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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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terça-feira, 4 de junho de 2013

Vaidade e orgulho, êxito e fracasso


Fernando Pessoa, [via Ricardo Gondim]
[...]
O orgulho é a consciência (certa ou errada) de nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência de nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, por ser ambas as coisas vaidoso e orgulhoso, pode ser – pois tal é a natureza humana – vaidoso sem ser orgulhoso.
É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência de nosso mérito para os outros, sem a consciência de nosso próprio mérito. Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é.  É a verdade em ação.
Como em todo homem existem as qualidades universais da humanidade toda em baixo grau que seja, todos são até certo ponto orgulhosos e até certo ponto vaidosos.
O orgulho é, em si mesmo, tímido contractivo; a vaidade, ousada e expansiva. Aquele que está seguro (por mais errado que seja) de que vencerá ou conquistará, não pode temer. O medo – onde não é uma disposição mórbida, arraigada em neurose – não é mais do que falta de confiança em nós mesmos para dominar um perigo.
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O sinal intelectual exterior da vaidade é a tendência à zombaria e ao rebaixamento dos outros. Só pode zombar e deleitar-se na confusão dos outros quem, instintivamente, se sente não vulnerável a semelhante zombaria e rebaixamento.
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(Admiremos, mas nunca idolatremos. E se devemos idolatrar, idolatremos somente a verdade, pois é a única idolatria que não pode corromper, uma vez que o que a idolatria corrompe é a verdade, e a idolatria da verdade é, portanto, a única que não pode corromper (gasta-se a si mesma?).
[...]
Nada prejudica tanto um homem na estima dos outros quanto o senso de que ele pode ser melhor do que eles. Ao senso geral e constante de que ele não lhes é superior. Soma-se a suspeita ocasional de que ele pode ser, e o desapreço, incolor como é, assume uma tonalidade de inveja, pois os homens que só admiram quando têm certeza, invejam por suposição.
A hesitação no saber de que um homem pode ser melhor que nós é tão enervante como se alguma coisa agradável nos possa acontecer; esperamos que não, mas esperamos com incerteza. E, como assim tememos mais o acontecimento que semitememos, no outro caso, detestamos mais o homem que quase admiramos. Em ambos os casos, tememos a possibilidade da certeza, mais do que a própria certeza (“não sabemos se devemos admirar”).
Se apenas o senso do desapreço paira como uma sombra sobre as mais negras tragédias da maturidade de Shakespeare, é impossível afirma-lo; mas não é possível que tal desapreço tivesse sido o único na causa da melancolia que se revela diretamente em Hamlet, que escorre nas frases de Otelo e Rei Lear, que, aqui e ali, serpenteia, como se seguisse a contorção da mente sofredora, própria estrutura verbal das supremas expressões de Antônio e Cleópatra. O próprio desapreço desdobra-se em vários elementos depressivos.
Temos em primeiro lugar o próprio desapreço , em segundo, o apreço a homens inferiores, e em terceiro, o senso de que, algum esforço como o de outros homens – a erudição de um, as conexões de outro, o acaso, qualquer que possa ter sido, de um terceiro, poderia ter vencido a dificuldade. Mas o próprio gênio que causa o desapreço inicial embota o espírito para as atividades que poderiam contrabalançá-lo
O homem pobre e orgulhoso, que sabe que seria menos pobre se pudesse ao menos esmolar ou humilhar-se, sofre não menos pela sua pobreza, não só pela melhor posição social de homens menos orgulhosos ou mais afortunados, mas também pela impossibilidade de esmolar como eles ou curvar-se como eles diante daquilo que os liberta de uma pobreza semelhante.
Surge então uma revolta do homem contra seu próprio temperamento; nele se instala a dúvida de si mesmo e, como o homem pobre e orgulhoso pode perguntar a si mesmo se não será inábil para as coisas práticas mais do que demasiado orgulhoso para descer até elas, ou se seu orgulho não será o modo de mascarar a si mesmo a sua incompetência para a ação, pode o homem de gênio que não é apreciado cair na dúvida de se sua inferioridade de senso prático não é uma inferioridade em si mesma e não somente o lado negativo de uma superioridade, o defeito de um mérito que não poderia existir sem tal defeito.
[Fernando Pessoa – Obra em prosa – Ideias estéticas da literatura/literatura europeia – Editora Aguilar, Rio de Janeiro, página 312]

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