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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Fé e consciência


Evangélicos recusam rótulo de curral eleitoral e avisam a candidatos que é preciso muito mais do que ser “irmão” para ganhar o voto

Marcelo Santos, na Revista do Brasil [via Pavablog]

Evangélica e nordestina, como se apresenta, Franqueline Terto dos Santos, de 31 anos, garante: na hora de votar, faz o que manda sua consciência, não os pastores ou lideranças de sua igreja, a Batista do Pinheiro, em Maceió. Ela lembra que em 2010, a poucos dias das eleições, o líder máximo de sua igreja no Brasil, o pastor Paschoal Piragine Junior, tentou desancar os candidatos da esquerda por meio de um vídeo que se tornou viral na internet. 
Pensamento livre. A alagoana Franqueline, na hora de votar, faz o que manda sua consciência, e não o que o pastor orienta (Foto: Arquivo pessoal)
No episódio, Piragine Junior orientava os crentes a não votar em candidatos do PT, classificava posições do então governo federal sobre aborto e homoafetividade como “iniquidade institucionalizada” e dizia que, caso os cristãos não se posicionassem nas urnas, “Deus iria julgar a Terra”.
Franqueline, ativista de movimentos sociais como o MST em Alagoas, não entrou na do pastor. E diz conhecer muitos evangélicos como ela que também ignoraram os arroubos partidários do líder religioso. O resultado eleitoral todos sabem. Mas o voto dos fiéis é cada vez mais alvo da sanha política. Principalmente após recente divulgação do Censo 2010: eles já somam 22% da população no país, um expressivo contingente de 42 milhões de pessoas. 
Os números podem ser medidos por meio do crescimento da participação na política partidária. A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) no Congresso Nacional, composta por 70 deputados federais e três senadores, cresceu 50% em relação à legislatura anterior. “Desde a redemocratização, as lideranças passaram a trabalhar junto aos fiéis para que essa ‘tradução’ ocorresse. As elites evangélicas agiram no sentido de conquistar eleitores dentro de suas igrejas”, observa o cientista político Tiago Daher Padovezi Borges, da Universidade de São Paulo (USP). 
Segundo Borges, embora os evangélicos não se alinhem com uma visão comum de economia ou política, as lideranças conseguem mobilizar eleitores por meio de visitas às igrejas e da influência dos pastores. “A relação entre pastor e fiel existe, mas não é imediata. Os fiéis não votam de uma maneira cega com o pastor”, acredita. 
Pastor Elienai (Foto: Gerardo Lazzari)Ainda assim, a atuação parlamentar dos evangélicos tem sido contestada. Dados organizados pela ONG Transparência Brasil revelam que 32 deputados federais da Frente Parlamentar Evangélica, ou seja, quase metade, sofrem processos de sonegação fiscal, formação de quadrilha, peculato, corrupção eleitoral, improbidade administrativa e rejeição das contas de campanha. Nesse caso, justiça seja feita, o percentual é elevado, mas ainda abaixo da média do Congresso, onde 63% dos parlamentares estão em litígio com os Tribunais Regionais Eleitorais.
Elienai: “Muitos pastores não têm uma visão política decente. Para eles, o parlamentar é um despachante avançado da instituição" (Foto: Gerardo Lazzari/RBA)

Relação perigosa

Na opinião de Elienai Cabral Junior, liderança da igreja evangélica Betesda e pastor na zona leste de São Paulo, o pastoreio não combina com política partidária, já que instrumentaliza um valor que não é inerente a outras forças políticas. 
“O líder religioso possui uma aura mística que lhe é dada pela comunidade. Sua palavra tem um peso revestido de sacralidade. Se ele a usa para outros fins que não o sacerdócio, corrompe sua vocação, que é desinteressada. O sacerdócio tem de ser um exercício desprovido de qualquer troca”, sustenta.
Elienai já vivenciou a estranha relação entre igrejas e parlamentares. Na década de 1990 trabalhou no escritório do deputado distrital Peniel Pacheco (PDT-DF). Evangélico e próximo às lideranças de diversas igrejas, o político era constantemente procurado para as mais diversas solicitações. “Pediam cópias de cartazes para eventos, camisetas, lotes de terreno e até pão e salsicha para as festas das igrejas. Sempre dizíamos que o gabinete não dispunha de verbas para esses fins, o que contrariava bastante pastores e líderes”, conta.
Numa dessas ocasiões um pastor de uma grande igreja de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, procurou o gabinete em busca de passagens aéreas para um congresso religioso. Como não conseguiu, conforme lembra Elienai, o líder se indignou e foi atrás de outros deputados distritais. “Pouco tempo depois ele passou novamente exibindo os talões e disparando ameaças, tais como ‘o deputado não quer mais ser eleito, é isso?’”  
Para o pastor da Igreja Betesda, trata-se de um “mau exemplo” em que os próprios evangélicos atuam para corromper os políticos. “Muitos pastores não têm uma visão política decente. Para eles o parlamentar é um despachante avançado da instituição.”

Debates no templo

Pastor Levi (Foto: Fernanda Salviano)Filho de metalúrgico e nascido em Santo André, o pastor Levi Correa de Araújo sente falta da época em que sua antiga igreja organizava debates com políticos e gestores públicos no ABC Paulista. “Foi uma extraordinária experiência pedagógica, de formação e informação sobre política, política partidária e políticas públicas.” Era 2002 e Levi, então envolvido na organização das Conferências de Direitos Humanos de Santo André, atuava na Primeira Igreja Batista da cidade. O que começou como um protesto contra o antigo vício de uso do ambiente religioso como curral eleitoral, questionando a máxima “irmão vota em irmão”, transformou-se em espaço em que representantes do poder público prestavam esclarecimentos dentro da nave da igreja. 
Levi: tempo de eleição é propício para a igreja promover debate, contribuir com informação e com formação 
(Foto: Fernanda Salviano)
Com a proximidade das eleições, Levi teve a ideia de convidar candidatos ao governo estadual e os presidenciáveis. O então candidato Luiz Inácio Lula da Silva esteve por lá, acompanhado à época pelo senador norte-americano e ativista pelos direitos humanos Jesse Jackson e por intelectuais como o teólogo Leonardo Boff. A organização de debates e outras atividades de reflexão continuou por mais um ano, quando Levi, por motivos pessoais, deixou o pastoreio daquela igreja.
Helio SBC (Arquivo Pessoal)Em 2003, ele levou famílias de militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto para uma refeição no templo. Depois, na madrugada, seguiram em direção a um terreno que estava sob controle da empresa Volkswagen, na Vila Ferrazópolis, em São Bernardo do Campo. Junto dele estava o militante, professor universitário e pastor presbiteriano Hélio Sales Rios. “Ocupamos aquela área e fazíamos cultos todos os dias, participando inclusive das assembleias”, relembra. 
Hélio: “Quando um cristão conhece a luta dos movimentos sociais e dos trabalhadores. não tem como ficar indiferente” 
(Foto: Arquivo pessoal)
Em pouco tempo Hélio, que também é diretor no Sindicato dos Professores do ABC, foi “despojado administrativamente”, eufemismo para exclusão do ofício pastoral. “Disseram-me que a igreja não concordava com minha atuação junto aos movimentos sociais.” Um preconceito que nunca abalou a fé do pastor. “Minha opção pela esquerda, pelo socialismo e pela revolução veio da consciência cristã e bíblica. Foi a minha espiritualidade que me levou para os movimentos sociais.” Hélio lamenta que muitos evangélicos estejam “alienados” diante dos acontecimentos. “Assim como toda a sociedade, os crentes também ‘bebem’ as informações vindas de Veja, Globo, SBT, Bandeirantes, Estadão, e por aí vai. Tenho certeza que quando um cristão conhece a luta dos movimentos sociais e dos trabalhadores não tem como ficar indiferente.”  

‘Cabra marcado’ lia a Bíblia e também jornais
Cabra marcadoUm dos principais líderes camponeses do país, João Pedro Teixeira, fundador da Liga Campesina de Sapé, na Paraíba, foi assassinado no dia 2 de abril de 1962.
Sua história de luta pela reforma agrária ficou conhecida dentro e fora do país por meio do documentário Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho.
João Pedro Teixeira começou sua luta sindical nos anos 1950, quando se converteu ao protestantismo na Igreja Presbiteriana. Lia a Bíblia e também os jornais, e não se conformava com o flagelo da população do campo. O líder camponês foi morto numa emboscada a caminho de sua casa.
Antes, já havia sofrido diversas ameaças de morte por latifundiários. Na ocasião, o movimento dos trabalhadores de Sapé já contava com 10 mil associados. “Foi alguém que entregou a vida pela convicção de que lutar pelos direitos dos trabalhadores e pela reforma agrária era cumprir sua vocação cristã e evangélica sem se acovardar”, define o antropólogo Flávio Conrado, pesquisador associado do Instituto de Estudos da Religião, do Rio de Janeiro.
João e a família

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Bancada heterodoxa

A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) é conhecida por obstruir o debate de temas como a descriminalização do aborto e das drogas, a educação religiosa nas escolas públicas e a criminalização da homofobia. Esses parlamentares também monitoram o que consideram “perigos” iminentes a suas igrejas, como a intenção declarada do governo de vetar o arrendamento de horários na TV aberta. Formada por membros de diversas igrejas e partidos, a bancada corresponde a pouco menos de 14% dos deputados federais e de 4% do número de senadores – em que pese sua representação na sociedade ter chegado, segundo o IBGE, a 22% da população. 
De acordo com Eduardo Lopes Cabral Maia, doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor na Universidade Federal de Santa Maria (RS), é difícil medir o quanto a atuação religiosa no Congresso reforça ou fragiliza o amadurecimento da democracia. Para Maia, o barulho das bancadas religiosas em temas polêmicos é maior do que seu tamanho efetivo permitiria. “Os evangélicos não têm capacidade de determinar os processos políticos. Dependem da mobilização de outras forças, como os próprios católicos”, explica.
Em sua tese de doutorado, o professor mapeou 944 proposições dos parlamentares evangélicos durante a legislatura 2007-2010. Separou as ações por temas e concluiu que apenas 3,9% correspondiam exclusivamente aos interesses religiosos. A maior parte dos esforços foi para a área social (66,7%), econômica (10,4%) e de direito do consumidor (7,5%). 
Seu interesse nos evangélicos surgiu quando ainda era estudante da Universidade de Brasília (UnB), em 1998, e assistiu ao duelo entre Cristovam Buarque e Joaquim Roriz pelo governo do Distrito Federal. “Roriz atacava Buarque, classificando-o como um comunista ateu. Mais tarde obteve o apoio do candidato evangélico Benedito Domingos. O peso político religioso foi determinante para a vitória de Roriz”, relembra. “Aquilo aguçou em mim o desejo de observar a força política dos evangélicos.”

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