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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Mercadores de milagre

imagem: Internet

Ricardo Gondim, no seu site
Cursei o Programa de Mestrado da Universidade Metodista de São Paulo. As aulas aconteciam no edifício Capa, vizinho à Clínica de Fisioterapia. Não havia como evitar o entra e sai de veículos adaptados para o transporte de homens, mulheres e crianças portadores de deficiência como paralisia cerebral, paraplegia e tetraplegia. Enquanto estacionavam, era impossível virar o rosto. Apesar de alguns alunos parecerem insensíveis, notava-se a maioria nitidamente constrangida com a carências daquelas pessoas. No esforço de pais e enfermeiros empurrarem cadeira de rodas ou maca, testemunhávamos a resiliência de quem lutava pelo bem estar e saúde dos outros. Idosos, mesmo empunhando muleta, bengala ou andador, mantinham sua dignidade.
Nunca entrei  na clínica, apenas imaginei a delicadeza de médicos, enfermeiras e fisioterapeutas no trato de gente tão frágil. Sei também que alguns daqueles pacientes pingavam bastante suor para agarrar cavaletes e argolas e compensar seus impedimentos musculares. Dentro de clínicas semelhantes, espalhadas pela cidade, a vida segue numa toada diferente do resto do mundo.
Ao presenciar o movimento daqueles deficientes, liquidei com a possibilidade de acalentar qualquer encanto com bravata de milagreiro. Como iludir-me com os testemunhos de cura que televangelistas e pregadores de rádio anunciam em larga escala? Como continuar confundindo fé com credulidade?
Quem assiste ao trabalho de um pai descendo o filho pela rampa de uma ambulância, não se deixa intrigar com declarações estrondosas de falsos ministros do Evangelho. Não há como dar crédito a quem usa a Bíblia para prometer que serão curados “pela fé” todos os doentes que comparecerem “à vigília da segunda-feira”, “à corrente dos 348″ ou “à cruzada pró-salvação do mundo”.
Meu berço religioso foi a Igreja Presbiteriana Central de Fortaleza. Em meus primeiros passos, pouco escutei falar em cura divina. Os presbiterianos eram conhecidos como “tradicionais” - uma versão conservadora, porém fundamentalista, do movimento evangélico. Um evangélico “tradicional” acredita que milagre depende muito mais dos critérios unilaterais de Deus, que decide se  - ou quando – vai operar. Na necessidade de alguém, que adoece na comunidade, os crentes “tradicionais” preferem repetir: Seja feita a tua vontade.
Depois que passei pela experiência pentecostal e falei em línguas (tecnicamente chamada deglossolália), tornei-me um fiel fervoroso. Compareci a diversas conferências em que professores e teólogos demonstravam, na Bíblia, a atualidade das curas divinas. Estive em duas conferências patrocinadas por um conhecido televangelista de San Diego, na California: Morris Cerullo. Tornei-me evangelista associado da Cruzada Boas Novas, (hoje considero cruzada um termo horroroso ) de outro missionário norte americano: Bernhard Johnson. Interpretei Jimmy Swaggart, o maior expoente do pentecostalismo latino americano, em sua turnê pelo Brasil – Morumbi e Maracanã.  Antes de ser alijado pelos evangélicos por solicitar os serviços de uma prostituta, Swaggart cria e pregava sobre cura divina. Eu também preguei e me vali dos raciocínios que fundamentam a lógica de buscar solução milagrosa para as enfermidades. Em todas as minhas experiências, presencieiforçação de barra e nenhum milagre.
Portanto, não me considero neófito, sequer incrédulo quanto às declarações categóricas de qualquer evangelista sobre cura divina. Conheço todos os versículos bíblicos que sustentam a pregação de que intervenções divinas e sobrenaturais acontecem em reuniões e conferências evangélicas. Ninguém precisa me converter. Consigo citar de cor Isaías 53, Marcos 16, 1Coríntios 12.
Acontece que a dor que mexeu comigo na calçada da clínica de fisioterapia me ajudou a ver o mundo com outros olhos. Vi uma mãe encaixando a cabeça da filha em um amparador da cadeira de rodas e as escamas dos meus olhos caíram. De repente me lembrei dos inúmeros hospitais com crianças com câncer, das sessões de hemodiálise, do esforço de quem ensina Braile para deficientes visuais e dos professores de sinais para surdos.  A fortaleza daquela mulher escancarou para mim a angústia de milhões de outras mães. E assim o meu coração se fechou para as antigas lógicas milagreiras.
Mesmo que eu ainda fraquejasse, inclinado a acreditar nos pregadores de cura divina, teria que lembrar da multidão de meninos e meninas que agonizam com HIV/Aids no Congo, África do Sul, Moçambique e Angola. Se num deslize do bom senso, condescendesse com os Cerullos, com os Benny Hinns e com os R. R. Soares da vida e aceitasse suas interpretações literais da Bíblia, eu teria que lembrar do mal estar que muitos doentes sofrem, naquele exato momento, devido à quimioterapia.
Quando ouço promessas de milagre a granel, pergunto: - Quem vai ajudar a adolescente que não tem namorado porque nasceu desfigurada por alguma anomalia genética? Quem quer lavar os pratos na casa onde vive o rapaz com tetraplegia? Os religiosos deveriam querer lidar com o mundo real e não com a versão alucinatória da vida que oferecem aos seus fieis.
Por que a realidade bruta do capitalismo, que produz morte, permanece intocada enquanto pastores se contentam com a miudeza de intervenções pontuais de Deus? O mundo carece de grandes intervenções – de revoluções –  não de panaceias. Quem prega Evangelho não tem o direito de afirmar que em tese todos serão curados e depois dar de ombros aos que não receberam o que foi prometido. É cômodo justificar o malogro em reverter as doenças agudas e críticas dizendo que faltou fé ou que não era propósito de Deus. Eu me disponho ajudar qualquer evangelista que tenha coragem de dar plantão na calçada da Universidade Metodista – vou buscá-lo onde estiver. Sei de antemão que ninguém aceitaria o meu desafio. Eles só se interessam em propagandear seus prodígios. O intuito deles é prosperar o empreendimento religioso que encabeçam. Caso algum deles acreditasse mesmo na interpretação que fazem da Bíblia, estariam de joelhos, clamando aos céus, nos corredores das clínicas de câncer infantil, nas hemodiálises ou nas Unidades de Tratamento Intensivo dos grandes hospitais.
O Evangelho oferece outras respostas para o sofrimento humano. Os prodígios de Deus se mostram no serviço, no amor solidário e na compaixão. A mensagem de Jesus objetiva revelar que as mãos e os pés divinos se tornam as mãos e os pés dos que se doam na dor alheia. Não conheço os profissionais que trabalham na Clínica de Fisioterapia da Universidade Metodista, estou certo, porém, que todos encarnam a real possibilidade do milagre.
Soli Deo Gloria

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