Preferi não organizar a vida imaginando que uma divindade aplainaria minha jornada feito um mar de almirante. Sei que nossa navegação se dá em meio a pororocas. Insisto na frase: viver não é para amadores.
Ninguém se iluda: a existência pode ser cruel. Perceber que não estamos imunes, dói como uma alfinetada e traz um sofrimento que parece não caber no peito. Vez por outra me flagro gritando igual a mamãe quando se sentia angustiada: Deus, dá-me coragem de viver, já que de morrer não tenho. Seu desabafo reflete um dos ganhos que a idade traz, ficamos menos iludidos com os hologramas projetados desde a juventude.
A proximidade da morte ilumina a vida. Aqueles que contemplam a morte nos olhos veem melhor, porque ela tem o poder de apagar do cenário tudo aquilo que não é essencial. Os olhos dos vivos tocados pela morte são puros. Eles veem aquilo que o amor tornou eterno. [Rubem Alves]
Sem pender para os extremos do otimismo e do pessimismo, encaro a realidade crua com certo estoicismo. Antecipo a dor da velhice, prevejo a perpetuidade cínica dos políticos e protesto contra a decadência comercial da religião. Sentimentos que jamais produziram em mim sensação de vazio; Viktor Frankl os responsabilizou por vácuos existenciais. Não tenho pressa de morrer. Des-engesso, portanto, a minha história da expectativa lúgubre dos eventos ruins. Recuso o pessimismo mórbido. Sei que nem tudo caminha inexoravelmente para uma tragédia.
Celebro alegrias mínimas. Gosto de dormir cansado e sonhar voando. Não há como descrever a alegria de acordar tarde em feriado. Celebro correr na chuva, comer chocolate, comprar quebra-queixo em feira livre, contar a história de Davi e Golias para os netos, derramar lágrimas pelo atleta que canta o hino nacional no pódio de campeão.
Há momentos em que me proponho o dever de assumir as rédeas da história, em outros, sou cético. Nessa constante oscilação entre os extremos da alegria e da tristeza, danço, sofro, leio poesia, oro com angústia e teimo em pregar sobre a esperança. Não fujo do amontoado de contradições que povoa minha alma. Sou crise ambulante. Só não desisto de seguir adiante entre lamento e júbilo.
Soli Deo Gloria

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