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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

No limite entre fé e obsessão, Noé ousa e vai além do “filme bíblico”






Roberto Sadovski, no UOL Entretenimento

Em um dos grandes momentos do novo filme de Darren Aronofsky, Noé (Russell Crowe) conta para seus filhos a mesma história que ouviu de seu pai, que por sua vez ouviu de seu avô, sucessivamente até chegar no primeiro homem, Adão: a história da criação. O que se segue é uma sequência belíssima e assustadora, em que os sete dias da criação do mundo são narrados com a base do texto do Velho Testamento, integrado ao Big Bang que deu origem ao universo e à Teoria da Evolução de Darwin. Os “dias” divinos podem ser eras, encapsuladas no trabalho do Criador (e nunca Deus) em erguer um novo mundo, em fazer do nada, vida. Noé não é um “filme bíblico” na definição clássica do termo. Mas é um épico de fé e obsessão que coloca o profeta na posição de zelador, carcereiro e ativista, que atende a um chamado, entende sua função na Terra e não vai deixar que nada fique entre ele e a tarefa a qual foi designado.

O modo de cumprir essa tarefa é o que há de mais fascinante no filme de Aronofsky. O diretor já havia flertado com a fagulha da criação no subestimado Fonte da Vida(não viu? veja!), mas para fazer Noé ele teve acesso a uma caixa de brinquedos mais elaborada. A ideia de interpretar e adaptar a passagem da Bíblia sobre o dilúvio, a arca e o que aconteceu depois (uma passagem pequena, por sinal) assolava a mente de Aronofsky desde que ele tinha 13 anos, quando escreveu um poema sobre o tema, posteriormente sendo premiado pelo texto. Religião, embora seja a matéria prima da história, não é a mola que impulsiona o projeto: é o fascínio em materializar um conto presente em escrituras de todas as religiões, uma metáfora para o fim de tudo e seu renascimento. Embora, como acredita o próprio Russell Crowe (em grande atuação), as evidências físicas e geológicas em todo o planeta corroboram que, um dia, fomos cobertos por água.

Os filhos de Noé, Jafé e Sem, observam na frente da arca ao lado de sua mãe,
Naameh, e de Ila.

Arca que, no filme, surge como uma caixa, não um barco: sua função era simplesmente proteger, e não navegar. Sua construção, uma visão surgida depois de um encontro com seu avô, Matusalém (Anthony Hopkins), é tarefa de Noé e sua família – a mulher Naameh (Jennifer Connely) e os filhos, Sem (Douglas Booth) e Cam (Logan Lerman), além do caçula Jafé (Leo McHugh Carroll). Fora dos textos bíblicos surge Ila (Emma Watson), adotada pela família ao ser encontrada em um acampamento em reínas quando bebê, com uma lesão que a deixou estéril. Ila se envolve romanticamente com Sem, deixando em Cam a esperança de que, quando chegar a hora, seu pai também permitirá que ele encontre uma esposa. Mas a obsessão de Noé em interpretar a tarefa lhe apontada pelo Criador (suas visões vem em sonhos, também uma maneira esperta em mostrar essa comunicação divina) o coloca como zelador dos inocentes – ou seja, os animais aglomerados e colocados em hibernação na arca –, que seriam os únicos herdeiros da Terra depois de tomada pelas águas.

E os homens, os herdeiros de Caim, se colocam como motivo para o Criador recomeçar a vida do zero. Liderados por Tubal-caim (Ray Winstone), as cidades erguidas pelo homem são como parasitas, exaurindo recursos naturais em cada assentamento, partindo para o próximo deixando destruição em seu rastro. Nas cidades, violência, sexo, maldade mostram que a hora da humanidade talvez tenha chegado ao fim. É o medo de carregar a semente do mal que impele Noé a cumprir sua tarefa com tamanho afinco, e um milagre abençoado em sua família ao fim do segundo ato não traz esperança, e sim mais dor. Na visão de Aronofsky, Noé tem um pouco de profeta e um pouco de louco, o que não o torna um herói, o “salvador da humanidade”, e sim alguém que tem a honra dúbia de fechar a lojinha quando chegar o fim.

Noé encontra seu avô, Matusalém, antes de suas visões do fim do mundo

Visualmente, Noé é espetacular. Para interpretar uma história tão complexa com imagens, Aronofsky vai da simplicidade (a terra que molha os pés de Noé em sua visão parece sangue) ao épico (o dilúvio, como esperado, é grandioso e assustador) – uma clara evolução no apuro do cineasta que, desde sua estréia com π, em 1998, até o sucesso global com Cisne Negro (que deu o Oscar de melhor atriz a Natalie Portman em 2011), casou uma forte narrativa visual com temas difíceis, como perda de identidade, a fusão de ciência e fé e a obsessão em ultrapassar os próprios limites. Essa paleta estética ganha em Noé um componente visual que só soma à polêmica. Para auxiliar na tarefa de erguer a arca, o profeta tem o auxílio dos Guardiões, gigantes de pedra que, na verdade, são anjos caídos, cuja luz foi aprisionada nas entranhas da Terra – tupo porque ousaram ajudar o homem em sua jornada, desviando-se dos desígnios do Criador quando o fruto proibido pôs fim à harmonia no paraíso.

Darren Aronofsky teve cuidado em seu roteiro (escrito com Ari Handel) para ser respeitoso com qualquer crença. Ainda assim, o texto bíblico, apesar de importante e inspirador e até obsessivo para muitos que o seguem literalmente, é apenas mais um livro. Como tal, é passível de adaptação, de adequação narrativa, de receber o input do diretor – que, afinal, é quem tem a visão criativa para materializar uma história. Seja na personalidade do protagonista, seja nos personagens adicionados à trama, ou nas passagens alteradas para a fluidez narrativa, Noé é um trabalho impecável, ainda que de difícil empatia. Em nenhum momento é um filme a ser abraçado, não existe o golpe emocional presente, por exemplo, em Réquiem Para Um Sonho ou O Lutador. Algumas passagens, principalmente as mais dramáticas, que iluminam o principal dilema de Noé em relação à sua família e à sua tarefa, são conduzidas com mão pesada – e perdem seu impacto emocional. Mas são pequenos pecados em um filme que decididamente coloca a cabeça para funcionar e abre espaço para questionamento e para reflexão – tudo embalado no melhor espetáculo que o cinema hollywoodiano pode comprar. Este é seu maior triunfo.

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