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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sobre Rachel Sherazade, justiceiros e “marginaizinhos”

Publicado por Ricardo Alexandre
Sobre o editorial de Rachel Sherazade no “SBT Repórter”, no qual a jornalista defende o grupo que amarrou um “marginalzinho” nu em um poste no Rio de Janeiro, gostaria de excepcionalmente usar deste espaço semi-musical para dizer o seguinte:
A teologia da libertação católica e a teologia da missão integral protestante celebrizaram o conceito do “pecado estrutural” que, apesar de ganhar corpo no século 20, remonta a São Basílio Magno (que dizia que “a fome é inadmissível, assim como indigência causada pela tua abundância” lá no século quarto). Basicamente, o conceito de pecado estrutural defende que, além dos pecados pessoais (roubar, matar, praticar a imoralidade, mentir etc.) há certo tipo de desvio da vontade de Deus que diz respeito à estrutura das coisas. Ao jeito que a sociedade se organiza, à forma com que o egoísmo, a violência e a maldade está entranhada na estrutura das nossas relações.
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A bancada evangélica, por exemplo, embora julgue-se porta voz da justiça divina defendendo os valores da família (ou seja, em tese, lutando contra o pecado pessoal) cai no pecado estrutural de usar de espaço público para legislar em causa própria, ou atuar em defesa do grupo que o elegeu a custa da sociedade como um todo. Não é um conceito liberal ou marxista; pelo contrário, é um conceito muito ortodoxo teologicamente, a ponto do papa Francisco se referir a ele diversas vezes nos últimos tempos.
Provavelmente, Rachel Sherazade, que se diz cristã, nunca ouviu falar em pecado estrutural. Não deve ter lhe ocorrido que “o marginalzinho” nu em um poste é tão vítima da estrutura corrompida quanto aquele de quem roubou. O justiceiro, cuja atitude a jornalista chama de “compreensível”, também é vítima do pecado estrutural, assim como o infeliz que foi deixado amarrado com uma trava de bicicleta no Flamengo.
Por isso, entre outros motivos, não devemos tomar a vingança em nossas mãos. Por isso não devemos estimular o ódio como paga pelo ódio. Por isso, a única saída é romper o ciclo de maldade, e não estimulá-lo.
Ela termina o texto com um sorriso sarcástico nos lábios, se dirigindo “aos que se apiedaram do marginalzinho”: “Faça um favor ao Brasil, adote um bandido”, disse ela, com a força e eloquência dos que já ouvem a claque imaginária ao fundo. Adotar um bandido é o que Jesus Cristo mais espera que seus seguidores façam. Que não sejamos cristãos o bastante para isso, é tristemente compreensível. Orgulhar-se disso em rede nacional, já é triste demais.
Em resumo: gostaria que meus amigos não caíssem na facilidade de acreditar que Sherazade diz o que diz porque é evangélica. Ela diz o que diz porque é ignorante sobre as raízes de sua própria fé, e está entorpecida com a possibilidade de ser usada pelo SBT para ser “porta voz” de certo segmento da sociedade.
O segmento ignorante.

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