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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A humildade de Deus


humildade
Ed René Kivitz
Ontem contei a história de José do Egito. As palavras de José, “vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus transformou o mal em bem”, implicam a necessária reflexão a respeito da soberania de Deus e a responsabilidade moral humana.
Ao final da celebração, recebi uma jovem que com lágrimas nos olhos me interpelou: “Então não é verdade, pastor, que por trás das coisas ruins que me aconteceram havia um propósito de Deus? Não foi Deus quem fez com que acontecessem? Não foi Deus quem me enviou o mal para me ensinar alguma coisa ou me guiar na direção certa? Foi isso o que me ensinaram a vida toda”. Abracei aquela moça e orei para que uma outra compreensão espiritual ganhasse seu coração e outro rosto de Deus, o Pai amoroso, lhe trouxesse paz e esperança.
Há pelo menos duas maneiras de compreender a soberania de Deus. Alguns acreditam que Deus é soberano porque controla todos e cada um dos detalhes de tudo o que acontece. Mesmo as coisas ruins que acontecem porque se encaixam num plano perfeito de Deus, que tem um propósito para que elas aconteçam.
Foi por causa dessa compreensão que ouvi certa vez uma senhora piedosa tentando me confortar pela perda do meu pai, falecido aos 26 anos de idade, deixando minha mãe com duas crianças no colo, eu com pouco mais de dois anos, e minha irmã, com apenas 6 meses. Após ouvir um dos meus sermões, aquela senhora me disse: “Agora entendo porque Deus levou seu pai. Ele queria fazer de você o homem que você se tornou”.
Passados muitos anos desse episódio, consegui elaborar o que diria àquela senhora. Primeiro, que Deus não precisava matar meu pai para me fazer um homem de bem. Segundo, que não estou com essa bola toda, para que Deus saia por aí matando pessoas por minha causa. Terceiro, que não há necessidade de que ninguém sacrifique sua vida por mim ou qualquer outro ser humano, pois a morte de Jesus Cristo foi suficiente e definitiva. Qualquer outra morte necessária para que um propósito de Deus se cumpra transforma o morto em co-redentor. Mas é muito difícil enfiar teologia numa conversa pastoral, isso é arte que poucos dominam.
Essa compreensão da soberania de Deus, que o faz responsável por todos e cada um dos detalhes de tudo o que acontece, também está presente nas afirmações de Rick Warren, em seu livro Uma vida com propósitos. Diz o pastor Warren que “Deus determinou cada pequeno detalhe do seu corpo. Ele deliberadamente escolheu sua raça, a cor de sua pele, seu cabelo e todas as outras características. Ele fez seu corpo sob medida, exatamente do jeito que queria (…) ele também decidiu o momento de seu nascimento e seu tempo de vida (…) escolhendo o momento exato de seu nascimento e de sua morte (…) Deus também programou onde você nasceria e onde viveria para o propósito dele”. Finalmente, afirma que “o propósito de Deus levou em conta o erro humano e até mesmo o pecado”.
Para entender o que significa “Deus levou em conta o erro humano e até mesmo o pecado”, podemos acessar as afirmações de Mark R. Talbot, no artigo “Liberdade verdadeira”, publicado em Teísmo aberto: uma teologia além dos limites bíblicos, organizado por John Piper.
Diz Talbot: “O que significa dizer que Deus ordena alguma coisa? Significa que ele desejou eternamente que aquilo se realizasse (…) Vistas no seu todo, as Escrituras realmente asseveram, presumem ou implicam que Deus ordena todas as coisas, incluindo o mal natural e o mal moral (…) O ensinamento bíblico é que Deus ordenou, desejou ou planejou todas as coisas que acontecem em nosso mundo desde antes da Criação. Deus é o agente primário – a causa primária, a última explicação – de tudo o que acontece”.
Agora você vai cair da cadeira. Talbot prossegue dizendo: “Não nego nem por um momento quão difícil pode ser evitar responsabilizar Deus pelos males do mundo simplesmente porque ele ordena todas as coisas. De que maneira um Deus bondoso poderia ordenar o Holocausto? Como ele pode ordenar o abuso sexual até mesmo de uma única criança? Como ele poderia ordenar a morte lenta e dolorosa de alguém que amo? Contudo, como acontece com todas as outras doutrinas cristãs, o teste da verdade dessa doutrina não é que a consideremos plausível ou atraente, mas que a encontremos nas Escrituras”.
Pessoalmente, não apenas considero essa doutrina nada atraente e nada plausível, como também e principalmente não a encontro nas Escrituras.
O Dr. Gerry Breshers, professor de teologia do Western Theological Seminary, apresenta uma outra perspectiva de compreensão da soberania de Deus (veja aqui). Ele afirma que a soberania de Deus significa que Deus não deve satisfações a ninguém, e, portanto, não precisa prestar contas ou dar explicações de seus atos. Isso é evidente, pois Deus não tem ninguém acima dele que o obrigue a fazer ou deixar de fazer o que quer que seja. Nesse sentido, é soberano, é absolutamente livre para agir, sem se submeter a qualquer outra vontade senão a sua mesma.
Essa livre autodeterminação de Deus implica que Deus é soberano no sentido de poder fazer qualquer coisa que escolha fazer, em qualquer tempo que escolha fazer. “Deus pode fazer” é diferente de “Deus faz”. O fato de Deus poder fazer qualquer coisa que escolha fazer não significa que tudo o que acontece se explica pela ação de Deus. Deus não é “o agente primário – a causa primária, a última explicação – de tudo o que acontece”, como pretende Talbot. De fato, há muita coisa que acontece em oposição à vontade de Deus.
Isso explica o Deus que sofre por amor. O Deus que morre, em vez de matar. O Deus que se sacrifica. O Deus que dá passos para trás para abrir lugar para suas criaturas. O Deus que se esvazia para que suas criaturas tenham espaço de ser. O fato de que Deus pode fazer tudo quanto escolhe fazer, mas não é responsável por tudo quanto acontece, explica o Deus que chora, lágrimas de Jesus:
Jerusalém, Jerusalém, assassina de profetas,
que agride os mensageiros de Deus!
Quantas vezes desejei reunir seus filhos,
reunir seus filhos como faz a galinha,
que mantém seus pintinhos debaixo das asas –
MAS VOCÊ RECUSOU E ME VIROU AS COSTAS!
Deus é soberano. Deus pode fazer tudo o que escolhe fazer, na hora em que escolhe fazer: “Agindo eu, quem o impedirá?, pergunta pela boca do profeta Isaías. Mas isso não significa que Deus faz tudo o que pode. E muito menos significa que faz acontecer todas as coisas e controla cada detalhe dos fatos de nossas vidas.
Deus pode fazer tudo o que quer fazer. Mas, Deus é amor, e, portanto, como bem disse o jesuíta François Varillon, “Deus faz tudo quanto o amor pode”. Em seu livro A humildade de Deus, expressa a grandeza do amor e da soberania de Deus: “Deus respeita de modo absoluto a liberdade do ser humano. Ele a criou, e não foi para petrificá-la, ou violentá-la. É por isso que ele jamais grita, nem impõe. Ele sugere, propõe, convida. Ele não diz “Eu quero”, mas “Se tu quiseres” (…) “Deus é maior que o nosso coração”, diz são João na sua primeira carta. Ele fica escondido para não se tornar irresistível. A sua invisibilidade é uma forma de pudor”. A humildade de Deus é sua forma de amor.
fonte: Fan page do Ed René Kivitz [via Pavablog]

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