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quarta-feira, 27 de março de 2013

"Houve exageros e equívocos"; Feliciano não é uma ameaça, diz especialista





publicado originalmente no Uai

A decisão do partido do pastor evangélico e deputado federal Marco Feliciano (PSC/SP) de mantê-lo na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados parece não encerrar o debate desse episódio que tem provocado a opinião pública brasileira. Para o professor do mestrado de Ciência da Religião, da PUC Minas, Wellington Teodoro da Silva, no bojo dessa discussão sobre garantias e direitos fundamentais há “exageros e equívocos”.

De acordo com o cientista religioso, diante de um estado laico, justificar a retirada de Feliciano da Comissão de Direitos Humanos e Minorias com base no fato de ele ser um pastor evangélico , se associando a uma corrente do pensamento religioso com ideais declarados de racismo e homofobia, aponta para o primeiro erro da discussão – em grande parte, destaca Wellington, veiculado nas redes sociais. “Por mais que ele seja preconceituoso, estar naquela comissão não fere a laicidade do estado e ele tem o direito de estar lá”, defende o cientista religioso.

Wellington argumenta que não cabe em um estado democrático, que é amparado em preceitos constitucionais, “perseguir ninguém por suas crenças religiosas”. Para ele, o que se deveria discutir é a consolidação e o fortalecimentos das instituições – nesse caso, a Câmara dos Deputados, que tem dado demonstrações, muitas vezes, de estar entregue a conchavos políticos e interesses de grupos. O cientista religioso lembra que Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados após um acordo de lideranças partidárias, que deu ao PSC a prerrogativa de colocá-lo no cargo com o apoio da bancada evangélica.

Para Wellington, conviver com o diferente na democracia faz parte das regras do jogo. “Um negro ou um gay que tiver uma visão muito ideologizada, sem abertura para o diálogo, para o diferente, é tão prejudicial quanto o Feliciano”, argumenta ele, sem medo de ser mal interpretado. “ Não estou defendendo o Feliciano, que, com certeza, não é a pessoa mais indicada para estar ali ( na Comissão de Direitos Humanos e Minorias), mas ele terá que, apesar de suas crenças, respeitar o que diz a Constituição do país”, acrescenta o cientista religioso, para quem esse é uma imposição que muitos estão se esquecendo dela.

Para o cientista religioso, outro equívoco do debate, recheado de “teorias religiosas”, está relacionado a suposições de que Feliciano representa uma corrente do pensamento religioso que poderia ameaçar a cidadania, incluindo as minorias. “No Brasil, todo mundo discute religião sem estudar e, portanto, sem entender do assunto. Até mesmo nas universidades isso acontece”, lamenta.

Wellignton que é também presidente da Associação Brasileira de História das Religiões ( veja site www.abhr.org.br ) garante que a corrente religiosa de Feliciano não alcança a maioria dos evangélicos. “Evangélicos também estão nas redes sociais afirmando que Feliciano não os representa. Por isso, o deputado não significa uma ameaça. Ele é apenas uma expressão de um grupo de evangélicos que não é hegemônico”.

Diante dessa evidência, sustentada pelo cientista religioso, Wellington acredita que Feliciano e seus seguidores não deveriam ser “perseguidos”, mas sim confrontados no embate diário do exercício democrático da política. Do contrário, alerta Wellington, surge espaço para neologismos que deturpam o debate e colocam Feliciano com o “discurso do perseguido, do martirizado”, em uma analogia aos primeiros cristãos e ao próprio Cristo.
O cientista religioso se refere a um “irmão de fé” de Feliciano, o também evangélico e deputado federal Anderson Ferreira (PR/PE), que disse que o pastor estaria sofrendo de “evangelicofobia”. Nessa terça-feira, quando o PSC decidiu por manter Feliciano no cargo, em uma faixa levada por seus apoiadores estava escrito: "E se Jesus renunciasse? O que seria do mundo?" Para Wellingotn, esse sim é um debate “perigoso” e que pode levar ao radicalismo.

Contraditório

Wellington defende que o mais importante em toda essa discussão é refletir sobre a necessidade de todos os segmentos da sociedade estarem dispostos a conviver com “o contraditório”. Afinal, sentencia ele, política e religião nunca estiveram separadas, apesar da laicidade de estados mundo afora terem nas constituições esse lastro pra garantir limites na convivência.

Wellington lembra também que o primeiro movimento para separar estado e religião partiu de um segmento religioso, a Igreja católica, com Santo Agostinho, no fim do Império Romano, que em seus escritos sobre o assunto afirmou “... que o que estava ruindo era a cidade dos homens. A cidade de Deus, esta era eterna”, justificando o desligamento dos assuntos pertinentes à religião do debate político e de seus ciclos de decadência.

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