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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Minha vida não é um livro clichê




por Isabela Barbosa*
Há mais ou menos uma semana, eu e minha mãe acabávamos de chegar a Belém. O primeiro lugar que visitamos, foi o Shopping Pátio Belém. Logo ao entrar, fomos a uma das lojas de destaque do shopping, que ocupava quase o piso todo. E de que era o primeiro setor? Adivinhem? Livros. Uma paixão que tenho desde que me aventurei pelo mundo das letras. A loja continha várias e várias estantes lotadas de diferentes títulos, capas e autores. Um verdadeiro céu para aqueles que apreciam as obras literárias dos mais variados tipos.
Minha mãe não hesitou e logo andou até aqueles volumes enormes que tratam de todos os tipos de leis e dizem respeito à sua profissão, a de advogada. Eu, varrendo a livraria com os olhos, a acompanhei.
Entendendo dos temas dos livros que via, mamãe começou a folheá-los. De um por um. TRT, TRJ, STJ… tanto faz. Minha cabeça estava distante dali, mais interessada no que tocava em meus fones de ouvido.
Então mamãe me cutucou. Eu olhei. Ela estava apontando para algumas estantes do outro lado da loja. Não precisei nem perguntar o motivo, a placa que trazia consigo “LIVROS INFANTO-JUVENIL” já era autoexplicativa.
Eu andei até lá, e à medida que me aproximava dos tantos livros da tal categoria, via os nomes dos ‘milhares’ de autores daqueles livros. Milhares, lê-se: dois. Ou melhor, duas. Duas autoras.
Os únicos nomes que se podiam enxergar eram: Meg Cabot e Thalita Rebouças.
Vergonha. Ah, o amargo gosto da vergonha. Foi exatamente isso que eu senti ao ver dois nomes tão ridiculamente mesquinhos representando toda uma faixa etária.

A começar pela Meg. Escritora “queridinha” dos adolescentes de todo o mundo. E o que ela faz? Escreve livros sobre adolescentes clichês. Vivendo situações clichês. Com finais mais clichês ainda. Eu me pergunto quase o tempo inteiro o que minhas amigas, as irmãs das minhas amigas, as irmãs dos meus amigos, as minhas primas e a maioria das adolescentes de todo o planeta veem nos livros de Meg.
Seu próximo lançamento? Seu último livro? Sua primeira obra? Deixe-me adivinhar; é sobre uma garota insegura, que se sente excluída pelos outros na escola, que se apaixona pelo garoto mais desejado da área, que misteriosamente se apaixona por ela de volta e abandona a líder de torcida no fim do livro. Ou talvez a garota detesta um dos rapazes com quem convive e no final do livro descobre que eles são mais parecidos do que parece. Ou até mesmo um melhor amigo que nunca disse à tal garota que a ama e quando conta, adivinhem; ela o ama também. Que coisa meiga. E clichê. Principalmente clichê.
Ah, meus caros, se tem algo que me irrita mais do casal que fica de “lengalenga” em rede social, o nome disso é “livro clichê”. Ou livros de Meg Cabot/Thalita Rebouças. Tanto faz, dá no mesmo.
Se possuo todo esse desprezo pelas obras da tal Meg, não seria diferente com sua versão brasileira, Thalita Rebouças. Ou quem sabe, seja pior.
Thalita… Ah, Thalita… Os livros sempre falando de jovens, geralmente com menos de 17 anos, que têm alguma página em rede social, que são inseguras quanto à sua vida amorosa e sua aparência, que têm uma “vida” sem o conhecimento dos pais, que gostam de tudo o que está em alta em quase todos os quesitos e passam por uma situação dramática.
Oh, mas que drama desnecessário! Por favor, quando vão botar na cabeça que vida de adolescente não é “sofrimento”? Vida de adolescente, não é sofrer por amor, não é conversar com pedófilos na internet, não é mal sair das fraldas e já estar namorando, não é gostar de uma banda só porque tem garotos bonitos, não é odiar seus pais e querer desobedecer qualquer ordem deles, não é só ter amigos que usam drogas, não é tirar notas baixas na escola, não é se sentir mal quanto às “mudanças do corpo” (me poupem, isso é natural, pra quê fazer tantos rodeios?), não é pensar só em roupas, sapatos e garotos, não é querer morrer por causa de uma espinha, não é querer sair por aí bebendo ou fazendo festas quando os pais saem.
Isso é o que querem que você pense. O que a mídia bota na sua cabeça. Maldita mídia! Que além de fazer as pessoas terem essa impressão errada sobre a maioria dos adolescentes, ainda dão tanto renome a autores que escrevem livros tão vazios e óbvios.
Aliás, agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, minha avó está assistindo a novela Avenida Brasil (‘-‘) e acaba de passar um comercial de Malhação em que a menina se vê com uma espinha minúscula na bochecha e grita horrores com o seguinte anúncio: “Malhação. Intensa como a vida”. Serão eles, os produtores desse seriado falido e infinito, os próximos a se aventurarem pelo mundo “clichê”? Vida intensa? Quer dizer que agora, por que eu tenho uma espinha, minha vida é intensa? Mas que idiotice! Pelo amor de Deus, quantos anos essas pessoas têm? Não anos cronológicos, mas sim anos de “maturidade”.
Idade é um número. Maturidade é uma escolha. E, ao menos na minha opinião, a maturidade da maioria das jovens de hoje, decaiu tanto, que chegou a se tornar padrão.
Desculpem a expressão, mas merda de maioria dos jovens que faz o mundo nos enxergar assim! Nos enxergar rotulados pelos livros de Meg Cabot e Thalita Rebouças.
Por que é tão difícil escrever sobre uma garota que “existe”? Uma que tem por companhia seus amigos e não um namorado eterno, eterno por dois ou três meses? Por que não escrever sobre uma garota que tem religião, ao invés de acreditar em “sortes” ou “horóscopos”? Por que não escrever sobre uma garota que tem sim um melhor amigo, na verdade, um irmão, e não é apaixonada por ele? Por que não escrever sobre uma garota que tem uma irmã legal, só pra variar? Ou uma garota que come de tudo e não está sempre de dieta? Por que não fazer assim para que possamos nos enxergar, nos ver em livros, e, assim, nos sentirmos bem? Sei que não é a intenção delas escrever livros sobre uma realidade clichê e sem graça, por isso não julgo Meg e nem Thalita, mas sim o que cada uma escreve.
Ao contrário do que os livros delas dizem, a maioria dos jovens não é assim. Mas mesmo se for, deixe a maioria ser típica e clichê. Albert Einstein não falava direito até os 9 anos de idade, e era diferente de todos da sua idade. Mas ele tinha com certeza mais maturidade que todos ali, o que lhe possibilitou crescer. Mas e daqueles que falavam direito e estudavam com ele? Quem foi lembrado? Os clichês iguais aos outros ou o menino que era diferente?
Por que não escrever algo diferente? Por que não ousar? Onde foram parar os livros como os de JK Rowling, que nos faziam viajar desse mundo? Ou os autores como C.S. Lewis, Marcus Zusak, cadê?
Se querem fazer livros que falam sobre a realidade, ótimo, façam! Mas a realidade não é óbvia como esses livros, ela é imprevisível e dinâmica. E assim deveria ser mostrada a vida de todos nós nos livros.
Fazer-nos sair desse mundo, viajar por novos lugares sem sair do sofá é uma arte. E cada artista que consegue fazer esse tipo de arte usando as palavras, merece ser chamado de “escritor”.
“Eles riem de mim porque eu sou diferente.Eu rio deles porque são todos iguais.” (Bob Marley)

* Isabela Barbosa tem 13 anos e é filha de José Barbosa Junior, editor do site Crer e Pensar. Texto capturado .

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