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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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terça-feira, 7 de maio de 2013

Perder a alma é perder a vida

imagem: google

Ricardo Gondim, no seu site

Qual o proveito do homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?Marcos 8:36.
Perder a alma traz implicações graves: desaparecem amigos, agrava-se a paranóia, some o riso, seca a alegria. Perder a alma significa extraviar-se, esvaziar-se, desfigurar-se. Os processos que conduzem à perdição parecem bem mais sutis do que se imagina.
Falar sem pensar põe o coração em risco. Disparar conceitos sem considerar quem ouvirá, arrasa com a subjetividade do coração; rouba a paz. O religioso que promete milagre pela televisão sem levar em conta a mãe que, naquele exato momento troca as fraldas do filho tetraplégico, arrisca galvanizar-se. Condena-se o político que discursa platitudes no palanque, pensando na próxima campanha e não nas trágicas consequências de suas promessas entre os mais pobres. Quem se gaba de acordar com saúde deve lembrar, não de sua fortuna, mas do sofrimento de algum desconhecido que amarga horas em hemodiálise.
Para salvar-se é preciso transpor a ponte que separa verdades livrescas do saber comum. Sabedoria que promove ética pode vir da boca do idoso ou dos conselhos da mãe quando disciplina o adolescente.
Para salvar-se é preciso cuidar dos idealismos; deixar de priorizar desafios estratosféricos, megalomaníacos, messiânicos e gastar tempo com pessoas. Salvação pode significar liberdade para não seguir o roteiro alheio, principalmente de quem se considera equipado para sugerir seis, sete ou doze passos para o sucesso. A alegria de perceber caminhos novos, reflexões novas, pensadores novos supera em muito a satisfação de decorar, acriticamente, frases, versículos, parágrafos. Arrepiar a pele com o afeto da poesia e da música pode ser antídoto à arrogância intelectual, que mata.
Não há júbilo em viver imitando os bem sucedidos. Melhor ser um caderno cheio de rabiscos à uma Suma acadêmica que acende fogueira. Convicções absolutizadas por certezas formam pessoas exigentes que invariavelmente se suicidam em ternura, afeto e elegância. Lucidez também mata. Para safar-se desse laço de perdição, vale cantar, mesmo desafinando e dar de ombros à austeridade do demagogo, que nunca será espirituoso.
Solilóquios nem sempre indicam loucura. É saudável não ter vergonha de brigar diante do espelho, apontar o dedo para si e dizer: “como você é ridículo”.
Certas companhias são perniciosas. Redenção pode acontecer no exílio, na saída do castelo onde vivem maliciosos, beligerantes, rancorosos. Escapam da perdição os que encontram gente que aprendeu a voar com a suavidade das aves quando migram no inverno. Parceiros que não escondem lágrimas na hora da emoção viram bons amigos; eles podem ajudar a encontrar o self perdido em algum passado remoto. Também, é mister não se blindar contra o medíocre, acolher graciosamente quem fere por índole e ser longânimo com o vil. Quem traz luz ao fosso onde essas almas sofrem, não só colore suas existências patéticas, como preserva o próprio espírito.
Sentimentos carecem de aragem. O imponderável navega nas tempestades. Só ventanias desestabilizam zonas de conforto; os que se atrevem a viver sem apoio sabem o significado de ser tangido pelo Espírito. Não temer a insegurança do porvir duvidoso implica em risco; contudo, na beira do abismo se vê o horizonte distante. O covarde se condena ao hades da mesmice. Vidas bem pautadas ficarão como exemplo de pusilanimidade – (coma jabuticaba no pé, e sem lavar; dance bolero; aprenda judô; voluntarie-se na Cruz Vermelha; saboreie pastel de feira-livre; rabisque um diário).

O tempo simultaneamente assassina e salva. Há momentos em que o átimo ligeiro, aquele instante entre dois segundos, merece ficar na retina. As horas passam feito enxurrada de verão, levam tudo e todos, mas não destroem o que a “alma provou e aprovou” (Rubem Alves). A mente sabe entesourar o que lhe trouxe alegria. Por que então não transformar espaços em catedrais, dias em sábados, encontros em alianças e preces em poesia? Viver é colecionar momentos.
Quem ganha o mundo não salva, necessariamente, a alma, mas quem salva a alma ganha o mundo. Já que a vida é frágil, e fácil o caminho para a perdição, convém salvar-se antes que o coração fatigado pare de bater e os olhos se fechem.
Soli Deo Gloria 

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