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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vale a pena?


por Antonio Prata*, na Folha de São Paulo
foto: Internet
Vendo esses atletas ganharem medalhas, quebrarem recordes, suarem a camisa e botarem os bofes pra fora na terra, na água e no ar, oscilo entre a admiração e a pena.

Admiração pelo talento, e, principalmente, pela força de vontade. Ó o Phelps: o cara tá nadando desde os sete anos de idade, tá há 12 competindo em Olimpíadas, querendo se tornar o maior medalhista de todos os tempos e então, pronto, tornou-se. Bonito. Mas essa mesma força de vontade, tão desproporcional quanto as coxas do Robert Förstemann --aquele ciclista alemão que parece primo do He-Man-- me dá certa pena.

Coitados desses caras! O Thiago Pereira disse que chega a vomitar após alguns treinos. Cesar Cielo falou que sai das provas quase desmaiando. Esse pessoal tá se preparando desde criancinha, atravessou a adolescência focado, deixou de namorar, de viajar com os amigos, de passar mal depois de beber Campari com Fanta Uva, enfim, deixou de fazer todas as besteiras fundamentais da juventude para conseguir encostar numa parede 0,2 s antes, pular 1 cm mais alto, levantar 1 kg a mais. Valerá a pena tanta dedicação?

Veja, não é a inutilidade dos feitos que me incomoda. Pelo contrário. Acho que, num mundo sem Deus e sem sentido, é uma postura nobilíssima dedicar a vida a um jogo. Que bela vingança contra a morte, que elegante desdém diante do vazio é especializar-se em meter uma bola entre três traves, em rebater uma peteca por cima da rede, em dar piruetas e depois cair numa piscina. Mas só vale se for possível extrair dessas atividades algum prazer --e, com o nível de exigência que o esporte alcançou, acho difícil que os atletas estejam se divertindo.

Quando Phelps chegou em quarto, na sexta-feira passada, muitos se perguntaram se ele teria realmente treinado menos do que o necessário e se, depois de duas Olimpíadas de glória, Londres seria um fiasco. Secretamente, torci por isso. Não porque queira mal ao nadador, mas porque achei que veríamos então, finalmente, no meio de tantos super-heróis, um espetáculo humano, demasiado humano: um homem que tinha tudo para ser o maior de todos os tempos e deixou a chance escapar --por preguiça, por tédio, por irresponsabilidade ou qualquer outra fraqueza comum a todos nós. Esse fracasso seria uma lição bonita, mais bonita que suas vitórias.

O slogan de Londres 2012 é "Inspire a generation": Inspirar uma geração. Inspirar para quê? Para que essa geração aprenda a abrir mão de tudo e aguente toda a dor necessária em nome de um objetivo? É uma postura boa para construir campeões e malucos. Daí saem medalhistas, soldados e fiéis. É pra isso que serve o esporte? É isso o que queremos da vida?


* Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles "Meio Intelectual, Meio de Esquerda" (editora 34). Escreve às quartas na versão impressa de "Cotidiano".
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Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio.
Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre.

[Paulo, em 1 Coríntios 9.24,25]

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