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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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terça-feira, 29 de abril de 2014

Protagonismos (ou: Cada macaco no seu galho)

publicado em a estrada amarala
Domingo, 27 de abril de 2014. Na TV um programa de boa audiência fazia uma homenagem a um de seus dançarinos, assassinado pela PMRJ. Não quero aqui entrar na questão do que foi ou não dito pelas pessoas que lá estavam, se foi bom ou não. Isso é um outro assunto. Eu quero falar aqui sobre protagonismo.
Douglas, o dançarino assassinado, era preto e favelado. E morreu por causa disso. Os pretos favelados desse país morrem por serem pretos e favelados. Não interessa muito como eles levam as suas vidas, ser preto e favelado aqui é motivo suficiente pra alguém ter o direito (ou o dever quase cívico, segundo muitos) de meter-lhe uma azeitona na testa. Somos um país racista e classista, e acho que sobre isso não há muito o que se discutir. As estatísticas dão conta de encerrar qualquer argumento contra esta afirmação.
Depois da morte do Douglas, que morreu como tantos iguais a ele morrem todos os dias, um outro preto e favelado, Rene Silva, do Voz da Comunidade, ativista atuante na rede, postou uma foto segurando um cartaz escrito “eu não mereço morrer assassinado”, seguindo o mote da campanha feminista em que dizíamos: “eu não mereço ser estuprada”.
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Até aí tá tudo certo, tudo no seu devido lugar. Rene é negro, mora no Complexo do Alemão, e ainda é ativista. Quais são as chances que ele tem de ter o mesmo fim do Douglas? Muitas! Ele, e todos como ele, têm total direito de segurar esse cartaz, porque esse cartaz diz o seguinte, nas entrelinhas: as chances reais de eu ser assassinado são enormes, e eu não mereço isso.
Vamos ao segundo ponto: no programa de TV de hoje, tinha gente pra dedéu. Foi bonito ver um programa inteirinho homenageando um pretinho funkeiro favelado. Em quase 37 anos de vida eu nunca vi isso. Eles, os invisíveis, estavam lá, sendo protagonistas na TV, em rede nacional. Coisa linda! A única coisa que ralmente me incomodou muito foi quando todos os presentes, incluindo brancos ricos, ergueram um cartaz igual ao do Rene. Não, gente! Tá errado. A Carolina Dieckmann corre risco quase nulo de ser assassinada nos mesmos termos. Na verdade, eu me arrisco a dizer que não há possibilidade disso acontecer. Como eu também não corro esse risco. Porque diabos eu levantaria um cartaz dizendo que “eu não mereço morrer assassinada” se, em comparação aos douglas todos, as minhas chances são pífias? O protagonismo não é meu. Eu posso tomar essa causa para mim também, mas eu nunca vou poder ser protagonista dela. Nunca! E eu não tenho sequer o direito de tentar. Eu posso fazer o meu protesto junto com eles, mas sem o EU. Não é sobre mim, embora me doa; mas por mais que me doa, nunca vai doer igual como dói neles. Não é e nunca será sobre mim!
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Neste mesmo domingo, Daniel Alves, jogador brasileiro que atua na Espanha, protagonizou mais um episódio escrotíssimo de racismo. Estava pronto para bater um escanteio quando jogaram bananas nele. Daniel foi fodástico. Pegou a banana, comeu, e bateu o escanteio em seguida. Foi do caralho! Foi tipo um: “eu vi, eu entendi e fodam-se vocês racistas de merda!”. Eu achei a coisa mais sensacional do mundo o que ele fez! Do caralho!
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Os episódios de racismo no futebol têm se multiplicado ultimamente, a coisa saiu completamente do controle e precisa mesmo ser combatida, com toda e qualquer ação possível.
Não sei como começou o que veio depois, mas a primeira foto que eu vi foi do Neymar. Ele e seu filho numa foto, com bananas, seguida da hashtag #somostodosmacacos. Houve quem criticasse o Neymar por isso ou por aquilo, houve quem dissesse que ele só estava fazendo marketing (como se ele precisasse), que no passado ele tirou o corpo fora quando sofreu racismo também (daí a galera esquece que o moleque é uma criança ainda, que só tem vinte e poucos anos e fica cobrando dele uma maturidade que não cabe). Mas o que interessa é que o Neymar pode pegar o protagonismo dessa causa pra si. Eu não tenho nenhum direito de criticá-lo por isso. Não vou eu aqui, branca, querer dizer a um não branco como ele deve lutar, ou se deve, pelo racismo que ele sofre, provocado por gente branca como eu. Eu posso até não concordar (muito embora nem em pensamento eu me dê esse direito), mas quieta, no meu canto, sem atrapalhar, sem querer ditar regras de como ele, que sofre racismo, deveria lutar contra isso, ou – pior! – se ele deveria ou não fazer isso. Eu nunca fui chamada de macaca. Eu nunca vou ser chamada de macaca. Eu não tenho como avaliar como é ser chamada de macaca. Então me cabe apenas me solidarizar e lutar contra o racismo, que eu – mesmo sendo branca – repudio. Mas de outra maneira que não dizer ao coleguinha como ele deve lutar contra mim! (Sim, contra mim! Eu, pessoalmente ou conscientemente, posso não oprimir, mas eu sou parte da parte opressora!)

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Eis que surge, então, a grande pérola do dia. Um casal rico, famoso, branco pra dedéu, fazendo o quê, meuzamigos? Querendo ser protagonistas dessa luta! Valhamedeus, socorro! Naonde que Angélica e Luciano podem usar uma a tal hashtag supracitada? Me digam, em que planeta alguém chamaria essas duas criaturas de macacos?
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Tá muito errado isso aí! Muitos de nós, brancos, queremos ajudar na luta contra o racismo? Sim, queremos! Façamos isso, sempre, incessantemente, só sem querer ocupar o lugar dos negros nessa luta. Os protagonistas são eles. São eles que sofrem, são neles que jogam bananas. Não tenhamos a pachorra de levantar cartazes dizendo que não merecemos morrer assassinados, quando são eles que morrem. Não gritemos que somos todos macacos, porque são eles que são chamados assim. Por favor, vamos tirar os nossos umbigos do caminho e deixar quem sofre com isso passar com a sua dor e a sua cor.
A gente pode gritar sim, a gente pode fazer muito, mas a gente precisa entender que há momentos em que nós devemos ser coadjuvantes. Na luta contra as desigualdades, contra a opressão, todos são bem vindos, tem função pra todo mundo, mas é preciso que se saiba o seu devido lugar.

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