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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Angústia, espiritualidade e fé

imagem: Internet
De onde vem a angústia? A minha chega sorrateira. Sentimentos trágicos se insinuam parecidos com o frio quando entra no quarto por entre as frestas da janela. Tudo me parece cotidiano, normal, até que, de repente, vem aquele nó, o aperto entre a garganta e o peito que chamam de angústia.
Sofro comigo mesmo. Noto que meus movimentos em busca da felicidade são estabanados. Machuco quem eu gosto de amar, esqueço que lido com nervos expostos.
Fico também nervoso com o sacerdote engravatado a gesticular promessa de abundante prosperidade. Pergunto-me se ele não pensa nas mulheres e crianças de mãos estendidas para a tigela de arroz que grupos humanitários oferecem em campos de refugiados. Sei que tais questionamentos me indispõem com os religiosos. Mas como transpor o fosso que separa o discurso da prática? Talvez reconhecer que é próprio da religião preferir as afirmações categóricas aos atos precários de solidariedade. Angustio-me em perceber que a humanidade experimenta o céu como vislumbre intuitivo, mas o inferno se concretiza e tortura de fato.
Minha alma não sossega. Não há trégua na confusão teológica quando observo jatos supersônicos e tanques de guerra. Quero saber: como eles queimam galões de combustível se falta gaze e esparadrapo nos ambulatórios da periferia? Na madrugada, antes do sol nascer, vejo os pontos de ônibus já lotados de homens e mulheres que se antecipam ao dia para ganhar subsalários. Eu precisaria de uma dose cavalar de cinismo para me isolar dessa realidade que me agride todos os dias. Contudo, acabo me afastando.
Por isso acho ridículo o debate sobre a existência ou não de Deus. Noto que  poucos se dispõem abraçar a mulher que acabou de enterrar o filho morto pelo tráfico. Enquanto não tivermos peito de agir como humanos, não devemos ousar debates sobre o transcendente. Pragmático, só me permito pensar em justiça nas ações verdadeiras. Divagação meramente filosófica me aborrece. Que mundo os humanos construíram em que ricos e famosos ostentam relógios pontilhados de diamantes enquanto multidões dormem com fome nos bolsões miseráveis? Para mim, essas lógicas – teológicas, filosóficas – justificam a atual ordem das coisas, mas não passam de remendos mal cerzidos para que pequenos burgueses – como eu – continuem em suas zonas de conforto.
Abro mão de qualquer  espiritualidade que se cala diante de uma economia canibalizadora de gente. Muitos não ligam, não se importam. Na agonia de ver tanta alienação, tento orar com Cecília Meireles: Salva-me, Senhor, do horizonte/ sem estímulo ou recompensa/ onde o amor equivale à ofensa. Mas me frustro. Os anos aceleram. A vida vai se esgotando. Falta tempo. Meu ânimo corre o risco de desbaratar-se em nada. Nada mais fútil que uma tesoura que não corta. Nada mais irritante que um vaso trincado. Nada mais triste que um homem constatar que sua vida pode se esvair, inodora e sem sabor.

Ambrósio, um dos primeiros cristãos, dizia: Nosso mundo romano morreu porque temeu a tragédia e fugiu do sofrimento e porque aborreceu o fracasso. No medo da tragédia nos desdobramos ao poder. No medo do sofrimento, louvamos a indiferença. E no crescente esplendor de nossos mil anos, tornamo-nos crueis, práticos e estéreis. Ganhamos o mundo, mas no processo perdemos a alma.
Deus, não quero perder a minha alma. A minha esperança implora: nunca se acostume ao cômodo. Desejo assim que as estruturas demoníacas que me rodeiam continuem indizivelmente hostis e ruins. Rogo para não me sentir vencido pela fadiga – menos por covardia. Portanto, minha fé passa a significar que a possibilidade do milagre só virá de minhas mãos trêmulas, mas perseverantes  - e não lá de fora.
Soli Deo Gloria

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