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"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história." Bill Gates

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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Por que escrevo?

imagem: google


Ricardo Gondim, no seu site
Escrever, só escrever, não é tão difícil como parece. Basta compilar frases. Com um mínimo de sintaxe, respeitando as regras da gramática, e o texto fica pronto. Quem sabe conduzir o argumento com começo e fim, consegue passar na prova de redação. Erros ortográficos já não intimidam. Corretores sublinham em vermelho vocábulos estranhos ao dicionário. Só teimosos ou displicentes erram.
Escrevo procurando fugir de simplesmente amealhar frases. Luto para dar forma a pensamentos que pairam sobre minha cabeça como fantasmas. Ideias parecem vir  de mundos transcendentais. Elas chegam difusas. Por vezes não consigo articulá-las na fala e fico com ânsia de cravá-las no texto. Sei que ideias, presas na imobilidade da escrita, suscitam outros pensamentos.
Inspiração vem com dor de parto. Diante do computador, respiro apressado. Sei que preciso oxigenar o útero da alma para que intuições venham à luz. Alguns textos só nascem a fórceps. Daí tanta angústia.
Quando redijo, sofro para não perder o controle sobre o argumento. As palavras, porém,  parecem adquirir vida própria. Começo o primeiro parágrafo e logo me vejo sequestrado; sou conduzido, não conduzo. Só quem ousa encarar o latejar contínuo do cursor sabe que as palavras são selvagens. O escritor não passa de pretenso domador de vocábulos. Não raro os argumentos mostram as unhas; recusam qualquer submissão. Hipótese pode virar tese,  desfazer-se em antítese, sem jamais produzir síntese. O escritor acaba rendido pela verdade – que lhe escapa.
Quando escrevo, suo para não deixar que adjetivos, sempre exibicionistas, roubem o lugar de honra de substantivos e verbos. Um texto enxuto, sem rococó, sem parnasianismo, ligeiro, cativa bem mais. Ensaios não podem parecer penteadeira.
Árduo ofício, grafar o que nos escapa. Criatividade é dom. Autores com metáforas surpreendentes são iluminados. Sacadas que transformam ouvidos em olhos não são aprendidas. Os melhores autores quebram as nossas pernas ao dizerem que saudade é  ”reverso do parto”; afirmarem que a amada, distraída, “pisava os astros” espalhados no chão do barraco; desejarem  ”paz de uma criança dormindo” ou  ”ternura de mãos que se encontram”.
Engraxo o sapato de regionalistas como Jorge Amado, Erico Veríssimo e José Lins do Rego. Celebro a excelência de portugueses como José Saramago, Vergílio Ferreira e Lobo Antunes. Reconheço a pesquisa árdua de biógrafos como Fernando Morais e Rui Castro. Admiro a criatividade de romancistas como Mia Couto, João Guimarães Rosa e Milan Kundera. Todos, profetas da revelação. Eles comunicam o que homens e mulheres, duros de coração, não captam. Escrevo consciente de que toda essa genialidade é rara como um brilhante negro e toda excelência literária, um milagre.
Mas, como creio em milagre, continuo no esforço de transformar dedos em vara que abre o mar.
Soli Deo Gloria

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