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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O delegado que lê Hannah Arendt, Slavoj Zizek e é doutorando em Ciência Política

Marco Antônio Martins no Folhapress [via Pragmatismo Político ]
Delegado hare krishna é formado em jornalismo e em direito, faz doutorado em Ciência Política e surpreende pelas ideias pouco comuns no ambiente policial
Orlando Zaccone D’Elia Filho, 49, é um delegado peculiar, e não apenas por ter “hare” tatuado em um antebraço e “krishna” no outro ou fotos de manifestantes mascarados em seu Facebook.
O que mais chama a atenção nesse carioca da Tijuca (zona norte do Rio), formado em jornalismo e em direito, são suas ideias pouco comuns no ambiente policial.
Responsável pelo inquérito inicial do caso Amarildo, foi Zaccone quem desmontou a versão de que o assistente de pedreiro seria traficante -ele desapareceu após ser levado por policiais militares para a base da Unidade de Polícia Pacificadora na Rocinha.
“No Brasil, o criminoso identificado como inimigo perde o estatuto da cidadania. Se o Amarildo fosse identificado como traficante, a forma como morreu passaria a não ter mais importância.”
Esse raciocínio é parte do que ele defende em sua tese de doutorado em ciência política, que será apresentada neste mês na UFF (Universidade Federal Fluminense).
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Delegado Orlando Zaccone critica a violência e defende uso de soluções políticas (reprodução)
Nela, argumenta que a alta letalidade da polícia carioca -cujo pico, em 2007, foi de 1.330 pessoas mortas- é legitimada pela sociedade e pelo sistema judicial.
“A polícia mata porque tem autorização do ambiente social. Tortura e execução, da forma como aconteceu com o Amarildo, já foram aplaudidas no cinema, no ‘Tropa de Elite’. Agora teve grito porque nego começou a sentir nas ruas a violência policial. Aí se sensibiliza com o outro.”
Zaccone conversou com a Folha na delegacia de Ricardo de Albuquerque, bairro na divisa com a Baixada Fluminense, a cerca de 40 km do centro do Rio, para onde foi transferido há três semanas, após oito meses como titular da DP da Gávea, na zona sul.
A movimentação foi considerada, tanto internamente quanto nas redes sociais, uma punição por sua atuação no caso Amarildo; ele nega.
“Isso tudo foi especulação, eu até expliquei num post que não havia nenhuma vinculação com o caso Amarildo, até porque eu fui mantido na unidade até a investigação chegar ao fim pela Delegacia de Homicídios. Me considerei prestigiado.”
Onde Zaccone claramente tem prestígio é entre os manifestantes que tomaram as ruas, desde os da Marcha da Maconha até “black blocs”.
“As autoridades ficaram velhacas, cara. Pessoas até mais jovens do que eu, que ascenderam ao poder político, operam como seus avós. A garotada olha para as autoridades e não tem em quem se inspirar, até porque não é ouvida, está descartada do processo político.”
Em sua visão, essa falta de espaço para os jovens foi o que gerou os protestos, que qualifica como “revolta”. Ele critica a maneira como a polícia foi usada e a transformação de “revoltosos em criminosos organizados”, inclusive com o apoio da mídia.
“Quando a polícia vira o primeiro argumento, parceiro, fica difícil. Ela é necessária onde você não pode mais contar com a política. O que faltou foi habilidade política para resolver muitas das questões colocadas.”
Zaccone identifica-se com os jovens também por ter sido manifestante. Ao entrar na PUC Rio em 1982, aos 18 anos, participou de um grupo “que não era ligado a partido, tinha propostas meio anarquistas”.
“A gente pegou o final da ditadura, me lembro de organizar, pelo centro acadêmico, a ida dos alunos à passeata das Diretas Já na Candelária.”
Depois de passagens pelo jornalismo (foi repórter do jornal “O Globo”) e por um templo hare krishna (“Raspei a cabeça, botei saia, fui vender incenso na rua”, diz), fez faculdade de direito e entrou na Polícia Civil em 1999.
Sua formação variada lhe deu um discurso bem articulado, que Zaccone entrega num tom de voz calibrado, citando acadêmicos como Hannah Arendt e Slavoj Zizek.
Deu-lhe também segurança para tocar em assuntos polêmicos com frases que sabe que causarão impacto.
“Cumprir a lei muitas vezes é o que pode ter de pior para a segurança pública, dependendo da lei. No caso das drogas, é uma tragédia”, diz o delegado, membro da ONG internacional Leap(Law Enforcement Against Prohibition), que defende a descriminalização total das drogas.
Em sua opinião, o proibicionismo ajudou a criar a figura do “inimigo matável”: traficantes podem ser executados, com aprovação social e jurídica.
“Traficante tem direito e precisa ter defesa. Agora, quem é que vai ter coragem de falar isso? Imagina, o papa Francisco chegou aqui e falou que os traficantes são mercadores da morte. Por que ele não fala isso em relação ao presidente da Ambev?”
Sua preocupação maior é com o transbordamento do que chama de “Estado policial”, onde quem questiona o “estatuto político-jurídico” passa a ser enquadrado como inimigo –a repressão às manifestações seriam um reflexo disso.
“Temos de começar a pensar numa intervenção mais política no ambiente social, acabar com esse fetiche militarizado de segurança pública para resolver problemas que têm de ser resolvidos na esfera política.”

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