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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O pastor nazista

Historiadores revelam participação de luterano na matança de judeus e intensificam debate sobre religião e nazismo


publicado originalmente em O Globo

O pastor Walter Hoff, da igreja luterana, que
apoiou o nazismo [ DIVULGAÇÃO ]
BERLIM - Enquanto o Vaticano silenciou durante o regime nazista, os luteranos tiveram uma participação mais ativa na perseguição dos judeus. Adolf Hitler e Joseph Goebbels eram de origem católica, e Hitler proibiu que o seu ministro da propaganda se desligasse da Igreja, como planejava. Mas foi a igreja luterana, da qual cerca de 50% da população da Alemanha faziam parte já naquela época, a que mais colaborou com o regime.

Em um estudo que será publicado em abril na revista de História “Zeitschrift für Geschichte”, Dagmar Pöpping, da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, conta a história do pastor luterano nazista Walter Hoff, que participou pessoalmente do extermínio de judeus da Bielorrússia (algo entre 786 e mil pessoas) e confessou o crime aos seus superiores, mas nunca foi condenado por nenhum tribunal.

Segundo o historiador Manfred Gailus, autor do livro “Crença, Confissão e Religião no Nacional Socialismo”, Hoff não foi punido porque a igreja protestante abafou o caso.

Em carta, orgulho do extermínio

Casado com uma integrante da associação das mulheres nazistas e pai de seis filhos, Hoff fez carreira a partir de 1933 e tinha o apoio pessoal de Joseph Goebbels. Em 1934, ele foi promovido a chefe da igreja luterana da região de Berlim e Brandenburgo, mas, durante a guerra, foi convocado como pastor da Wehrmacht, nas tropas do leste, que atuaram na ocupação da União Soviética e, em 1943, no extermínio dos judeus da Bielorrússia.

Pouco depois, ele escreveu aos seus superiores, contando, com orgulho, a ação sangrenta. Depois da guerra, quando os criminosos e colaboradores começaram a ser processados, Hoff tentou se livrar de culpa dizendo que tinha confessado o crime apenas para provar que era “um bom nazista”. No final dos anos de 1950, a central de investigação dos crimes nazistas de Ludwigsburg começou a apurar o seu caso, já a partir das pregações nazistas, mas arquivou-o por falta de provas.

Mesmo os textos das pregações nazistas de Hoff, que conclamava os berlinenses a agradecer a Deus “pela eliminação dos judeus da Alemanha”, não pesaram contra ele. Até a sua morte, em 1977, recebia uma boa aposentadoria da igreja luterana.

Setenta anos depois do massacre de judeus praticado com a ajuda de um religioso, na região bielorrussa de Klimowitchi, onde aldeias e cidades inteiras foram exterminadas logo depois da chegada dos invasores, o caso começa a ser investigado pelos luteranos.

O bispo luterano berlinense Markus Dröge disse que a igreja fundada por Martinho Lutero falhou ao apoiar os nazistas e também ao não investigar esse passado depois da guerra.

— A igreja luterana foi em muitos casos criminosa e isso nos obriga hoje a uma posição crítica em relação a todas as ideologias — disse o bispo luterano.

A igreja de St. Petri, onde Walter Hoff atuava como o chefe da paróquia luterana do centro de Berlim, e onde todos os anos, no “aniversário do Führer”, dia 20 de abril, era realizado um culto luterano por Hitler, no qual os pastores agradeciam pela luta do ditador contra “o judaísmo mundial”, foi destruída pelas SS no final da guerra.

No mesmo terreno onde ficava a igreja luterana que tanto apoiou os nazistas, a prefeitura de Berlim mandou construir uma igreja multirreligiosa, para cristãos, judeus e muçulmanos, um projeto financiado pelos luteranos. As obras deverão começar em breve.

Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, noventa e seis por cento dos alemães eram católicos ou luteranos. Os demais eram judeus. Muitos católicos e luteranos praticantes ingressaram nas tropas SS e não viam nisso conflito de consciência.

— Na época, perseguir judeus na Alemanha não era algo visto como crime mas como tarefa de um bom alemão, que precisava eliminar os elementos “perseguidores” do povo alemão, como dizia a linguagem desumana do regime — revela a historiadora.

Igreja rezou missa pelos nazistas

Enquanto na Igreja católica, o Papa Pio XI, arrependido de ter assinado um acordo com Hitler, em 1933, quatro anos mais tarde mandou distribuir, nas igrejas de toda a Alemanha, a encíclica “Mit Brennender Sorge” (Com ardente preocupação), a única que foi redigida em alemão, a igreja luterana mandava rezar um “culto de ação de graças” pela chegada dos nazistas ao poder.

— Na Alemanha, a igreja católica era menos ligada aos nazistas. De 1940 a 1942, muitos padres foram perseguidos e mosteiros católicos fechados. Quatrocentos e dezessete padres católicos foram deportados para campos de concentração — lembra Pöpping.

Ainda assim, o papel da Igreja católica divide as opiniões. Desde o lançamento da peça do dramaturgo Rolf Hochhuth “O Vigário”, em 1963, o silêncio de Pio XII, que se tornou Papa em 1939, em relação ao Holocausto é visto de forma bastante crítica.

Dagmar Pöpping argumenta que o silêncio da Igreja foi mais uma forma de evitar o pior, o aumento das perseguições. Só na Polônia, dois mil padres tinham sido deportados para campos de concentração. Uma investigação feita pelo Vaticano no processo de beatificação de Pio XII revela que ele teria ajudado a salvar milhares de judeus, abrigando-os em igrejas e conventos.

O teólogo Hans Küng, que conheceu Pio XII pessoalmente, lembra do Papa como “uma personalidade bastante carismática”. Apesar disso, ele afirma:

— O Papa Pio XII se recusou a critcar publicamente a maior matança da História. Contra isso, não adianta mostrar documentos.

Já o alemão Andreas Englisch, autor de uma biografia de Bento XVI, lembra que um dos momentos mais tocantes do seu pontificado foi em maio de 2006, quando o Papa visitou Auschwitz, na Polônia, e falou sobre como era “difícil e opressor para um cristão, um Papa que vem da Alemanha”, nesse “lugar de terror contra a Humanidade sem paralelos na História”.

Mas, pouco depois, o Vaticano reabilitou o bispo Richard Williamson, da Fraternidade de São Pio, que negou o Holocausto.

De acordo com Englisch, um dos maiores erros de Bento XVI foi não ter abordado o problema em sua visita ao Oriente Médio.

— Os israelenses esperavam que ele falasse um pouco mais do papel da Igreja na ditadura nazista e da sua própria história, como homem do exército de Hitler (integrante da Juventude Hitlerista) — afirma Englisch. — Ele perdeu uma chance hitórica.

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